Caparica | Conversa dos Capuchos II – Natália Correia

Dia 4 de Junho pelas 17h, a segunda sessão da Conversa dos Capuchos é dedicada a Natália Correia sob o título "A Voz da Mátria"

Hoje, dia 4 de Junho pelas 17h, a escritora Natália Correia é homenageada nas Conversas dos Capuchos, englobadas na edição deste ano do Festival de Música dos Capuchos.

Nesta segunda sessão, “A Voz da Mátria” será evocada por uma amiga próxima, sua madrinha de casamento e sua testamenteira, a arquitecta Helena Roseta, e pela escritora Filipa Martins, autora da recém-publicada biografia de Natália Correia intitulada “O Dever de Deslumbrar”. Com moderação de Carlos Vaz Marques.

Há cem anos, tal como hoje, o mundo vivia em convulsão. A nível nacional sucediam-se episódios de agitação política e movimentações grevistas. As ideologias radicais organizavam-se e ganhavam projecção. Nascia o jornal “O Comunista”, órgão oficial do recém-formado PCP. Publicava-se o primeiro número da revista fascista “Ideia Nova”, impulsionada pela ascensão ao poder em Itália de Benito Mussolini. É sob este pano de fundo que nasce em Portugal a escritora Natália Correia.

Nascida na Fajã de Baixo (Ilha de São Miguel, nos Açores) a 13 de Setembro de 1923, Natália de Oliveira Correia, que se estabeleceu em Lisboa com a mãe e a irmã aos onze anos quando o pai emigrou para o Brasil, foi uma das personalidades mais destacadas da literatura portuguesa das últimas décadas. Notabilizada através de diversas vertentes do ofício da escrita (foi poeta, dramaturga, romancista, ensaísta, tradutora, jornalista, guionista e editora), tornou-se conhecida na imprensa escrita e, sobretudo, na televisão, em programas como «Mátria», no qual exprimia uma forma especial de feminismo – afastado do conceito tradicional do movimento e que mais correctamente se poderia intitular «feminilidade portuguesa» – o matricismo, identificador da mulher como matriz primordial e arquétipo da liberdade erótica e passional; mais tarde, à noção de Pátria e de Mátria acrescenta a de Frátria. 

Natália dava largas ao seu invulgar talento oratório – a que não era estranha a coragem combativa que a moveu em vários momentos de intervenção política pública – nas suas polémicas intervenções parlamentares enquanto deputada (1980-1991) e nas tertúlias artísticas: primeiro em sua casa, mais tarde no bar Botequim, que fundou em 1971 com Isabel Meireles, Júlia Marenha e Helena Roseta, e onde durante os anos setenta e oitenta do século XX se reuniu grande parte da intelectualidade portuguesa – foi amiga de António Sérgio (esteve associada ao Movimento da Filosofia Portuguesa), Cruzeiro Seixas, David Mourão-Ferreira («a irmã que nunca tive»), Mário Soares, Urbano Tavares Rodrigues, José-Augusto França («a mais linda mulher de Lisboa»), Manuel de Lima, Luiz Pacheco («esta hierofântide do século XX»), Mário Cesariny, Almada Negreiros, Eugénio de Andrade, Ary dos Santos, Fernanda de Castro… – e muitos escritores estrangeiros – Henry Miller, Henri Michaux, Graham Green, Ionesco… 

Em diversas ocasiões tomou parte activa nos movimentos de oposição anti-fascista, tendo participado no MUD (Movimento de Unidade Democrática, 1945), no apoio às candidaturas para a Presidência da República do General Norton de Matos (1949) e de Humberto Delgado (1958) e na CEUD (Comissão Eleitoral de Unidade Democrática, 1969). Durante a ditatura foi condenada a três anos de prisão, com pena suspensa, pela publicação de uma “Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica” (1966) e processada pela responsabilidade editorial das “Novas Cartas Portuguesas# de Maria Isabel Barreno, Maria Velho da Costa e Maria Teresa Horta nos Estúdios Cor, de que foi directora literária; foi também responsável pela coordenação da Editora Arcádia. 

Na linha de Teixeira de Pascoaes, Natália Correia defendia «a poesia como profecia» e «o poeta como profeta». Mais do que saudosista, a sua forte ligação às ilhas atlânticas (sobretudo à sua S. Miguel natal) e ao seu maior poeta, Antero de Quental, era de permanente paixão, tendo mesmo, depois da revolução de 25 de Abril de 1974, apoiado a Frente de Libertação Açoriana e escrito a letra para o hino dos Açores. Após a Revolução foi, ainda, directora das publicações “Século-Hoje” e “Vida Mundial”, e consultora para os Assuntos Culturais Internos da Secretaria de Estado da Cultura (1977), tutelada por David Mourão-Ferreira. Em 1992, liderou a criação da Frente Nacional para a Defesa da Cultura, acompanhada, entre outros, por José Saramago, Urbano Tavares Rodrigues e Manuel da Fonseca. 

O seu primeiro romance, uma narrativa infantil, “Grandes Aventuras de um Pequeno Herói”, surgiu em 1946. Nesse mesmo ano começa a escrever poesia. Pela vida fora publicou numerosos livros, datando o último do ano da sua morte, “O Sol nas Noites e o Luar nos Dias”, a reunião da sua poesia completa, que inclui todos os livros publicados e muitos poemas inéditos. 

Natália Correia, cuja escrita alguns críticos classificaram como surrealista, outros como barroca e outros, ainda, como romântica (entre todas, a classificação preferida pela própria), foi na verdade uma escritora cuja originalidade e versatilidade não podem ser compartimentadas em qualquer escola literária. Estudiosa do Cancioneiro Medieval, e adaptadora para português moderno dos “Cantares dos Trovadores Galego-Portugueses”, organizou uma “Antologia da Poesia do Período Barroco”; em ambos os períodos literários buscou inspiração, mas não deixou de introduzir nos poemas da sua lavra um singular talento e uma peculiar expressão poética, a que não é alheia a hábil utilização de figuras de estilo como a metáfora, os paralelismos e as repetições. Por outro lado, a ironia e o sarcasmo, as associações fónicas e imagéticas, aproximam-na do surrealismo, sem que a sua poesia deixe de ter um toque de originalidade que não pode sofrer comparação com outras expressões do movimento surrealista português. 

Natália Correia foi um desses seres, frequentes no nosso país, que se adiantam ao tempo em que vivem para anunciar, antecipar, novas expressões culturais. Reencontrou os grandes mitos portugueses, que nos seus trabalhos se transformaram em arquétipos recorrentes: os mitos do Andrógino (o ser completo, uno e plural), do Desejado (que simboliza a resistência, a esperança em tempos melhores), a história de Pedro e Inês (símbolos da paixão, da volúpia na morte), o espaço sagrado e iniciático da Ilha, com os seus enigmas por resolver. Toda a sua criatividade lhes estava dirigida: reformulando-os, dedicou obras próprias a cada um desses mitos, símbolos e arquétipos, conferindo-lhes uma dimensão de futuro, de liberdade, de natalidade, de portugalidade sentida. A esta faceta não deve ser alheia a sua experiência vivencial nos Estados Unidos da América, enquanto esteve casada em segundas núpcias com o norte americano William Creighton Hyler. Ali escreveu o livro de crónicas “Descobri que era Europeia”. Em 1962, Natália Correia conhece um jovem poeta e cineasta que se apaixona por ela, Dórdio Guimarães, com quem estabelece uma longa amizade. Viúva do terceiro marido, Alfredo Machado, casa-se com Dórdio em Março de 1990. 

Natália Correia recebeu, em 1991, o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores pelo livro “Sonetos Românticos”. No mesmo ano foi-lhe atribuída a Ordem da Liberdade; era já detentora da Ordem de Santiago. Faleceu em Lisboa, em 16 de Março de 1993. 

O seu espólio literário, constante de muitos volumes éditos, inéditos, documentos biográficos, iconografia e correspondência, foi arrolado sob orientação da sua grande amiga Helena Roseta e está a ser tratado por uma equipa de especialistas da Biblioteca Nacional de Lisboa para depois ser partilhado entre a Biblioteca Nacional e o Governo Regional dos Açores, conforme as disposições testamentárias de Natália Correia e de Dórdio Guimarães. Os volumes constantes das suas bibliotecas ficaram integralmente na posse do Governo Regional dos Açores, onde estão a ser catalogados pela Biblioteca de Ponta Delgada. 

Esta é uma homenagem a uma figura marcante da literatura portuguesa, no ano em que se assinala o centenário do seu nascimento.

A entrada custa 4€, com descontos para maiores de 65 anos, menores de 25 anos e profissionais do espectáculo.

Classificação etária: M/6
Duração: 60 minutos sem intervalo

Comprar Bilhete

, , , , , , , , ,

Sofia Quintas

Directora e jornalista do Almada Online