Almada | A Casa de Bernarda Alba
O Almada Online entrevistou a encenadora da peça, Ana Nave.
“A Casa de Bernarda Alba” de Federico García Lorca é revisitada pela Arte33 – Núcleo Cultural, que a leva à cena no Salão das Carochas, de 24 de Abril a 12 de Maio, de Quinta a Sábado às 21h e Domingos às 18h. A peça está inserida nas comemorações do cinquentenário do 25 de Abril.
Ana Nave resume ao Almada Online o que esperar desta versão da Arte33. “Na peça de Lorca escrita em 1936, Bernarda, após a morte do segundo marido herda o nome da família e assume o poder absoluto, o poder de ‘chefe de família’. Seguindo o modelo de seu pai, impõe às cinco filhas um luto de reclusão total durante oito anos, que só poderá ser quebrado pelo casamento para procriação. Todas as mulheres da casa devem submeter-se à sua disciplina autoritária. Só as criadas trazem notícias do que se passa fora da casa e é Bernarda quem se encarrega de as interpretar, desenhando o exterior como promíscuo, perigoso, cheio de inimigos e gente de fora que não respeita as tradições e a moral. O lugar da mulher é em casa : ‘Chicote e mula para os homens, agulha e linha para as mulheres’. A opressão e o autoritarismo de Bernarda provocam o desejo de liberdade personificado na loucura de Mª Josefa (mãe de Bernarda) e no impulso amoroso de Adela que dará lugar à tragédia. Estamos a comemorar meio século de liberdade e de conquistas e há quem venha perguntar qual o lugar da mulher?”
Nesta versão da Arte 33 a Casa é uma prisão. Num espaço fechado não há horizontes. A atmosfera que se respira no interior da Casa produz monstros. As filhas de Bernarda deixam de ser mulheres, tornam-se animais, vivem em manada; cobiçam, conspiram, obedecem. A Casa é um ninho de ódio. As mulheres de Bernarda querem amar, mas não sabem ser amadas. O seu desejo é estéril. Anseiam um futuro que nunca terão. A Casa é uma fronteira.
“Esta versão da A Casa de Bernarda Alba foi traduzida e adaptada pelo Rui Silvares que tem assinado a dramaturgia e autoria de algumas das peças que a Arte33 tem levado a cena nos últimos 10 anos. Neste isolamento, a que as personagens estão sujeitas, há um código de linguagem próprio como se as ditaduras amputassem a comunicação e o entendimento. As cinco filhas de Bernarda Alba são interpretadas por actores porque lhes quisemos retirar à partida o passaporte da liberdade que seria casarem para engravidarem. Por outro lado esta Bernarda Alba, opressora e autoritária, com a herança de linguagem do poder no masculino também é interpretada por um actor. Convidamos actrizes para os papéis das criadas e da Maria Josefa. As criadas embora subjugadas ao poder da Bernarda, gozam de afirmação sexual e, como a mãe de Bernarda, Maria Josefa, falam do desejo do sexo feminino.”, explica a actriz e encenadora Ana Nave ao Almada Online.
Nesta produção, a família de Bernarda possui um código de linguagem próprio, fruto da sua clausura e isolamento. As criadas ligam a família ao exterior. Têm o poder de moldar o imaginário das reclusas. Onde há repressão germina sempre o desejo de ser livre.
“Continuará a ser oportuno revisitar Lorca enquanto houver gente a lutar e a morrer pela Liberdade.”, afirma Ana Nave.
Esta foi a última peça de Federico García Lorca, terminada trinta dias antes de o poeta ser vítima do ódio fascista dos falangistas espanhóis. Lorca foi fuzilado às quatro e quarenta e cinco da madrugada do dia 18 de Agosto de 1936, numa estrada perdida no coração de Espanha. Tinha 38 anos de idade. A estreia de “A Casa de Bernarda Alba” aconteceu em 1945, em Buenos Aires e só viria a ser encenada em Espanha em 1964, no Teatro Goya, em Madrid. “A Casa de Bernarda Alba” continuou a ser lida e produzida ao longo das décadas, tanto em espanhol como noutras línguas.
Ana Nave conta-nos a história do nascimento da Arte33. “Em 2012 convidaram-me para ajudar a formar um grupo de Teatro de Amadores na Costa da Caparica. Quando cheguei á sala de cinema do Centro Comercial Pescador estavam 32 pessoas com vontade de fazer teatro. Nesse ano estreámos ‘As Aves’, comédia grega de Aristófanes. No ano seguinte conseguimos aumentar dois metros o palco do cinema do Pescador e continuámos a produzir um espectáculo por ano. Estabelecemos uma parceria com o Centro de Arqueologia de Almada, e começamos a fazer bianualmente um espectáculo de teatro comunitário a partir de histórias locais do concelho de Almada. Em 2017 constituímo-nos como associação Arte33, com o Carlos Dias Antunes a assumir a presidência e a Josefina Correia na direcção de produção. Fizemos uma co-produção com o Teatro Municipal São Luiz que esteve em cena vários meses e andou pelo país e ilhas : ‘Odeio Este Tempo Detergente’ a partir da obra de Ruy Belo, interpretada por mim, pela actriz Maria João Luis e com o músico José Peixoto. Durante a pandemia, em streming, estreámos seis curtas-metragens a partir de contos do Dino Buzzati, com realização minha e do João Tempera, e fotografia e edição do Miguel Munhá. Em 2022 fizémos mais uma co-produção, desta vez com as Causas Comuns : ‘Pulmão’, de Ducan Mcmillan, que esteve em cena sempre esgotado, primeiro no Teatro Meridional depois no Teatro Maria Matos em Lisboa. O ano passado em co-produção com o Casino da Trafaria o espectáculo ‘Na Ponta da Areia/Pequenos Sons da Boca’, de Bess Wohl animou durante o mês de Julho as ruas da Trafaria. Celebrámos, este ano, uma co-produção com a CMA para o espectáculo de teatro comunitário ‘Uma Pedra no Sapato’, histórias do teatro em Almada, a estrear em 2025.”
A encenadora termina desafiando os almadenses “a conhecerem o Salão das Carochas”. Segundo Francisco Silva do Centro de Arqueologia de Almada, este edifício erguido no séc XIV, como Ermida do Espírito Santo, resistiu ao terramoto de 1755, que destruiu totalmente a aIgreja Matriz de Santa Maria do Castelo, tendo-se tornado sede desta paróquia almadense até finais do século XVIII, mantendo-se aberta ao culto até finais do século XIX. O edifício foi posteriormente arrendado à Academia de Instrução e Recreio Familiar Almadense, fundada em 1895, que ali instalou a sua sede e salão de festas, entre 1919 e 1942. Segundo consta o epiteto de “Salão das Carochas”, nome por que o espaço é conhecido pelos almadenses mais antigos, deriva da grande quantidade de insectos rastejantes que deambulavam pelo chão e que eram esmagados pelos pés dos dançarinos durante os bailes da colectividade. Em 1974, depois da revolução do 25 de Abril, um grupo de moradores, animados pelo ambiente de participação popular que se vivia na altura, decidiu utilizar o espaço para aí instalar o Grupo Desportivo e Cultural de Almada (GDCA), onde promoveram, entre outras, actividades destinadas ao público jovem e infantil, entre as quais o teatro. A associação extingue-se em finais da década de oitenta do século passado e o edifício permanece sem utilização até 2007, quando é adquirido pela Câmara Municipal de Almada. A partir de então inicia-se o processo que levará à recuperação do edifício com vista à Instalação do Centro de Interpretação de Almada Velha (CIAV) inaugurado em 2013, vindo a encerrar em 2018.
Os bilhetes para “A Casa de Bernarda Alba” têm o preço de 10€ e podem ser adquiridos aqui.

Ficha Artística
A Casa de Bernarda Alba
A33 – Núcelo Cultural
Texto: Federico García Lorca
Tradução e adaptação: de Rui Silvares
Encenação: Ana Nave
Adaptação para cena: Ana Nave, Rui Silvares
Interpretação: Afonso Guerreiro, Ana Saltão, António Olaio, Carla Silva, Carlos Antunes, Cecília Laranjeira, Elsa Viegas, Francisco Silva, José Vaz, Karas, Rui Cerveira
Espaço Cénico: Ana Nave e Rui Silvares
Figurinos: Alice Rolo
Adereços: Francisco Silva
Desenho de Luz e Som: Rui Oliveira
Grafismo: Rui Silvares
Fotografia: José Frade
Direcção de Produção: Josefina Correia
Coprodução Arte33, Câmara Municipal de Almada, Centro de Arqueologia de Almada

