Transtejo: novos navios eléctricos só em Junho de 2024

Depois da audição da ex-presidente da transportadora fluvial na AR, foi ouvida a actual presidente da Transtejo. Processo de aquisição da nova frota tem derrapagem de 9 ME e atraso de 3 anos

Depois da audição de Marina Ferreira, ex-presidente da transportadora fluvial, na Assembleia da República no dia 13 de Setembro, na Comissão Parlamentar de Economia, Obras Públicas, Planeamento e Habitação, foi ouvida no Parlamento no dia seguinte a actual presidente do conselho de administração da Transtejo, Alexandra Ferreira de Carvalho.

O serviço de transporte fluvial entre Lisboa e a margem Sul deverá contar com os novos navios eléctricos apenas partir do segundo semestre de 2024, assegurou aos deputados a presidente da Transtejo, que disse também que, além do “Cegonha Branca” que “já cá está com todo o equipamento e com as tripulações em formação desde Julho”, existe um segundo navio, “em teste ao cais”. O terceiro navio será lançado à água para testes a 4 de Maio de 2024 e o quarto até ao final de Setembro do próximo ano.

Em Novembro de 2022, o Governo tinha perspectivado ter disponível a maior parte da frota eléctrica de navios da Transtejo já durante o ano de 2023. Os dez navios eléctricos adquiridos no âmbito da renovação da frota da Transtejo deviam ter começado a navegar ainda durante 2022. A novidade foi anunciada em Maio desse ano, altura em foram divulgadas imagens das embarcações. Em 2022, o plano da empresa passava por receber quatro embarcações eléctricas, mas apenas uma foi entregue.

O primeiro navio eléctrico da Transtejo chegou a Lisboa em Março, tornando-se logo polémico. Além de atrasado, veio com danos no casco e teve de ser reparado. Segundo fonte oficial da Transtejo, os danos sofridos teriam ocorrido durante a viagem, devido às más condições de transporte. Sem especificar a gravidade dos estragos, a Transtejo adiantou logo que a responsabilidade de avaliação de danos e a sua reparação pertencia aos Astilleros Gondán, o fabricante espanhol que fretou o transporte.

Numa audição parlamentar realizada na Quinta-Feira, 14 de Setembro, Alexandra Ferreira de Carvalho, explicou aos deputados que, além do desafio de colocar a nova frota operacional (num total de 10 navios eléctricos) até 2025, a empresa está também a assegurar a operacionalidade da actual frota, para que possa ter em funcionamento onze navios em vez dos actuais seis, que não permitem a redundância.

“O segundo semestre de 2024 vai ser uma data muito importante, melhor será que consigamos antecipar essa dada e tenho essa expectativa, mas, antes disso, tenho de prestar serviço público, não posso estar sempre com supressões diárias e prestar um péssimo serviço”, disse a responsável.

Alexandra Ferreira de Carvalho adiantou que os navios são antigos e estão a avariar constantemente, contudo, com a entrada em funcionamento dos cinco que se encontram no estaleiro e que conta ter em funcionamento ainda este ano, consegue assegurar as ligações de forma a não ter tantas supressões como as que têm sido verificadas.

“As condições neste momento não são as melhores porque temos uma frota desajustada e antiga, estão a ser dados passos para a renovação, mas, desde que entrei, em 13 de Abril, não tenho nenhum mês em que seja raro um dia sem supressões”, disse, adiantando que apenas durante a semana da Jornada Mundial da Juventude o serviço decorreu sem supressões devido ao “grande esforço” de toda a empresa, incluindo das tripulações.

“Se tudo correr bem, vamos começar no segundo semestre de 2024”, disse, adiantando que foi também enviado para o Tribunal de Contas o novo contrato das baterias.

A presidente da Transtejo falou ainda de constrangimentos ao nível dos recursos humanos, tendo a empresa perdido 14% dos seus trabalhadores nos últimos 10 anos. A empresa, explicou, tem 461 trabalhadores, dos quais 213 asseguram a operação, recursos que considera manifestamente insuficientes, pelo que tem previsto para os próximos três anos a contratação de mais 57 pessoas

Alexandra Ferreira de Carvalho foi nomeada presidente do Conselho de Administração da Transtejo na sequência da demissão da anterior presidente, Marina Ferreira, após um relatório do Tribunal de Contas (TdC) que acusava a empresa de “faltar à verdade” e de prácticas “ilegais e irracionais”. Em causa estava a compra de nove baterias, pelo valor de 15,5 milhões de euros (ME), num contrato adicional, por ajuste directo, a outro contrato já fiscalizado previamente pelo TdC para a aquisição, por 52,4 ME, de dez novos navios com propulsão eléctrica a bateria, para assegurar o serviço público de transporte de passageiros entre as duas margens do Tejo. O Tribunal de Contas recusou o visto para compra de baterias dos novos navios, alegando que o negócio da Transtejo lesou o Estado e, remeteu o caso para o Ministério Público.

Na sequência deste caso foi requerida a audição da ex-presidente da Transtejo, do ministro do Ambiente Duarte Cordeiro, do TdC, assim como da actual presidente, Alexandra Ferreira de Carvalho, em sede parlamentar pelo Partido Comunista Português, Bloco de Esquerda, Partido Socialista, Iniciativa Liberal e o Partido Social Democrata.


“Isto é o resultado de um processo em que, desde o início, o PCP alertou para o risco da opção de compra de protótipos”, afirmou em Março o deputado Bruno Dias. “Estar a aplicar uma tecnologia completamente nova, não testada, é mais do que navegar à vista, é andar à deriva”, criticou o deputado comunista realçando que, quando o negócio foi feito não havia ainda navios destes a navegar em lado algum. “A travessia do Tejo é demasiado fulcral para ficar dependente de experiências.”

No novo concurso realizado para compra das baterias eléctricas houve apenas dois candidatos, acabando por vencer de novo a Astilleros Gondán, a mesma empresa que o TdC considerou ter sido beneficiada pela Transtejo, por um valor superior ao concurso inicial que não obteve visto, em quase 500 mil euros.

Inicialmente, estava previsto um investimento global de 57 ME e gastos de aproximadamente 33 ME na manutenção. Os números correspondiam a um período entre 2020 e 2035. Com a alteração dos valores, o Plano de Renovação da Frota da Transtejo atinge um máximo de 70 ME de investimento nos navios e aproximadamente 29 ME para a manutenção até 2036. Uma derrapagem de 9 ME, para já. Era suposto os novos navios entrarem ao serviço faseadamente a partir deste mês de Março, mas Alexandra Ferreira de Carvalho admite que apenas quatro dos dez navios encomendados, entre em funcionamento até Setembro de 2024. Um atraso de 3 anos até estarem os 10 novos navios em actividade.

A acrescentar ao atraso na entrega da nova frota eléctrica e das baterias, as ligações fluviais entre Cacilhas e o Cais do Sodré continuam desde Maio com uma supressão de 33% nas suas carreiras nos dias úteis, o transporte de veículos é constantemente suprimido na Linha da Trafaria-Porto Brandão-Belém. Os almadenses sofrem diariamente na sua mobilidade com o “péssimo serviço” no transporte fluvial, que não cumpre os requisitos de “serviço público”, devido a uma frota “desajustada e antiga”, que avaria diariamente, nas palavras da actual presidente do conselho de administração. O passe continua com o mesmo valor, não reflectindo a diminuição da oferta nos transportes fluviais e as supressões frequentes.

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Sofia Quintas

Directora e jornalista do Almada Online