Natal, nostalgia e bicicletas

Subitamente, fez-se presente a crua realidade de quem mora em Almada. Onde estão as ciclovias? Onde estão os parques para bicicletas? E se quiser ir do Laranjeiro para a Costa da Caparica, como faço? Estas questões ecoaram. Como é que uma bicicleta, que deveria emular a liberdade que vivi na infância, esbarra contra as barreiras e obstáculos de uma cidade que tarda em abraçar uma cultura ciclável?

Tive uma infância feliz. Ao contrário da maioria das crianças de hoje, arredadas das ruas da cidade e em transe hipnótico com um qualquer ecrã, fui daqueles que passou dias a fio a jogar à apanhada, a explorar os cantos do meu bairro de bicicleta, a disputar um jogo de futebol de rua como se de uma final da Champions League se tratasse. Nem mesmo a Mega Drive e o Game Boy conseguiram substituir aquele sentimento de liberdade que me cercava sempre que saía de casa a correr rumo ao berlinde ou ao pião, às escondidas ou ao macaquinho do chinês.

Senti-me, por isso, profundamente emocionado ao receber uma bicicleta como presente de Natal. Vi-me envolvido naquele sentimento tão bonito da nostalgia da infância, magistralmente descrito por Pessoa, e que me despertou um entusiasmo que há muito estava adormecido. Pura felicidade… por cinco segundos.

Subitamente, fez-se presente a crua realidade de quem mora em Almada. Onde estão as ciclovias? Onde estão os parques para bicicletas? E se quiser ir do Laranjeiro para a Costa da Caparica, como faço? Estas questões ecoaram. Como é que uma bicicleta, que deveria emular a liberdade que vivi na infância, esbarra contra as barreiras e obstáculos de uma cidade que tarda em abraçar uma cultura ciclável?

Igual a tantas outras cidades portuguesas, Almada foi pensada em torno do carro. Os transportes públicos e os meios de mobilidade suave foram propositadamente secundarizados, fruto de um pensamento urbanístico datado e com muito pouca visão de futuro. Prova disto é que mais de 80% dos 186 km de rede ciclável que foram previstos no Plano Almada Ciclável de 2005 ficaram por concretizar. O resultado está à vista.

Portugal ocupa hoje o segundo lugar entre os países da União Europeia com a maior dependência do automóvel individual; mais de metade da população almadense utiliza o automóvel para deslocar-se entre a sua casa e o seu local de trabalho ou estudo; e quem trabalha ou estuda em Lisboa não tem outra alternativa senão madrugar e despachar-se em contrarrelógio, tudo para não perder horas e horas parado no trânsito.

“– Nem tudo é mau!”, diriam os apoiantes do atual executivo. Têm toda a razão: como resultado de lidar diariamente com autocarros inexistentes, metros atrasados e barcos sobrelotados, quem usa transportes públicos em Almada está hoje mais que habilitado a dar workshops sobre mindfulness e controlo emocional.

Almada precisa de autarcas com uma visão de futuro, assente em princípios de sustentabilidade urbanística e ambiental. Está claro que não foi este o mote seguido pelos executivos da CDU e, mais recentemente, de PS-PSD, que tudo prometeram e pouco ou nada entregaram.

Escrevo este artigo no dia da apresentação da Estratégia Municipal de Saúde de Almada para 2024-2030. Um dos seus eixos norteadores prende-se precisamente com a “promoção da mobilidade suave em contexto urbano”. Todos esperamos que este documento sirva, finalmente, de mote para se reformular o Plano Ciclável de 2005, rumo a um desenvolvimento mais humanizado de Almada.

Da minha parte – e suponho que também de outros aspirantes a ciclistas e de quem corajosamente já faz da bicicleta o seu principal meio de transporte –, só me resta exigir a extensão de ciclovias a todas as freguesias e locais de interesse público do concelho. Queremos parqueamentos seguros junto das principais interfaces de transportes, um sistema de bicicletas partilhadas, a dedução do IVA no IRS a todas as reparações de bicicletas, e um reforço de verbas do Fundo Ambiental para compra de bicicletas elétricas e convencionais.

Urge, em última análise, a reconfiguração do espaço público de Almada – nem que seja para fazer da bicicleta um presente de Natal verdadeiramente proveitoso.

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Karim Quintino

Deputado Municipal em Almada pelo Bloco de Esquerda