Almada | Police Machine
Uma peça do Teatro da Rainha, que pode ser vista na Sala Experimental do Teatro Municipal Joaquim Benite, dia 27 de Maio às 21h e dia 28 às 16h
Little Joey Joe, um apresentador vedeta da rádio anuncia aos microfones o prémio da noite para um jovem parricida. Ao terminar o programa, depara com o seu carro em chamas e é violado por dois tipos. Uma prostituta leva-o para casa e ele estrangula-a. Pelo meio, um animador de pista estimula e mantém o espectáculo em acção. A prostituta – a mesma? outra? – liga para a rádio e fala com uma máquina como quem se aconselha num psicólogo. Dois tutores da noite abordam-na com a missão de a reinserirem, mas ela, atemorizada, defende-se disparando contra eles. Um miúdo de rua tenta fazer sexo com a prostituta, acabando por lhe roubar um saco com uma arma. Enquanto dorme, a prostituta é cobiçada por dois tipos e sonha com um mundo em destroços. O miúdo encontra Deus, um velho cansado com a aparência de vagabundo, e pede-lhe conforto. Deus não tem conforto para dar. O miúdo dispara contra Deus. Numa esquadra, a vedeta da rádio queixa-se à polícia do carro a arder. A polícia parece mais interessada na prostituta assassinada. Carrascos e vítimas fundem–se e confundem-se.
Eis-nos perante uma peça sobre a brutalidade incompreensível que se gera no quotidiano como se fosse natural, endémica – ou melhor, sócio-genética. Num cenário suburbano, abusos sexuais, violações, vandalismo, furtos, assassínios, vão sendo enquadrados pelo animador de pista. Esta é uma máquina policial alimentada pelo medo e geradora de violência, numa linha de produção que se pode observar em cenas sucessivas, como numa espécie de rodízio ou à laia de peep show. Num cenário suburbano, abusos sexuais, violações, vandalismo, furtos, assassínios, vão sendo enquadrados pelo animador de pista. Parte integrante do nosso dia-a-dia colectivo, deverá a violência ser varrida para debaixo do tapete? Nesta peça o confronto é, precisamente, com uma das dimensões da realidade que ou tendemos a disfarçar ou espectaculamos em proveito mediático, como se não fosse possível reflecti-la.
Estreou no México em 2009 e chega agora ao Teatro Joaquim Benite, com encenação do próprio autor. Nas palavras de Fernando Mora Ramos, director do Teatro da Rainha, citado em comunicado, “Police Machine” é “uma estranha engrenagem” em que “a violência é a comunicação dominante”, uma “violência que encadeia violências, daí a máquina”.
Joseph Danan (n. 1951), escritor e professor emérito no Instituto de Estudos Teatrais (Sorbonne Nouvelle – Paris 3), é autor de vários ensaios, alguns livros de poesia, pequenas ficções, romances e peças para teatro. Foi traduzido para português e levado à cena pelo Teatro da Rainha com as peças Dodô – no rasto do pássaro do sono (2010), Jojo, o reincidente (2011), O teatro dos papás (2013), O homem que queria (não) ser sábio, incluída no espectáculo Pensa, logo sangra (2016), e As aventuras de Auren, o pequeno serial killer (2016). Conhecedor profundo de Brecht, Beckett, Koltès e de toda a dramaturgia contemporânea, dinamizou, em 2017, uma Oficina de Escrita Teatral no Teatro da Rainha. Algumas peças de Joseph Danan foram encenadas por Alain Bézu, Jacques Kraemer, Joël Jouanneau, Jacques Bonnaffé e muitos outros

Ficha Técnica:
Encenação e Texto: Joseph Danan
Tradução: Isabel Lopes
Interpretação: Beatriz Antunes, Fábio Costa, Fernando Mora Ramos, Mafalda Taveira, Marta Taveira, Nuno Machado
Conselheiro artístico: Fernando Mora Ramos
Dispositivo cénico: Joseph Danan
Sonoplastia: Lucas Keating
Vídeo: Lucas Keating assistido por Inês Almeida
Duração aproximada: 60 min.
Classificação Etária: M/16

