Almada | Uma barragem contra o Pacífico

Estreia acontece a 14 de Março pelas 21h no TMJB. A peça fica em cena até 6 de Abril, de Quinta a Sábado, às 21h, e Quartas e Domingos, às 16h

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“Uma barragem contra o Pacífico”, a nova criação da Companhia de Teatro de Almada (CTA) com texto do romance seminal de Marguerite Duras é pela primeira vez levado à cena em Portugal, numa estreia absoluta no Teatro Municipal Joaquim Benite (TMJB). Os bilhetes para a noite de estreia estão esgotados há largos meses.

Estamos no ano de 1931. A personagem central desta história é uma mãe, antiga professora primária, que fora casada com um professor. Seduzido pela propaganda colonial, esse casal partira para a Ásia na expectativa de um futuro melhor. Após alguns anos relativamente felizes, o pai morre e a mãe fica sozinha com os dois filhos, Joseph e Suzanne. Vivem os três num bungalow isolado junto ao mar, no Sul da Indochina francesa. As condições de vida destes colonos são miseráveis. Tudo o que possuem é um velho Citroën que perde peças pelo caminho. Esta mãe investiu todas as suas economias — ganhas como pianista de cinema durante 15 anos — e acaba por conseguir obter, após sucessivas tentativas, a concessão de um terreno para cultivo junto da administração colonial francesa. Só que os responsáveis pelo governo da colónia, uma vez que não receberam qualquer soma por debaixo da mesa, acabam por atribuir-lhe uma parcela incultivável: todos os anos as plantações são alagadas pelas marés altas. Destroçada com a destruição sucessiva das barragens que insiste em construir para proteger os seus terrenos da água do mar, e acossada pela administração francesa corrupta, esta mulher acaba por sucumbir à loucura.

Esta é a história de uma longa injustiça, levada a cabo pela administração colonial da Indochina francesa, foi utilizada por todos os sistemas coloniais europeus, com variantes, mas sempre segundo o mesmo princípio de exploração de uma etnia dita inferior por uma dita superior. Nesta história, aqueles que sofrem essa injustiça são os da ‘raça’ dos senhores: colonos pobres, atraídos para a colónia asiática na miragem de uma vida fácil e enriquecimento rápido, que umas certas literatura e propaganda se aplicavam a propalar em França no início do século XX.

Concretamente, fala-se do logro em que caíram milhões de pessoas atraídas pelos ‘El Dorados’ noutros continentes, bem como da iniquidade dos sistemas extractivistas nos quais os autóctones eram uma mera força de trabalho.

“Uma barragem contra o Pacífico”, de Marguerite Duras, é um registo autobiográfico, onde nos é revelada a história dos europeus deserdados e desiludidos que, simplesmente, buscaram o seu quinhão na herança dos novos mundos. Foi o romance que em 1950 celebrizou Marguerite Duras em França. Nele, evoca-se também a vida de dois jovens que, face às suas existências de “brancos pobres” sem horizontes, mais não possuem do que uma raiva surda. Um sentimento só reconhecível por aqueles que bateram com a cabeça contra um muro tão inexorável quanto o Pacífico, iludidos por um regime colonial. Duras conta uma história dominada pelo sol, o álcool, a imensa miséria dos asiáticos e dos colonos pobres, as alternâncias entre o riso louco e a tristeza — e uma sensualidade violenta.

A adaptação para teatro deste romance, que a CTA leva agora à cena, na tradução de Lúcia Liba Mucznik, é da autoria da actriz francesa Geneviève Serreau e foi publicada na revista L’Avant-Scène em Janeiro de 1960.

As “Conversas com o Público”, no âmbito desta criação da CTA, regressam a 15 de Março. Pode aceder ao seu programa na íntegra aqui.

Marguerite Duras (Gia Định, Indochina francesa, 1914 – Paris, 1996) foi uma escritora, dramaturga, guionista, realizadora e jornalista francesa. Durante a infância viveu em Saigão (actual Hanói). Em 1932, após terminar o liceu, instala-se em França com a família. Estuda matemática, ciência política, licencia-se em Direito, e torna-se secretária no Ministério das Colónias, entre 1938 e 1940. Em 1939 casa-se com Robert Antelme e dois anos depois tem um filho nado-morto, do qual jamais conseguirá fazer o luto. Na Primavera de 1940 publica, com Philippe Roques, “L’Empire français”, o seu primeiro livro. Durante a II Grande Guerra alista-se na Resistência contra a ocupação Nazi. Em 1945 inscreve-se no Partido Comunista Francês, que abandona cinco anos depois. Em 1947 divorcia-se do primeiro marido e casa-se com Dionys Mascolo, de quem terá um filho. Nove anos depois, separa-se. Publica o primeiro romance, “Os impudentes”, em 1943, mas só se torna conhecida do grande público em 1950, com a narrativa de inspiração autobiográfica “Uma barragem contra o Pacífico”. É o início de uma importante carreira como romancista e dramaturga, que incluirá alguns dos mais relevantes títulos da literatura francesa da segunda metade do século XX, como “O marinheiro de Gibraltar” (1952), “O jardim” (1955), “Moderato cantabile” (1958) “O arrebatamento de Lol V. Stein” (1964), ou ainda “O Vice-Consul” (1966). Em 1984 publica “O amante”, que obtém o Prémio Goncourt e se torna num sucesso à escala global. De Marguerite Duras, a Companhia de Teatro de Almada levou à cena “Dias inteiros nas árvores”, com encenação de Joaquim Benite (1991), e “La musica II”, encenação de Marie-Pierre Fernandes (1992).

Álvaro Correia tem o curso de Encenadores/Formação de Actores da Escola Superior de Teatro e Cinema e o Curso de Formação de Actores da Comuna – Teatro de Pesquisa. Pertenceu a essa companhia entre 1989 e 2015, tendo participado como actor em praticamente todas as criações desse período, e dirigido textos de autores tão diversificados como Harold Pinter, Luís Fonseca, Abel Neves, Lars Norén, Edward Albee, Molière, Arne Lygre, Samuel Beckett, Noel Coward, William Shakespeare, Henrik Ibsen, Falk Richter, ou Bernard-Marie Koltès. No Teatro Nacional D. Maria II dirigiu peças de Gil Vicente, Patrícia Portela e Joana Berthólo. Nos últimos três anos dirigiu as peças “Os filhos”, de Lucy Kirkwood, no Teatro Aberto; “A senhora de Dubuque”, de Edward Albee, no Teatro da Trindade, e “Prometeu/Artaud”, apresentada no TMJB no final do ano passado. É Professor Adjunto do Departamento de Teatro da Escola Superior de Teatro e Cinema, onde lecciona a disciplina de Interpretação desde 2000.

©CTA / A mãe fica sozinha com os dois filhos, Joseph e Suzanne.

Ficha Técnica e Artística:

Texto: Marguerite Duras
Encenação: Álvaro Correia
Interpretação: Bruno Soares Nogueira, David Pereira Bastos, Erica Rodrigues, Íris Cañamero, João Cabral, João Jesus, Qiming Liu e Teresa Gafeira
Adaptação: Geneviève Serreau
Tradução: Lúcia Liba Mucznik
Cenografia e Figurinos: Sérgio Loureiro
Música: Sofia Vitória
Desenho de Luz: Guilherme Frazão
Duração: 1h45
Classificação: M/12

Preço: entre 6,5€ e 13€ (Clube de Amigos: entrada livre)

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Sofia Quintas

Directora e jornalista do Almada Online

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