Almada | Final Feliz

Contos de fadas que invocam tabus sociais

De 13 a 15 de Outubro, as Produções Acidentais levam à cena do Teatro Estúdio António Assunção a peça “Final Feliz”, uma criação colectiva a partir de textos de vários autores. A peça pode ser vista Sexta e Sábado às 21h30 e Domingo às 16h.

Nos contos de fadas tradicionais, não as versões açucaradas que chegaram às nossas infâncias, a Cinderela é uma assassina que mata a madrasta, a Bela Adormecida é violada pelo rei seu pai enquanto dorme, dando à luz duas crianças que a madrasta cozinha e oferece ao marido como refeição, sendo por isso queimada viva. Já a madrasta da Branca de Neve pode considerar-se afortunada, pois apenas é obrigada a calçar uns sapatos em brasa e a dançar até à morte.

Estes contos de fadas, segundo as Produções Acidentais “invocam todos os tabus da nossa convivência social: incesto, pedofilia, necrofilia, tortura, crianças homicidas. Se os contos funcionaram desde sempre como instrumentos de regulação dos comportamentos, é também possível utilizá-los para apresentar alternativas à norma dominante: foi isso que procurámos, e encontrámos um manancial de abordagens, modelos e jogos alternativos. Acrescentámos-lhes os nossos, e descobrimos que as Princesas e Príncipes, as maçãs envenenadas e as Bruxas, nos eram afinal muito familiares, e não fugiam sequer à crueza das primitivas versões.” 

A objectificação sexual promoveu historicamente a desigualdade de género. O feminismo nasceu como um movimento social e político que reivindicava a necessária revogação do regime patriarcal para alcançar a igualdade entre as pessoas. No entanto, a verdade é que ainda hoje existem discursos e prácticas sociais que impossibilitam uma verdadeira libertação das mulheres. O final feliz que a modernidade acrescentou aos contos de fadas só é possível porque a figura feminina está morta, ou “impedida de acordar”.

“Encontrámos nos textos de Elfriede Jelinek, Neil Gaiman, Angela Carter, Robert Coover, James Garner e Emma Donoghue, uma dimensão de violência e crueldade presente nas versões primevas dos contos tradicionais, que nos interessava particularmente por interpelar directamente os constrangimentos da ideologia patriarcal impostos às figuras femininas.”, explica ainda a Companhia em relação a esta peça.

As Produções Acidentais promovem projectos de criadores de várias áreas artísticas, miscigenando as suas linguagens próprias, ao sabor da sua disponibilidade e das oportunidades que vão surgindo. Apesar das suas produções serem necessariamente “acidentais”, desde que informalmente começaram as suas actividades produziram 15 criações de teatro, música, escrita, fotografia e artes plásticas. Paralelamente, têm desenvolvido acções de formação artística nas áreas do teatro e da promoção da leitura.

©Luís Aniceto / Contos de Fadas sem serem em versão açucarada.

Ficha Artística:

Produções Acidentais

Criação coletiva a partir de textos de Elfriede Jelinek, Emma Donoghue, Neil Gaiman, Angela Carter, Robert Coover, James Garner
Criadores: Sara Castanheira, César Melo, Ricardo Cardoso, Ana Rita Ferreira, Cláudia Sousa, Luzia Paramés
Intérpretes: Sara Castanheira, César Melo, Ricardo Cardoso, Marta Valente, Lucinda Coelho / Margarida Leal
Tradução: Luzia Paramés e Sara Castanheira
Cenografia e Figurinos: Luzia Paramés
Movimento: Isabel Cruz
Desenho de luz e som: Sandro Esperança
Maquilhagem: Cláudia Sousa
Edição vídeo: César Melo
Fotografia: Luís Aniceto
Coordenação: Luzia Paramés
Classificação etária: M/14

Reservas 212 723 660 . 962 215 929 . teaareservas@gmail.com
Bilheteira Quarta a Sábado 15H-18H30 e uma hora antes da sessão programada

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Sofia Quintas

Directora e jornalista do Almada Online