Memória do 43º Festival de Almada
Entro em Setembro ainda de férias. Lembro-me de suspirar por elas, era o desejo do mar, depois de duas semanas vivenciadas por completo no grande Festival de Teatro de Almada. Estávamos no último dia. Sempre achei que era o tempo certo para o Festival acontecer.
Terminava com La Mouette (A Gaivota), de Anton Tchecov, apresentada no palco grande ao ar livre, pela companhia francesa Théâtre-Studio com encenação de Christian Benedetti. Espectáculo já não sujeito à votação do público nessa última noite, em que no final da representação é precisamente revelado o resultado da votação com a eleição do Espectáculo de Honra. Expectativa…

Passo em revista, por uma ou outra razão, os espectáculos de que mais me lembro. Logo o primeiro. O público amante de Tchecov, no qual me incluo, assistiu à representação de cinco horas de “Platonov”, pela encenação do consagrado encenador alemão Peter Stein para a companhia de teatro italiana Tieffe Teatro di Milano. Mas este desde logo se pressentiu, até pelo numeroso elenco, que não estaria para votação.
O périplo Tchecov seguiu no Festival. A autora de “Ansioliticamente falando”, Raquel Castro, testemunhou a urgência de a partir de “A Gaivota” levar para o teatro as suas inquietações. Creio que Tchecov permitiria esta invasão com um sorriso bom. Não os tinha visto no CCB/2025, em boa hora agora.
Também no Festival, depois de muito ter aplaudido no Teatro Meridional, voltei a ficar esmagada com Happy Days, de Samuel Beckett. É uma criação de Miguel Seabra que há muito desejava Mónica Garnel para ser Winnie, a que juntou Emanuel Arada no Willie – ainda guardo a voz dela e a sua microexpressão no monólogo sublime. Nomeada, aliás, Melhor Actriz Teatro/Globos de Ouro XXX.
E como não lembrar “Só mais uma Gaivota”, de Inês Barahona & Miguel Fragata, com interpretação a solo notável deste. Dupla criativa que cerziu o mais belo e delicado tecido de cruzamento entre as personagens e o sentido de “A Gaivota” de Tchecov, com todos os colegas que há 20 anos a apresentaram no seu final de curso de teatro. Quais gaivotas empalhadas no tão simbólico cenário de F. Ribeiro e figurino branco de José António Tenente para o jovem dramaturgo Treplev onde tudo se inscreve, da inquietação à angústia. Espectáculo da “Formiga Atómica” a merecer continuar a ser visto. E mais ainda também nomeado Melhor Peça de Teatro/ Globos de Ouro XXX.

Também “Saudações”, a partir de três peças de lonesco, pela Cta Teatro, com a encenação de Álvaro Correia, em que o cenário é também protagonista junto a um coeso grupo de cinco intérpretes no mais absurdo dos mundos, “ionescamente bem”. Estará de volta na programação da companhia.
Já “O Beijo no Asfalto”, de Nelson Rodrigues (1912-1980), o dramaturgo mais aclamado do Brasil, amado por muitos e detestado por outros, tal como na recepção do espectáculo. Falava-se nos circuitos do Festival que poderia ser o mais votado. Por mim, preferia tê-lo visto a preto e branco e numa estética com menos ruído, não nos bastasse o poder da descrição do autor a revelar-nos que o preconceito pode destruir um mero acto de humanismo – homem que beija outro atropelado, segundos antes de morrer. Tonan Quito, chamado pelo TNSJ a encenar, com actrizes e actores residentes em Portugal, sustenta o ritmo do escândalo, da denúncia, da suspeita, sem alguma vez os deixar cair.
E eis que chego ao espectáculo vencedor. Quem o viu na noite de 16 ao ar livre, no grande palco da Escola D. António da Costa, percebeu que “El Rey de La Farándula” seria o Espectáculo de Honra 2026 pela apoteose final que é o próprio espectáculo de louvor aos artistas! Ángel Ruiz, que, em 2021, venceu o prémio de Espectáculo de Honra com “Miguel de Molina al desnudo”, serviu-nos agora, em palavras suas, um refrescante “gaspacho dramático”, espécie de cabaré do “siglo d’oro“, vestindo a personagem de amante, confidente e espião de Filipe IV de Espanha – Filipe III de Portugal. Em estética andrógina, provoca, satiriza e também emociona com o pianista Bruno Ferri, na interpretação de canções barrocas (Monteverdi e outros), como de temas contemporâneos.
Por contraste, “Le Sommet” do Théâtre Vidy-Lausanne, pelo encenador suíço Christoph Marthaler, frio, cáustico e radical. Não uma peça de narrativa tradicional, como tal, a merecer descodificação. Logo reúne numa espécie de “cimeira” seis personagens de nacionalidades e línguas diferentes, hiatos de silêncio por entre desencontros. Uma crescente tensão psicológica acompanhada e reforçada pela música que soa, com inspiração variada, desde os Beatles a Mozart, Schubert e mesmo, se bem me lembro, melodias populares de dois dos seus países, Suíça e Áustria, aí tocadas e entoadas ao encontro de uma eventual comunicação? É Marthaler que diz: «O mundo de hoje multiplicou os isolamentos. Está tão dividido que o sentido se fragmentou. Nesta encenação reconheço algo de uma humanidade que deveria dialogar, mas já não consegue.»

Curiosamente, registo que a peça a estrear em Setembro (17 a 20) na Sala Experimental do TMJB vai ao encontro do mesmo estado actual do Mundo…A partir do texto de “Ájax”, provável que a mais antiga tragédia de Sófocles, colho palavras de Cláudio da Silva, o encenador deste espectáculo: “A era da informação – ou melhor, da descredibilização da informação e das suas fontes – é, hoje, o contexto ideal para o desenvolvimento e a propagação de discursos políticos, medidas sociais, ideologias e actos altamente desumanos, injustos, anti-democráticos e regressivos. Como enfrentar então esta era, este tempo, sem a degradação completa e abismal dos nossos valores civilizacionais?”.
Também em Almada, o Teatro Extremo reabre a programação. Em 20 Setembro com uma peça de Armando Nascimento Rosa “Exílio em Manaus”.
Em nota de rodapé: terei de recuar de novo ao FTA, para ainda dizer que, a meu ver, o espectáculo que mais revolucionou o Palco Grande ao ar livre, no pátio da Escola D. António da Costa, foi a noite com “Burn, Burn, Burn”, uma criação da dupla jovem Catarina Rôlo Salgueiro e Isabel Costa, do colectivo Os Possessos, a partir da obra de Ray Bradbury “Fahrenheit 451”, o que , desde logo, nos dá o foco da brutal queima de livros considerados perigosos e como tal proibitivos, numa sociedade ditatorial. Desde logo, então, pelo tema da Literatura que me é querido, como expressão artística que é, junto ao Teatro. A ideia de um grupo de leitores que se reúne para discutir livros, neste caso, dissecar o de Bradbury, com a publicação em 1953, que sentimos tão actual perante a proliferação do Mundo… e a ideia de que a mais eficaz forma de resistir perante investidas de autoridade na intrusão dos conteúdos é decorá-los, para que na passagem ao Outro o conhecimento não se perca, considero-a genial. Tudo isto servido por excelente grupo de intérpretes numa dinâmica bestial no espaço. Aliás, tinha já visto a peça em espaço fechado, no grande auditório da Culturgest, mas o desafio em espaço aberto, ao ar livre, foi vencido; e a necessidade também de substituição de uma actriz viria a revelar-se sem mácula. De facto, se Beatriz Brás é uma extraordinária actriz não deixou também de ser especial a interpretação de uma outra luminosa actriz, Anna Leppänen, que desconhecia. Enfim, todos honraram o nome de Os Possessos! E o espectáculo está nomeado na categoria de Melhor Peça de Teatro/Globos de Ouro XXX.

E mais ainda dizer que guardarei para outro espaço, longa já vou, o registo de uma semana enriquecedora na Casa da Cerca pela formação de Miguel Seabra em “O Sentido dos Mestres”.
(Maria Emília Castanheira escreve de acordo com a antiga ortografia.)
Almada Online, Crónica, Maria Emília Castanheira, Opinião, Teatro


