Costa da Caparica | Apresentação dos livros “Mário Bengala” e “Tarzan”
Serão também exibidos três documentários realizados por António Saraiva
A Associação Gandaia acolhe no Auditório Costa da Caparica, dia 3 de Dezembro pelas 16h, o lançamento de dois livros da autoria de Teresa Palma Fernandes, com chancela da Gandaia Edições. A entrada é livre.
Neles, são entrevistados dois caparicanos do século passado, bastante famosos entre as gentes do mar e das Terras da Costa: do Bairro dos Pescadores, António Gonçalves Ribeiro, o “Tarzan” e; das Terras da Costa, Mário Alberto Gonçalves Alves, “Mário Bengala”.
A apresentação de ambos os livros estará a cargo do Dr. Alexandre Flores, historiador e autor.
Depois da apresentação dos livros, serão exibidos três documentários realizados pelo professor António Saraiva: S. João na Rua 15; A Promessa e; Nossa Senhora do Cabo.
Mário Bengala
Mário Bengala nasceu em 1925 na Costa da Caparica, tal como o seu pai e o seu avô. Era descendente de algarvios e de Ílhavos, fundadores da segunda cidade do concelho de Almada. O seu destino era o mar, mas por razões familiares acabou por ficar sempre ligado à terra. Tornou-se num dos maiores agricultores das Terras da Costa.
Foi o avô de Mário Bengala e outros agricultores da Costa da Caparica que transformaram os antigos juncais em terras férteis. Usavam restos de peixe, caranguejos e até santolas para adubar a terra, e os vegetais começaram a crescer tanto que as Terras da Costa eram consideradas um dos celeiros de Lisboa. Depois, em burros, iam até ao mercado da capital vendê-los.
Mário Bengala sonhou em deixar a Costa da Caparica e ir para a Marinha Mercante, mas houve muitos problemas. O padre que nunca o via na missa, achou que ele era comunista e recusou-se a passar o documento que exigiam na Marinha, confirmando que era católico.
Uma complicada história que envolve uma discussão com o pai, um relógio partido e a promessa da mãe lhe comprar um igual mas de ouro e, ainda um dinheiro guardado com sacrifício pela mãe e escondido no forno de ferro, que acabou queimado no dia em que Mário, sem saber de nada, resolveu assar umas batatas doces.
Mário prometeu que trabalharia até poder dar à mãe o dinheiro, para que ela cumprisse a sua promessa. As promessas foram ambas cumpridas. Acabou por ficar e, aos 13 anos pediu ao pai terra para semear.
Para honrar a memória do pai Mário Bengala cumpriu uma outra promessa, que este lhe comunicou antes de morrer. Na véspera de Natal de 2002, no centro da Costa da Caparica, Mário Bengala distribuiu couves das suas terras à população da Costa da Caparica.

O Tarzan da Caparica ou Roaz
António Gonçalves Ribeiro, conhecido na Costa da Caparica como “Tarzan”, nasceu em 1922 na Costa. Era, assim como Mário Bengala, descendente de fundadores da Costa da Caparica.
Filho de uma família muito humilde, viveu numa barraca no centro da Costa da Caparica – o seu berço era um caixote e o pijama uma saca com três buracos, um para a cabeça e outros dois para os braços – e nunca foi à escola primária porque tinha de ajudar o pai na pesca, era a sobrevivência da família que estava em causa. Não teve tempo para ser criança. A pobreza, as privações, dizia que não passou fome, a fome é que passou por ele, e a permanente luta pela sobrevivência deram-lhe uma vontade férrea de vencer a adversidade.
Nunca teve medo do mar e, aos 17 anos, nadava mais rápido do que os atletas do Algés e Dafundo. O clube quis contratá-lo, mas não aceitou dizendo que não tinha dinheiro para comer quanto mais para as passagens que custavam, na época, oito tostões.
A sua primeira actividade foi a de Pescador, mas a sua fama de bom nadador levaram-no a ser escolhido pelos responsáveis da FNAT (hoje INATEL) para ser o banheiro da Colónia de Férias “Um Lugar ao Sol”, na Costa da Caparica, em 1939. Era um trabalho longo e árduo. Levantava-se às três da manhã para armar toldos e barracas, depois vigiava a praia e, no final do dia, recolhia o equipamento usado pelos banhistas. A sua mulher Germana leva-lhe o almoço e ficava a seu lado nas longas horas de vigia. Ensinou a nadar sucessivas gerações de crianças e jovens. Foi nadador-salvador por mais de 40 anos.
Lançava-se ao mar sem medo, mesmo quando estava bravio e distinguia-se pela velocidade que conseguia nas braçadas, que a todos surpreendiam. Os caparicamos chamavam-lhe “O Roaz”, porque dizia que tinha aprendido a nadar com os golfinhos e, os banhistas, Tarzan da Caparica. Era ao lado deles que fazia a distância que separava a praia da Fnat, na Costa da Caparica, da Cova do Vapor, onde tinha por hábito ir beber um pirolito depois do trabalho.
Devido aos seus muitos salvamentos, cerca de 400, conquistou a admiração dos colegas de profissão e, dos banhistas, que frequentavam a Costa da Caparica. Só num dia tirou 16 pessoas do mar. Nunca houve uma morte na praia de S., João enquanto Tarzan lá trabalhou. Será, talvez, o único nadador-salvador que nunca deixou ninguém no mar. O seu pai, que tinha deixado a pesca para ser coveiro, disse-lhe um dia que estava a estragar o seu negócio, porque ganhava cinco escudos por cada enterro que fizesse. O único que foi tragado pelo mar foi um cidadão espanhol, isso aconteceu no dia em que Tarzan não estava de vigia porque tinha ido a Lisboa. Havia quem viesse de outras praias só para o conhecer.
Também foi pescador na Lagoa de Albufeira, em Sesimbra, vendeu peixe, foi soldador numa fábrica de conservas, guarda-nocturno na Costa e, estivador na Rocha de Conde d’Óbidos, em Santa Apolónia. Na escola só esteve um dia.
Os seus feitos rapidamente correram o Pais e mundo e, mereceu manchetes de jornais e televisão. Em 1996, foi-lhe atribuída a “Medalha de Ouro de mérito e dedicação da cidade de Almada.” Em 1997 foi condecorado com a “Cruz Branca”, a bem da Humanidade, pelos Bombeiros Voluntários de Campo de Ourique
Em 2016, a Inatel fez-lhe uma homenagem com uma exposição fotográfica biográfica e, descerrou uma placa comemorativa em sua homenagem, na unidade hoteleira da instituição na Costa da Caparica. A placa tem 1, 75m, a mesma altura daquele a quem é dedicada, e a parte superior tem a forma do seu busto.
Nos últimos anos de vida dedicava-se ao artesanato, fazia vários trabalhos em conchase búzios que apanhava nas praias da Costa da Caparica. Faleceu a 26 de Agosto de 2006, com 84 Anos.


