Costa da Caparica | 1º Mergulho do Ano

No dia 1 de Janeiro de 2023 às 10h na Praia do Bexiga

Na Costa da Caparica a “tradição” do primeiro mergulho do ano não existia até 2019, ano em que foi criada por um grupo de membros do Museu Virtual da Costa do Mar. Este ano o primeiro mergulho do ano está marcado para as 10h de dia 1 de Janeiro, na Praia do Bexiga, mais conhecida actualmente como Praia Nova.

O Museu Virtual da Costa do Mar tem vindo a fazer ao longo dos anos um trabalho de pesquisa sobre as origens da Costa da Caparica, os primeiros habitantes ligados à pesca que vieram do Algarve e de Ílhavo para aqui se fixarem e, as tradições pesqueiras e culturais associadas a estes habitantes que ainda hoje perduram ou se perderam com o tempo. São maioritariamente os descendentes destas primeiras famílias de “nativos” da Costa da Caparica quem tem feito esta pesquisa e, à falta de um museu físico para o efeito, prometido por diversos executivos camarários mas que teima em não se tornar realidade, têm organizado esta informação virtualmente, num grupo do Facebook criado para o efeito.

O Almada Online falou com Paulo José Silva, um dos responsáveis pelo Museu Virtual da Costa do Mar e, organizador do 1º Mergulho do Ano.

“Escolhemos fazer este evento na Praia do Bexiga pois esta praia, assim como a do Tarquínio, do Evandro e do Dragão Vermelho, foram desde sempre as mais frequentadas pelos primeiros habitantes da Costa da Caparica. Os bairros piscatórios iniciais estavam perto destas praias.”, explica Paulo José Silva. “Chamamos-lhe Santuário dos Capitães da Areia por causa disso. “

“Este ano vamos mencionar o naufrágio do Pensativo, o maior naufrágio piscatório e mais fatídico da nossa terra, onde morreram 11 Pescadores da Costa, a 12 de Dezembro de 1929.” acrescenta Paulo José Silva. Este naufrágio ocorreu na zona de rebentação que se forma na curva da praia do Paraíso/Tarquínio. A confirmá-lo está a chamada “cabeça dos 11”, a zona de bancos de areia aí existente.

Na altura, a maior parte dos pescadores e suas mulheres não encaravam a praia nem o Oceano Atlântico como zona de lazer ou balnear, mas apenas como fonte de sustento e local de trabalho. A Costa era uma povoação pantanosa com uma igreja, os primeiros bairros piscatórios e pouco mais. Muitos foram os que ficaram no mar bastando para isso que um barco se virasse na rebentação. Foi o que aconteceu com o Pensativo, que ao rebentar-se um dos seus cabo da rede da Xávega, não ficou à tona na rebentação e desceu por ela a pique.

©Torre do Tombo / 12 de Dezembro de 1929. O Pensativo já em terra com alguns dos sobreviventes do seu naufrágio. De pé Francisco Pinto de 14 anos que se salvou com dificuldade. Os seus pais nãoã sabiam que estava a bordo.

Foi também para homenagear estes pioneiros da Costa da Caparica, assim como os seus familiares falecidos ao longo dos anos que o evento surgiu. “Há pessoas que escrevem o nome dos familiares na areia ou fazem pequenas oferendas ao mar no primeiro dia do ano, mas o evento é aberto a todos e tem crescido em número de participantes desde o primeiro eano”, continua Paulo José Silva.

Assim, reza esta tradição recente que os participantes tragam algo alusivo à Costa da Caparica, suas gentes e tradições: vestuário, chapéus, aparelhos de pesca, ou bagaço artesanal e bolos caseiros para reconfortar no final. “Normalmente fazemos um circulo à volta dos nomes na areia, seguido por um minuto de silêncio pelos que desapareceram, mas depois há convívio e comemos e bebemos para aquecer. Também cantamos quadras alusivas à Costa da Caparica. É uma forma de saudar o Ano Novo, acentuar a nossa união com a energia viva e renovadora do mar que consideramos uma entidade da Costa. É uma regeneração pela água fria, que tem a vertente da memória e da celebração.”, diz-nos o organizador.

O ano passado estiveram presentes cerca de 45/50 pessoas, na sua maioria descendentes dos fundadores, da hoje cidade da Costa da Caparica. Com o passar dos anos, cada vez mais pessoas que vivem ou têm ligação afectiva ao mar e à Costa da Caparica se juntam a este evento. Também há quem venha e não mergulhe.

Caso tencione ir, memorize as quadras que se fazem ouvir depois do primeiro mergulho do ano:

Lá de cima do Alto do Miradouro

De: Antero Espírito Santo

A Costa de Caparica
Onde o Sol tem mais calor
A luz do dia é mais rica
E o luar brilha melhor
São encantos naturais
Com que Deus a quis dotar
E p’ra valer muito mais
A seus pés lhe pôs o mar

(Refrão)
Lá de cima
Do Alto do Miradouro
O Sol parece d’oiro
E a luz do dia é mais linda
E a Costa
Parece que nos seduz
Até o Sol tem mais luz
E o Céu tem mais cor ainda

Quando a noite se avizinha
A Lua chega à janela
A dizer qu’ainda lá tinha
P’ra nos dar os raios dela
E assim a Costa de Dia
É oiro sempre a brilhar
E a noite é prata fina
Coberta pelo luar.
… “

, , , , , , , , , ,

Sofia Quintas

Directora e jornalista do Almada Online