Almada | Pêndulo
Uma peça de Marco Martins, que parte da ideia de mulheres que imigram sozinhas e deixam a família para trás em busca de uma vida melhor
Dia 22 de Dezembro, pelas 21h, o Teatro Municipal Joaquim Benite acolhe “Pêndulo”, de Marco Martins.
“Pêndulo” aborda a natureza do trabalho doméstico, para falar das relações familiares, do confronto entre diferentes modos de vida, contextos, expectativas, sonhos e quotidianos. Como se relacionam as trabalhadoras imigrantes com as famílias para as quais trabalham? E como são afectadas por essa relação? Como se vive a necessidade de deixar o seu lar para cuidar do lar de outros? Como se relaciona um país com os imigrantes que acolhe?
Em “Pêndulo”, Marco Martins trabalha com um grupo de mulheres cuidadoras e empregadas domésticas cujas vidas são pautadas pelo movimento pendular: entre a periferia e o centro da capital (Lisboa), entre a sua casa e a casa de quem as emprega e, entre o país de origem e o país de destino, Portugal.
Oito imigrantes, cuidadoras informais, com idades entre os 37 e os 77 anos, tornam-se actrizes em “Pêndulo”. Trabalhadora doméstica, cuidadora de doentes terminais, cuidadora de idosos em ‘part-time’ ou prestadoras de trabalho doméstico são actividades que unem as oito mulheres. Apesar das diferentes experiências de vida, que contam em palco, “Pêndulo” parte de uma situação ficcional em que as oito mulheres são empregadas de limpeza num supermercado da capital.
Enquanto a brasileira Elane fala dos vários trabalhos que teve no Brasil antes de os filhos crescerem e rumar a Portugal, de guarda prisional a cuidadora do pai, em busca de uma nova vida, Juliana, a mais velha, vai desfiando a história do orfanato de holandeses e italianos para onde foi levada após ter sido tirada da casa dos pais e, onde aprendeu latim.
Uma intérprete/personagem que, para Marco Martins, “encapsula toda estas questões que têm a ver esta constante migração das nossas ex-colónias, as várias vagas sucessivas e as várias famílias que foram sendo destruídas de alguma forma com essa imigração”, diz.
Cuidadora de doentes terminais até há pouco tempo, quando decidiu reformar-se, Juliana vai também contando como lavava e preparava os mortos antes de as funerárias irem buscar os corpos para os enterros. O carinho, o cuidado e o desvelo que põe nas palavras e nos gestos quase dão a sensação de Juliana estar a falar de vida.
Emanuelle, uma das duas brasileiras que interpretam “Pêndulo”, veio para Portugal fazer mestrado e é cuidadora informal em ‘part-time’. Antes tinha estado no Canadá e na Austrália, países sobre os quais também vai contando histórias do tempo em que lá viveu.
“Pêndulo” teve em conta, à partida, um duplo movimento pendular, disse Marco Martins à agência Lusa, no final de um ensaio da peça. “Por um lado, um movimento pendular da imigração. Do país de origem para o país de trabalho e, esta ideia de achar que hoje em dia a imigração é muito mais feita de forma individual, pois é raro vermos famílias a emigrar como víamos nos anos de 1960 ou 1970”, acrescentou.
Procurou fazer um trabalho que partisse da ideia de mulheres que imigram sozinhas e deixam a família, como é o caso de quase todas as que vão subir ao palco do Teatro Municipal Joaquim Benite. Em comum, estas mulheres escolhidas entre um grupo mais alargado proveniente de Montijo, Barreiro, Almada e Setúbal, têm o facto de, em fases distintas das suas vidas, terem sido cuidadoras informais.
Como Maria Ya Ya que veio de S. Tomé directamente para a família de uns “senhores que já a aguardavam no aeroporto e para cuja casa foi levada para trabalhar, com horas de entrada, mas sem horas de saída”, como diz no espectáculo. Ou Fabiana, vinda do Brasil, que procurou vários trabalhos, mas que acabou sempre por tratar de pessoas mais velhas.
A Marco Martins interessava também mulheres que, apesar de terem realizado aquelas funções, tivessem também outro tipo de formações e de desejos, disse, exemplificando com Nádia e Fabiana, ambas a fazerem teses de mestrado e com trabalhos em ‘part-time’.
“O que as une é esse movimento pendular. São todas imigrantes e vivem todas fora dos centros urbanos, portanto no dia-a-dia também têm todas este movimento pendular”, sublinha.
Em “Pêndulo”, a partir de uma situação ficcionada, passada no interior de um supermercado, as oito mulheres acabam por discorrer em palco sobre situações do seu passado, ao mesmo tempo que ousam fazer especulações sobre o futuro. Um futuro melhor que vão aguardado, enquanto no interior do supermercado esperam que chegue a hora de dar início à limpeza daquele espaço.
Esta peça, na linha do trabalho cénico desenvolvido nos últimos anos por Marco Martins, assenta na participação e empenho de um grupo de actores não profissionais, abrindo espaço para as histórias dos que são directamente confrontados com a precariedade implícita no devir económico e social do mundo.
O espectáculo do encenador e cineasta constitui o seu sétimo encontro com não-actores oriundos de “comunidades frágeis” e a que o sistema dá pouca ou nenhuma voz; desta vez, foi à procura da força de trabalho maioritariamente imigrante que alimenta a indústria do serviço doméstico e dos cuidados domiciliários na Grande Lisboa.

Ficha técnica e artística:
Criação e encenação: Marco Martins
Texto: Marco Martins com o contributo do elenco e Djaimilia Pereira de Almeida
Elenco: Elane Galacho, Emanuelle Bezerra, Fabi Lima, Juliana Teodoro Alves, Maria Gustavo, Maria YaYa Rodrigues Correia, Nádia Fabrici, Nzaji Dende
Música: Tia Maria Produções
Movimento: Vânia Rovisco
Assistência de encenação e apoio dramatúrgico: Rita Quelhas
Cenografia: Fala Atelier
Desenho de luz: Nuno Meira
Sonoplastia e operação de som: Vítor Santos
Projecto, construção e montagem cenográfica: Artworks
Administração: Arena Ensemble, Marta Delgado Martins
Produção executiva: Flávio Catelli
Coordenação e direcção de produção: Mariana Brandão
Duração: 60 minutos
Classificação etária M/12
Pêndulo é um projecto Arena Ensemble em coprodução com ARTEMREDE. Envolve participantes dos municípios de Barreiro, Almada, Lisboa e Montijo.
Parcerias
Município do Barreiro, Município de Almada, Município do Montijo, Município de Lisboa

