Reencontros e recomeços no 42º Festival de Almada

"Ouvir o público" foi o mote de partida para a programação deste ano, a que poderá assistir de 4 a 18 de Julho, em palcos de Almada e Lisboa.

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Entre 4 e 18 de Julho, o 42º Festival de Almada traz a nove palcos de Almada e Lisboa alguns dos criadores e das companhias que mais sucesso obtiveram em edições anteriores. Das 20 criações que irão a cena fazem parte peças de teatro, dança, novo-circo, marionetas e teatro de objectos. Nestas duas semanas haverá também três exposições, 10 colóquios com artistas convidados, 16 concertos de entrada livre na Esplanada da Escola D. António da Costa e o encontro “Camões, Camões” dedicado a Luís de Camões. A personalidade homenageada este ano é a actriz Lia Gama, e o dramaturgo espanhol Alberto Conejero López dirigirá o seminário de formação O sentido dos Mestres, este ano denominado “Uma literatura em chamas: cinco apontamentos sobre dramaturgia e escrita dramática”. O espectáculo de abertura “Qui Som?“, dos franceses Baro D’evel, será transmitido em directo pela RTP2, a 4 de Julho às 20h.

A programação deste ano consiste no que Rodrigo Francisco, director artístico do Festival de Almada, escreveu como título no seu texto de apresentação da programação do Festival: “Ouvir o público”. “Os espectadores estiveram no centro da nossa atenção quando se tratou de escolher estes espectáculos”, disse, sublinhando também a relevância do teatro por ter essa capacidade de “se colocar no lugar do outro”, daí “a relação íntima do teatro com a democracia”. Depois de ouvir o público do Festival, são vários os criadores e companhias conhecidos do público que regressam a Almada para um reencontro, não esquecendo nunca os recomeços que as estreias representam.

Da vasta programação destacamos as encenações de Thomas Ostermeier, Joël Pommerat – que já tinhamos noticiado anteriormente -, e de William Forsythe.

Thomas Ostermeier, que dirige a Schaubühne Berlin desde 1999, é um dos mais renomeados encenadores europeus que mantém uma relação regular com o Festival desde final da década de 90. Regressa este ano com “História da violência“, a partir do romance de Édouard Louis, uum registo autobiográfico onde é contada a violação de que o escritor francês foi vítima, se ajustam contas com o passado colonial francês e se descreve como a extrema-direita conquistou terreno junto da população francesa que até aí votara na extrema-esquerda. O espectáculo que pode ser visto a 9 e 10 de Julho, no Teatro Municipal Joaquim Benite (TMJB).

Joël Pommerat também mantém uma relação de décadas com o público almadense, que tem visitado na sequência das digressões que realiza. Escreve as peças que encena em conjunto com os seus actores, e a sua presença em Almada é sempre um acontecimento. “Marius” (13 e 14 de Julho no TMJB), criada a partir de uma peça de Marcel Pagnol, resulta do seu encontro com um homem que cumpria uma pena de longa duração — que acabou por tornar-se num dos intérpretes do espectáculo.

Estreante no Festival é William Forsythe, coreógrafo norte-americano a viver há décadas na Alemanha e uma referência obrigatória na dança contemporânea. Célebre por ter tornado o ballet numa disciplina artística dinâmica, Forsythe tem-se também dedicado à criação de instalações, filmes e projectos online inspirados no seu interesse pelos princípios basilares da organização coreográfica. Em 2004, fundou a Forsythe Company, que dirigiu até 2015. Actualmente as suas coreografias são dançadas pelas principais companhias do Mundo, e os seus ‘objectos coreográficos’ fazem parte de exposições em vários museus. Em “Friends of Forsythe” (5 e 6 de Julho no TMJB) cruzam-se linguagens coreográficas, entre bailarinos da Forsythe Company e intérpretes de street dance.

©Arno Declair / “História da Violência”, com encenação de Thomas Ostermeier, narra uma violação na primeira pessoa.

São várias as criações na programação deste ano não têm texto e são todas de companhias que já passaram pelo Festival em anos anteriores e deixaram o público curioso. É o caso dos franceses Baro d’evel, que regressam com “Qui som?” (Quem somos nós?), um espectáculo que une circo, teatro e dança, num elogio à utopia que luta contra as forças do desespero e da renúncia, através da fantasia, da poesia e do burlesco. O espectáculo vai à cena nos dias 4 e 5 de Julho, no Centro Cultural de Belém (CCB).

Os alemães Familie Flöz são também conhecido so público e trazem este ano “Teatro Delusio” (14 de Julho, Palco Grande, António da Costa), um dos seus maiores êxitos. A peça narra a história dos contra-regras Bob, Bernd e Ivan, três técnicos incansáveis apenas separados do mundo do espectáculo por uma cortina. Um teatro de máscaras, que mostra um mundo repleto de humanidade, onde abundam as ilusões e as desilusões. A cena torna-se bastidor e o bastidor cena.

Os franceses do Galaktik Ensemble estão de volta a Almada com a sua última criação “Zugzwang” (16 de Julho, Palco Grande, António da Costa), onde perguntam “de que forma se movem os corpos quando o terreno é instável?”. O Collectif Petit Travers apresentam-se pela terceira vez em Almada, desta vez no Palco Grande da Escola D. António da Costa no dia 10 de Julho com “S’assurer de ses propres murmures“, um espectáculo-concerto.

©Eckard Jonalik / “Teatro Delusio”, dos alemães Familie Flöz, narra a vida do teatro por detrás do brilho do palco.

De salientar também a dupla de cómicos franceses Pierre Guillois / Olivier Martin-Salvan, um reencontro aguardado, com “Les gros patinent bien – Cabaret de carton” (Os gordos patinam bem – Cabaré de cartão) que abrirá o Palco Grande da António da Costa a 4 de Julho, depois de ter conquistado um Prémio Molière em 2022. Herdeiros da tradição do Palhaço Rico / Palhaço Pobre, contam uma história de amor mitológica, e brincam com os mitos europeus.

Escolha do público na edição do ano passado, volta “La tempesta“, da histórica companhia de teatro de marionetas Carlo Colla & Figli, como Espectáculo de Honra. Recorrendo a Eduardo De Filippo, que gravou a voz de todas as personagens (excepto a de Ariel), este espectáculo para toda a família consiste numa revisitação inesquecível daquela que será provavelmente a última peça de William Shakespeare. Esta companhia milanesa tem-se afirmado, desde há quase dois séculos, como uma das principais companhias de marionetas italianas.

Os catalães Els Joglars, conhecidos do público há mais de duas décadas, trazem “El rey que fue“, um retrato satírico de Juan Carlos I, cuja vida, segundo o decano encenador, “dava uma verdadeira tragédia shakespeareana”.

Emma Dante não vinha a Almada desde 2014, e a sua carreira abarca actualmente o cinema e a encenação de ópera, para além da escrita de teatro e de ficção. Dante regressa “Extra Moenia” (Fora de muros), que este ano encerra o Festival, uma batalha alegórica onde denuncia “as atrocidades do nosso tempo”, contando com a participação de Verdy Antsiou, um migrante africano que desembarcou na Sicília como refugiado.

©Rosellina Garbo / “Extra Moenia”, de Emma Dante, ou uma alegoria de denúncia das atrocidades actuais.

Nas criações nacionais, o destaque vai para a Companhia de Teatro de Almada (CTA) que estreia uma versão para teatro de um texto de Peter Handke, vencedor do Prémio Nobel da Literatura 2019, com encenação de Teresa Gafeira. Em “Um adeus mais-que-perfeito” o escritor austríaco narra percurso de vida da sua mãe, relatando a espiral de dor que a levou ao suicídio, aos 51 anos. Handke aborda também o surgimento do nazismo, a II Guerra Mundial e o sofrimento que se seguiu. O escritor descreve a vida de uma mulher que, apesar da vontade de aprender teve de abdicar da sua instrução devido ao meio provinciano da época em que viveu, casou-se demasiado cedo e viveu a II Grande Guerra. Depois a divisão da Alemanha, cai numa depressão profunda e acaba por pôr fim à própria existência, de forma bastante meticulosa. Por detrás da aparência do que se diz, mora a violência do indizível.

Mas haverá muito mais teatro nacional, com espectáculos de grande e de pequeno formato, peças de texto ou de teatro documental, autores contemporâneos ou a revisitação de clássicos, a criação portuguesa está representada nesta 42.ª edição do Festival com um conjunto de peças que ilustram a diversidade da cena nacional contemporânea.

O Teatro da Trindade/Inatel aborda um texto de um dos mais prestigiados dramaturgos ingleses da actualidade, “Telhados de vidro”, de David Hare, com encenação de Marco Medeiros, transpõe a acção de Londres para uma Lisboa actual. A peça fala sobre poder, política e paixão, e conta com Benedita Pereira e Diogo Infante como protagonistas.

A Companhia Amarelo Sivestre traz ao Festival o terceiro capítulo de um projecto que durará dez anos, invocando a problemática da Habitação, em “A casa morreu – Diário de uma República III“. O colectivo de Canas de Senhorim cruza a fotografia com o teatro, numa abordagem de temas actuais na sociedade portuguesa.

Do Porto, a mala voadora aterra em Almada com “As aves“, uma revisitação de um clássico de Aristófanes, dirigida por Jorge Andrade. Esta reflexão sobre o poder e a liberdade foi realizada em co-produção com as Comédias do Minho, de Paredes de Coura, e narra uma história cheia de pássaros emplumados, humanos e deuses de mármore.

O Arena Ensemble, de Marco Martins, repõe o espectáculo que no final de 2024 esgotou uma semana de representações no Auditório Rui Vilar, na Culturgest. “A colónia” é baseada em memórias dos filhos de presos políticos portugueses, com um elenco de actores profissionais, estudantes de teatro e não-actores. A peça parte de uma investigação da jornalista Joana Pereira Bastos para o jornal Expresso, “Férias contra ditadura”. A música, ao vivo, é de B Fachada.

O encenador Rui Neto, e a Lobo Mau Produções, apresentam “Monóculo, retrato de S. von Harden“, protagonizado por Cristóvão Campos, numa viagem ao âmago do movimento expressionista alemão, que é também a história do quadro que dá o nome ao espectáculo do pintor Otto Dix. A peça retrata a vida da jornalista S. von Harden, que de cabelo curto, monóculo, cigarro na mão e discurso fluente, surge como ícone da mulher emancipada entre as duas grandes guerras. O monólogo foi bastante elogiada na crónica deste mês de Maria Emília Castanheira, no Almada Online, onde destaca o desempenho do actor almadense, que ficou na sua memória.

©Jorge Albuquerque / O actor almadense Cristóvão Campos, encarna a jornalista S. von Harden, um ícone feminista.

A dança portuguesa também volta a marcar presença no Festival, com coreografias de criadores com universos e percursos distintos: a Companhia Nacional de Bailado traz um programa duplo ao Teatro Municipal Joaquim Benite, com a estreia de “Quatro cantos num soneto“, de Fernando Duarte e “The Look”, de Sharon Eyal (The Look). No Palco Grande, poderá ver a mais recente criação de Victor Hugo Pontes, “Há qualquer coisa prestes a acontecer“, com a qual o criador celebrou os 50 anos do 25 de Abril de 1974.

Lia Gama, cuja carreira se tem desdobrado entre o teatro, o cinema e a televisão, é a actriz homenageada este ano. Dia 4 de Julho, será inaugurada uma instalação em sua homenagem, no Átrio da Escola D. António da Costa, intitulada “Na casa dos espelhos”, concebida pelo cenógrafo José Manuel Castanheira. A cerimónia de homenagem a Lia Gama decorrerá no Sábado 12 de Julho, às 22h, no Palco Grande da Escola D. António da Costa, com intervenções de Inês de Medeiros, Presidente da Câmara Municipal de Almada (CMA), da actriz Maria João Luís, e do actor Santiago Galvão.

“Para mim, foi muito inesperado, não estava a contar com nada disso. Mas é o que eu digo: tenho uma idade e tantos anos, tantos anos de trabalho que não me chamam para trabalhar, homenageiam-me”, afirmou Lia Gama à agência Lusa, à margem da apresentação da programação deste ano do Festival, no Convento dos Capuchos.

Pode aceder à programação completa da 42º edição do Festival de Almada aqui.

As Assinaturas do Festival, que dão entrada em todos os espectáculos, podem ser adquiridas no site e na bilheteira do Teatro Municipal Joaquim Benite (de Quarta a Sábado,das 13h30 às 22h30; Domingo das 13h30 às 19h30) ou nas lojas FNAC, e têm o valor de 100€ (80€ para os membros do Clube de Amigos do TMJB). Estão também disponíveis bilhetes avulso para cada espectáculo com o preço de 13 a 20€ para as peças no Teatro Municipal Joaquim Benite, a 20€ no Palco Grande da Escola D. António da Costa, a 17€ no Fórum Municipal Romeu Correia e no Cine-Teatro da Academia Almadense e entre 12€ e 30€ no CCB. Saiba aqui mais informações sobre a compra de bilhetes.

Sofia Quintas

Directora e jornalista do Almada Online

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