Trafaria | “Mil vezes o 2º Torrão a isto”

A frase é de Marta Pereira Ferreira, sobre o local onde a Câmara Municipal de Almada a realojou

Por muito que os orgãos de comunicação social já tenham mostrado como está a decorrer o realojamento feito pela Câmara Municipal de Almada (CMA) no bairro do 2º Torrão, a realidade consegue sempre ser mais cruel que a pior das imaginações. A Aministia Internacional portuguesa também se manifestou negativamente duas vezes, sem nenhum sucesso no que toca a uma alteração na atitude ou melhorias na condução deste processo habitacional.

Marta Pereira Ferreira foi o primeiro rosto deste bairro auto construído a entrar pela casa dos portugueses dentro, na SIC, num Sábado à hora de almoço. Nesse dia recusou-se a sair de casa por não estar englobada no realojamento que era necessário fazer, por decisão da CMA em demolir as casas que se encontravam sobre a vala de escoamento pluvial que atravessa o bairro do 2º Torrão e, que segundo os técnicos e a autarquia, se encontra em risco eminente de ruir. Mãe solteira, com três filhos, dois deles menores, Marta fez o que qualquer outra mãe teria feito, para que não ficassem sem tecto ou tivessem de se sujeitar a uma qualquer solução sem garantias temporais, apresentada à pressa pela segurança social.

Estávamos a 1 de Outubro e, depois de um impasse de horas, Marta conseguiu que a realojassem numa pensão na Costa da Caparica. Não tinha aceite nenhuma das opções anteriores apresentadas pela segurança social, pois queria garantir que os seus dois filhos menores continuavam a frequentar a escola onde já tinham iniciado o ano lectivo e sempre foram alunos, ali mesmo ao lado do 2º Torrão na Trafaria, sendo o factor proximidade muito importante para si. As opções oferecidas eram muito longe.

De 1 a 7 de Outubro, Marta conseguiu que os seus meninos, como lhes chama carinhosamente, continuassem a frequentar as aulas na Trafaria, a ir levá-los e buscá-los, iludida ao pensar que aquela saída abrupta e violenta do bairro não seria tão amarga nas suas memórias de infância. Tentava manter uma normalidade que já nada tinha de normal na vida daquelas crianças. Minnie, a cadela que tanta companhia fazia à sua filha de 8 anos, teve de ir para o canil municipal por não ser aceite na pensão e, no fundo sabia o quanto isso estava a ser difícil. “Ela disse-me que sempre que fechava os olhos via a Minnie. Sempre que sonhava era com a Minnie”, disse-nos uma vez que a encontrámos ao final do dia, quando ia buscar os filhos à escola. Mas era preciso seguir com a vida.

Esta vida, que tinha escolhido fazer em Portugal, abdicando de algum conforto que possuía em Angola, continuava a ser melhor, na sua opinião, a nível de oferta na área da saúde, do que qualquer país do continente africano. Foi isso que a fez procurar a Europa. O seu filho de 21 anos tem problemas cardíacos e, o de 6 ainda não tem um diagnóstico definitivo para os seus problemas respiratórios.

No dia 5 de Outubro, uma Quinta-Feira, os serviços da segurança social telefonaram a Marta. Teria de sair da pensão onde se encontrava e ir com os filhos para outro lugar no Domingo. “Para onde?” perguntou. A resposta foi que só no Sábado lhe saberiam dizer.

©SIC / A SIC gravou parte da conversa que Marta teve com a segurança social ao telefone

Desta vez Marta e os seus meninos foram levados para Lisboa. Uma opção que tinha rejeitado anteriormente. As crianças são transportadas todos os dias para a escola na Trafaria, onde começam as aulas às 9h da manhã. Uma carrinha vem buscá-los todos os dias muito cedo. É da Câmara, mas não diz Câmara Municipal de Almada em lado nenhum. Houve um dia que veio às 6h45. “Até me doeu o coração ver os meninos irem embora assim tão cedo”, conta Marta. Passado umas horas a contínua da escola telefonou-lhe para saber o que se passava. “Quem os levou pediu à contínua se podia ficar com eles antes da escola abrir. Ela telefonou-me para saber se estava tudo bem comigo. Nunca tinha feito uma coisa destas aos meus filhos ”.

Marta vive agora num prédio com 3 andares, onde cada quarto abriga uma família, onde 6 famílias partilham uma cozinha e casa de banho por piso. Ainda foi construído uma espécie de 4º piso no prédio, para alojar mais uma família. No piso onde Marta está, o último, há assim 7 famílias, cerca de 50 pessoas, que utilizam uma cozinha e uma casa de banho diariamente. “A casa de banho diz 20 minutos na porta. Não posso cozinhar porque isso não está no contrato. Não há internet para a minha filha fazer os trabalhos de casa que o professor lhe envia. Nem uma televisão para os meninos verem os bonecos. Dormimos 4 num quarto. Nem posso mudar de roupa ali, tenho ali o meu filho de 21 anos. Anda no Piaget e assim nem consegue estudar. O quarto é tão pequeno e sem condições, que tenho de abrir a janela para ele não se sentir mal do coração. Mas há quem viva aqui em quartos sem janelas. O 2º Torrão mil vezes a isto. Nem em Angola vivi nestas condições”, relata. Marta consegue ter um pensamento para os que se encontram ainda um pouco pior que ela.

Mais famílias do 2º Torrão estão a viver nestas condições no mesmo prédio. M. tinha uma das melhores casas do bairro, mas por azar foi construída em cima de uma vala. Tudo o que comprou numa loja de design nórdico acessível, está agora algures num armazém da CMA. Ofereceram-lhe um T1 para morar, que lhe pareceu lógico recusar na altura, pois a sua mobília não ia ter sítio num apartamento tão pequeno. Como houve uma recusa M. vive agora nas mesmas condições que Marta, mas sem janela.

Foi a M. que Marta pediu um garfo emprestado no dia em que decidiu cozinhar um ovo e uma batata. “Pedir um garfo e uma panela emprestados. Nunca pensei que isto me acontecesse. Como não tinha pratos cortei um garrafão de água ao meio e comi dali. Quando estava a comer até pus a mão na cara e pensei, o que me foi acontecer. Nunca tive estas condições miseráveis em África”. Conseguiu cozinhar algo porque entretanto colocaram uma placa eléctrica na cozinha. Comeu como se fosse um pecado, enfiada no quarto, para quem faz a ronda nocturna não a ver.

Tem alguns sacos, que lhe ocupam o pouco espaço disponível no chão do quarto. “Podiam ter-nos dito que não nos iam arranjar uma casa logo. Que ia demorar semanas, ou mesmo meses. Teria trazido mais coisas. Os meninos andam desde dia 3 com os mesmos sapatos na escola. A máquina de lavar que têm aqui está avariada. Como vou lavar a roupa? Pensei que o Governo português zelava pelas crianças. O frigorífico também é de todos, não podemos ter lá muita coisa e, já houve casos de roubos de comida de outras pessoas. Nem um chá de camomila para me acalmar posso fazer”. Marta está desolada.

Antes deste pesadelo ter começado, faltou uns dias ao trabalho com medo que lhe demolissem a casa na sua ausência, mas a chefe viu-a na televisão. Mandou-lhe comida boa para os meninos, disse que ela podia ficar uns dias sem trabalhar. Agora, já passaram dias demais, a chefe contactou-a para ir buscar os papéis para o subsídio de desemprego. Por entender ser esta uma situação complicada, resolveu assim a questão do despedimento, tentando não a deixar sem nada. “Eu fui mas não os entreguei. Quero arranjar trabalho noutro hotel. Tenho que trabalhar, pode ser que me ajude a cabeça.” Qualquer cabeça ficaria a precisar de ajuda, numa situação em que se perde a casa e o trabalho no espaço de duas semanas, mas Marta sabe que tem de se manter firme pelos seus meninos. “Disseram que nos davam alimentação, não estão a dar. Daí também não ter trazido pratos e talheres. Disseram que nos davam um cartão para fazer compras no supermercado e não deram. Quanto tempo vamos ficar aqui nestas condições? Já perguntei a quem vem buscar os meninos, mas ninguém me diz. Desde Domingo (dia 8) que ninguém me diz nada, nem da segurança social nem da Câmara.” Não existem palavras, ainda não foram inventadas.

Na reunião camarária de dia 17, Inês de Medeiros afirmou perante todos os vereadores almadenses “Até ao final da semana estarão 35 agregados totalmente realojados em casas e não em unidades hoteleiras.“, ou “Se não deixassem o parque habitacional como deixaram haveria respostas que hoje não há” dirigindo-se aos vereadores da CDU, ou ainda “Os nossos compromissos têm palavra e valor. Só as pessoas devidamente identificadas como sendo moradoras é que têm direito à habitação municipal. Estamos a fazer esse trabalho com todo o rigor.” Marta nunca foi identificada como sendo moradora, apesar de viver no 2º Torrão desde 2018.

É difícil retirar citações sobre o realojamento do 2º Torrão das reuniões camarárias, pois todas as forças políticas acabam sempre por se engalfinhar em demagogia, ignorando o principal nesta questão e que devia ser apenas e só o que os norteia: as vidas dos seres humanos. Pessoas reais, que os elegeram e lhes pagam os salários de funcionários públicos que são, a quem teimam por tratar por “eles”, por “aquelas pessoas” e dizerem que “aquilo pode cair referindo-se às suas habitações. No caso de Marta, “aquilo” tinha mais condições de habitabilidade do que as do sítio onde a realojaram. Marta sente-se desalojada.

No piso térreo deste prédio de Babel a abarrotar de seres humanos, há um pequeno jardim fechado à chave. As crianças não podem ir lá brincar. Quem tem a chave não permite. Marta tem medo que se magoem a brincar nas escadas. É muito complicado enfiar crianças que brincavam na rua livremente num quarto. No bairro, as crianças ainda brincam na rua porque há uma vizinhança que toma conta, que sabe quem são os pais, que vigia, apesar de parecer ocupada nos seus afazeres. Espiríto de bairro, como o que já não se encontra nas cidades. Não se entende como um bairro em alvenaria que existe há mais de 50 anos, não teve ainda uma solução definitiva ali ou noutro sítio qualquer. Uma solução que preserve o espírito comunitário e de entreajuda que ali se vive. A única conclusão a que se pode chegar, é a de que nunca houve vontade política para isso.

“Não quero ir ao bairro agora. Dói muito. Eu podia passar pelo mesmo, mas os meninos nunca. Os meninos nunca deviam ter passado por aquilo. Não houve humanidade, uma vizinha é que me perguntou se eu queria que ficasse com eles e eu disse que sim. Senão tinham assistido a tudo, a porem os móveis num camião, a levarem a cadela, a destruirem as casas ao lado da nossa.”  As equipas multidisciplinares que a CMA diz ter no local “sempre presentes, desde a primeira hora” não se lembraram disso, de poupar pelo menos as crianças.

A noite de 7 Outubro, Marta passou-a nas urgências do Hospital Garcia de Orta com o filho mais velho. Ele teve problemas de coração de novo e, estiveram lá a noite toda, sem dormirem. Voltaram à pensão na Costa da Caparica e conseguiram dormir meia hora. Depois disso apareceram duas carrinhas com quatro senhoras que os trouxeram para Lisboa, juntamente com outras famílias que também ali estavam. “Viram a pulseira do hospital no pulso do meu filho e ninguém sequer me perguntou o que se tinha passado, se ele estava bem, se era preciso alguma coisa. Quase não falam nem olham para nós.” Quando lhe pergunto se está a falar de assistentes da segurança social ou de técnicas da CMA hesita. Não sabe dizer. Já passou da tutela da CMA para a da segurança social e novamente para a da CMA. Marta está cansada.

“Eu queria sair do 2º Torrão, ter uma vida melhor, mas não queria sair assim como se tivéssemos cometido um crime. Nunca pensei que me deixassem assim com uma mão à frente e outra atrás. Será que é porque somos pretos? Não tem ninguém branco aqui no prédio do Torrão. Há quem diga que todos os brancos ficaram com as poucas casas que havia para dar”.  De todas as famílias que ainda resistem em cima da vala, também nenhuma é branca. “Se não fossem os meus filhos precisarem de cuidados de saúde, já tinha voltado para Angola”, desabafa Marta.

Está a ser assim este realojamento: sem haver casas para todos antes de demolirem as suas habitações; com famílias que não são elegíveis devido a critérios de selecção que não entendem porque nunca foram totalmente transparentes ou públicos; com envio de famílias não elegíveis para alçada da segurança social, que não possui soluções habitacionais para lhes oferecer.

No século XXI, na Europa, retiram-se tectos e colocam-se pessoas que já se encontram em situção de fragilidade social, mas que ainda são independentes e têm trabalho, na dependência de serviços do estado, que os obrigam a desenraízarem-se da sua comunidade e andar de local em local até perderem o emprego que se tornou incomportável manter, onde são tratados como números ou coisas. Tudo isto apesar de o primeiro relatório sobre o problema da vala ter sido feito em 2019, sendo que o primeiro a alertar para uma possível retirada das pessoas tem data de 2020. Passaram dois anos e, à primeira vista custa a acreditar que houve um planeamento, pelo menos tão bem preparado como o mapa das demolições. Houve uma pandemia pelo meio, que não explica tudo.

No 2º Torrão, a vala que está em risco eminente de ruir, que teve retroescavadoras em cima a demolirem casas, continua de pé.

O Canto do Curió é uma Associação que tem dado algum apoio a Marta e às familias que ainda resistem às demolições no bairro do 2º Torrão. São cerca de 14 famílias que interpuseram providências cautelares aceites pela Justiça Portuguesa e, até ao momento impediram a demolição das suas habitações. O Curió dá o apoio que pode, pois é uma associação pequena, com poucos voluntários, mas que trabalha no bairro do 2º Torrão desde 2016. Foi esta associação que gravou e nos cedeu este vídeo. Agradecemos-lhes.

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Sofia Quintas

Directora e jornalista do Almada Online