Costa da Caparica | Aumentam os pedidos de ajuda à Igreja e à Junta

Padre António Pires diz ser o preço da habitação que mais leva as pessoas a pedir ajuda. José Ricardo Martins, Presidente da Junta classifica preço da habitação como "chaga social" e considera "obscenos" os valores de arrendamento

A Paróquia da Costa da Caparica está a receber, desde Abril, uma média de 24 novas famílias por mês à procura de ajuda socioeconómica, enquanto a cidade vê sair diariamente habitantes sem capacidade para pagar as rendas.

“Nunca recebemos tanto”, contou à agência Lusa o pároco da Costa, António Pires, que exerce o sacerdócio há 40 anos. A igreja acompanha regularmente 1.088 famílias, num total de 2.611 pessoas, de acordo com os dados que facultou à Lusa. Perante a emergência, cristãos e não cristãos encontram na igreja uma porta aberta, por oposição ao calvário dos serviços, onde o atendimento é protelado e a ajuda não chega em tempo útil.

“Para aceder às ajudas públicas, as barreiras são completas”, disse o padre, habituado a lidar com situações de quem enveredou pelo mundo paralelo do crédito fácil: “Vão encontrar a facilidade das empresas que emprestam dinheiro, vão até encontrar uma certa intimidade, sentem-se compreendidos e entram num mundo que os vai tornar prisioneiros para sempre”.

O padre, que preside ao Centro Social Paroquial Nossa Senhora da Conceição, considera que a actual crise é “muito pior” do que a anterior, que motivou a intervenção da troika em Portugal. “A crise da troika é uma crise repentina nos seus efeitos, era uma crise arrastada, mas repentina nas consequências das pessoas”, referiu. Esta, prosseguiu, “apanha as famílias mais fragilizadas”, num período pós-troika e ainda a lidar com a pandemia de covid-19.

As famílias debatem-se agora com os efeitos penalizadores da inflacção e da escalada dos preços da habitação. Questionado sobre o principal motivo que leva as pessoas a pedir ajuda, o padre não hesita: “É a habitação, é o preço da habitação que esmaga a família completamente. A família fica incapaz de sobreviver”.

São sobretudo casais que procuram ajuda. “Sem contratos de arrendamento – os arrendamentos são apalavrados -, de repente duas pessoas que recebem o ordenado mínimo ou um pouco mais veem passar a renda de 400 ou 500 euros para 600, 700 ou 800. A isto acresce tudo o resto: água, luz, comunicações e assim o casal fica completamente esmagado”, exemplificou.

“Quando estou a falar destas situações de pobreza e de fragilidade social não estou a falar das situações que conheci há 30 e 40 anos de uma certa pobreza crónica, que se transmitia e que hoje em dia se transmite. Estou a falar da nova pobreza, que vai criar as condições necessárias para daqui a 10 ou 15 anos ter renovado e aumentado a pobreza crónica. Estou a falar de pessoas activas que estão incapazes de cumprir as suas obrigações sem ajuda e que têm à disposição um leque de aparentes soluções que são os empréstimos”, especificou. “A partir daí a destruição é completa! Não pode emprestar-se dinheiro sem fazer um estudo económico da pessoa”, defendeu o padre.

A igreja responde à complexidade das situações que lhe chegam disponibilizando ajuda imediata ao nível alimentar e de artigos tanto de higiene pessoal como para o lar. Fornece também medicamentos, material escolar, vestuário, calçado e ração para animais, esta última doada pelos supermercados quando as embalagens ficam danificadas.

Intervém ainda como mediadora com a Segurança Social ou as empresas fornecedoras de gás, água e electricidade quando já há contas em atraso. O Centro Paroquial encaminha os casos que precisam de respostas às quais a igreja não tem meios para atender. Uma equipa de 40 técnicos está envolvida neste tipo de apoio, que passa por tentar assegurar a renda para que as pessoas possam manter-se em casa.

A cidade, afirmou, “vê sair diariamente as pessoas em situação de fragilidade social”. “Se der uma volta pela cidade, perceberá que a maior parte das vivendas e casas está tudo ligado ao turismo. Em cada esquina encontra as guest house”, indicou durante uma entrevista realizada na Igreja Matriz, onde se recolhem bens que são depois levantados por quem precisa, de acordo com as necessidades e preferências.

Os preços das casas estão a forçar a saída de parte da habitual população residente. De acordo com o padre António Pires, verifica-se “uma purificação”, no mau sentido da palavra. “Está-se a emanar gente para o interior do concelho e do distrito de Setúbal. As pessoas tendem a largar esta parte mais litoral e ir para Corroios [Seixal], Moita, Barreiro, por aí, que é onde conseguem alugar uma casa ainda numa situação que lhes é acessível”, sublinhou, observando que está em curso um movimento de “migração interna”, propício à criação de guetos.

“O país vai ter uma estratificação social como nunca teve”, alertou o pároco, que até professores universitários já encontrou em volta de caixotes do lixo. “Têm boas reformas, mas os filhos têm casas na Comporta e no Algarve, despesas excessivas”, lamentou o sacerdote.

No ano passado, entre Janeiro e Novembro, os serviços paroquiais distribuíram um montante de 165.000 euros, a maior parte custeado pela Segurança Social, para apoiar o pagamento de rendas e outras despesas de carácter social. Só no mês de Dezembro foram disponibilizados 23.423 euros para este fim.

A complexidade das situações exige um leque de respostas de igual complexidade, explicou. “Ou a instituição que os acolhe e ajuda tem resposta para a diversidade das questões que aquela pessoa enfrenta ou limita-se a ter a sopa do Sidónio, que era uma coisa que a gente teve há cem anos; ter uma sopinha, ter uma fila de pessoas à nossa porta, chamar a comunicação social e aparecermos como santos a dar de comer. Só que isso é ofensivo”, declarou.

Preço da habitação é “a maior chaga social” do país, diz autarca da Costa da Caparica

Alugar um T1 na Costa da Caparica custa, em média, 750 euros e a habitação escasseia, mesmo para quem a pode pagar. Para o presidente da Junta de Freguesia, esta é “a maior chaga social” que o país enfrenta.

“O principal problema é, sem dúvida, a habitação. Temos casos de pessoas completamente postas na rua, não por não pagarem, mas porque os proprietários querem as casas. Outros, porque não conseguem pagar”, disse à agência Lusa José Ricardo Martins.

O problema afecta tanto cidadãos nacionais como estrangeiros, na cidade freguesia do concelho de Almada, onde já existem cerca de 60 nacionalidades.

Com a renda de um apartamento com um quarto a absorver um salário mínimo, a população procura directamente ajuda na Junta de Freguesia, seja para custear a habitação ou outros gastos associados (água, luz, gás), mas também alimentação e despesas escolares.

“A principal carência que noto, não só para estrangeiros, mas também para portugueses tem a ver com o problema que acho que é a maior chaga social do país, com a habitação e com os preços exageradamente altos, até obscenos, a nível de arrendamento”, declarou o autarca.

Há nove anos no cargo e a cumprir o último mandato, Ricardo Martins assistiu às dificuldades que a população passou durante a intervenção da troika em Portugal e ao impacto da pandemia de covid-19, que levou a autarquia a ter de dar resposta aos pedidos de ajuda a que o Banco Alimentar já não conseguia atender: “Costumo perguntar que mais me irá acontecer!”.

Perante a crise inflaccionista o autarca considera que “a grande dificuldade” do momento é a habitação. A solução, defende, passa por construir habitação pública, o que leva tempo. Acresce que na zona da Costa, grande parte do terreno é propriedade privada ou área de reserva.

O problema não é exclusivo da freguesia, mas dando como exemplo o concelho de Almada, Ricardo Martins referiu que milhares de pessoas aguardam a oportunidade de conseguir casa através de um programa municipal: “Existe no Habit´Almada uma enormidade de famílias, que têm repercussão aqui na Costa. Inscrições à espera de casa, se calhar estamos a falar de 7.000 pessoas”.

A Junta de Freguesia tem no Centro Paroquial o principal parceiro. “Tenho muito orgulho em ter um centro paroquial tão musculado”, sublinhou.

O autarca teme que os casos a que está a dar resposta em articulação com a igreja e outros parceiros possam reflectir o que vai ser o ano de 2023. “Se esta escalada a nível energético e de inflacção continuar, obviamente que vamos ter problemas semelhantes aos que tivemos durante a pandemia”, estimou, indicando que neste período foram apoiadas 7.162 pessoas, no âmbito da Comissão Social criada em 2016 com diversas entidades parceiras.

“Apesar de ter aqui alguma almofada, embora não tanto como necessária, no aumento dos ordenados…não vai chegar para as pessoas poderem fazer a sua vida normal, mesmo que tenham de abdicar daquilo que não é tão essencial”, considerou.

A Caparica tem perto de 14.000 eleitores e cerca de 20.000 habitantes no Inverno. Todos os dias chegam novos habitantes das mais diversas proveniências à procura de um atestado de residência, do Brasil ao Reino Unido, passando pela Ucrânia, Paquistão, Bangladesh ou Nepal.

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Sofia Quintas

Directora e jornalista do Almada Online