O filme é melhor que o livro? A Costa dos Murmúrios

Dia 29 às 21h na Biblioteca Central de Almada, tem lugar um debate sobre a obra de Lídia Jorge

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A Biblioteca Municipal de Almada propõe um encontro mensal para visionar um filme e ler um livro. O objectivo é estabelecer uma comparação entre o filme e o livro adaptado, através da qual cada um encontrará a sua preferência, ou seja, se gostou mais do livro do que o filme, se gostou mais do filme do que o livro ou, se gostou de ambos de igual modo.

Para o mês de Fevereiro a escolha recaiu sobre o filme “A Costa dos Murmúrios” de Margarida Cardoso, adaptado do livro homónimo de Lídia Jorge. A actividade tem duas sessões, uma primeira, que ocorreu no dia 27 de Fevereiro às 20h, com o visionamento do filme e a segunda, dia 29 às 21h, para discussão do filme e do livro. A actividade destina-se a maiores de 18 anos e requer marcação prévia com Marta Duarte, através do mail biblactividades@cm-almada.pt ou do telefone 212 724 920.

No final dos anos 60, o ideal decadente do Império Português sufocava em guerras coloniais. Evita (Beatriz Batarda), na altura uma jovem de 20 anos, deixa a metrópole para ir casar com Luís Alex (Filipe Duarte), o seu noivo um estudante de matemática que cumpre o serviço militar em Moçambique. Mas Luís já não é o mesmo, transformado pelo absurdo da guerra, é uma triste imitação do seu capitão, Forza Leal (Adriano Luz). Do matemático ponderado resta apenas um corpo capaz de executar ordens, um invólucro passível de ser preenchido pelos modelos que lhe são apresentados.

Quando os homens partem para uma grande operação militar no Norte, Evita fica sozinha e, no desespero de tentar compreender o que modificou Luís, procura a companhia de Helena (Monica Calle), a mulher de Forza Leal. Submissa e humilhada, Helena é prisioneira na sua casa, onde cumpre a promessa de não sair até ao fim da campanha militar. Sob o verniz de obediência, está o desejo de morte do que a submete a uma disciplina espartana. É ela quem revela a Evita o lado negro de Luís, agora um alferes miliciano destacado para operações especiais. Lançada num mundo de violência e hipocrisia que não é seu, Evita vai testemunhar a era colonial à beira do fim. Um tempo de guerra, de perda e de culpa, ainda doloroso e com muitas feridas abertas da História de Portugal.

Um dos romances mais célebres sobre a ocupação portuguesa em Moçambique, o livro “A Costa dos Murmúrios” questiona com ironia todas as verdades absolutas fixadas pelos discursos oficiais.
Lídia Jorge desconstrói e anula tanto as versões que se teceram sobre este importante momento da história de Portugal quanto a própria língua, subverte palavras e, com um poderoso sentido poético, desvia-se da narração para criar formas e quadros compostos de sugestões e traços inventados.

“Os portugueses tendem a silenciar a brutalidade do que se passou em África. Nós fomos violentos e eu quis evidenciar isso em ‘A Costa dos Murmúrios’. Quando Luís Alex e Forza Leal disparam sobre as aves, elas ficam destroçadas. Está ali expressa a violência. Por uma opção estética, a Margarida Cardoso não quis exibir as aves aos bocados. O meu livro expunha essa brutalidade sem a subtileza que aparece no cinema”, disse Lídia Jorge, que vê como “única concessão” do filme uma camisa manchada de sangue, na cena da roleta russa.

Margarida Cardoso reconhece que procurou suavizar as passagens mais duras do livro. Esta opção estética é coerente com a sua biografia. A experiência da realizadora em Moçambique é a de uma criança que, nos anos 60, apenas recolheu os ecos dos combates. “Morámos lá por doze anos, num hotel parecido com o Stella Maris, onde se hospedavam as famílias dos militares portugueses. Por isso, tudo no filme tem a minha visão infantil. Porque eu me apoiei nas minhas referências emocionais para erguer esta ‘Costa dos Murmúrios’. Daí o filme estar tão filtrado, não se vê um homem a dar um tiro na cabeça do outro”, explica a realizadora numa entrevista ao jornal Público.

“É um pedaço da minha infância que precisei reconstruir. Não só porque havia um esquecimento histórico implícito em tudo o que ouvíamos, mas também porque tudo isso se reflectia no espaço doméstico. Nós nunca dizíamos as palavras como elas deveriam ser ditas. Respirava-se a guerra e os seus temores. O medo eu não sentia directamente, espelhava-o a minha mãe. Mesmo não tendo presenciado nada de terrível durante a guerra, a criança que fui testemunhou esta violência contida, doméstica, não falada”, diz Margarida Cardoso. Isto esclarece o privilégio das tomadas de interiores, realizadas na Costa da Caparica, sobre as filmagens externas em Maputo.

Estreado a 25 de Novembro de 2004, o filme foi nomeado aos Globos de Ouro portugueses no ano de 2005 nas categorias de Melhor Filme (Margarida Cardoso), Melhor Actor (Filipe Duarte), Melhor Actriz (Mónica Calle) e Melhor Actriz (Beatriz Batarda), tendo esta última vencido o Globo de Ouro.

Sofia Quintas

Directora e jornalista do Almada Online

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