Almada Capital da Cultura – sonhar é fácil e faz bem
O resultado mais importante não estará no que acontecer ao longo deste ano, mas sim no que se souber construir (não é obrigatório que seja betão) e que fique para depois.
Depois da falta de água no início do Verão (que tinha sucedido à destruição das tempestades de inverno), a notícia, cá no burgo, é a candidatura de Almada a Capital da Cultura. A concorrência é forte, Loulé, Guarda, Leiria, Óbidos, Setúbal e Amarante, mas há forças e fraquezas, em Almada e nas outras candidaturas, em que vale a pena pensar.
Vejamos quem são as outras candidaturas, e alguns dos seus aspetos. Óbidos que aposta na literatura, tem uma grande lista de escritores como embaixadores. Setúbal, que organizou um processo de consulta pública real, faz-se representar entre o melhor, Fernando Batista Pereira, historiador de arte que tem trabalhado na cidade, e o pior, Toy. Loulé tem Lídia Jorge e Dino de Santiago, aposta na reabilitação e apresenta-se como candidatura do Algarve, tal como a Guarda se apresenta como a da sua região. Já Amarante, fala em Augustina e Sousa Cardoso e apresenta a candidatura como um laboratório de transformação cultural, social e territorial, com projeção no Tâmega e Sousa, em Portugal e na Europa. Leiria tem a vantagem de ter sido já candidata para 2027, e apresenta como trunfo o muito importante achado arqueológico do “Menino do Lapedo”. Neste momento, Setúbal e Óbidos parecem as melhor estruturadas.
Há algumas iniciativas a que concorrentes se propõem, e em que vale a pena pensar. Reabilitação de património, renovação e ampliação de bibliotecas criação de instituições culturais. Há, de qualquer forma, em todas, a intenção de envolver as comunidades e de ter algo que permaneça.
Creio que o resultado mais importante não estará no que acontecer ao longo deste ano, mas sim no que se souber construir (não é obrigatório que seja betão) e que fique para depois. Isso pode querer dizer, que ganhando ou não, se ganha sempre.
O que se pode ganhar não são novos blocos de betão, a centralização de burocracias, ou coisas que durem um ano, mas sim uma melhor vivência urbana com melhor espaço público, maior atenção ao património e à cultura. O que se pode ganhar é melhor cidade, com mais cultura, para isso é preciso pensar, coisa que, por aqui, tem acontecido pouco.
Candidaturas como Setúbal ou Guarda conseguem raízes fortes no passado, e disso têm vestígios importantes. O Convento de Jesus e a Sé da Guarda, são monumentos nacionais e peças bem conhecidas do património.
Espero que em Almada não se siga o triste exemplo que foi dado ao candidatar o Cristo-Rei às sete maravilhas de Portugal. Seria antes um candidato ao maior mamarracho, e não falemos de uma simbologia política que o liga a Salazar, Cerejeira e ao Estado Novo.
Pouca gente conhece, está completamente abandonado e inacessível, mas Almada tem um monumento nacional que pode ser um argumento importante: A Torre Velha, ou Torre de S. Sebastião, irmã mais velha da Torre de Belém. Começar a fazer alguma coisa em relação a este património tão valioso seria sempre uma vitória. A recuperação da “Moagem do Gomes”, do Forte/Castelo de Almada, e um centro de interpretação da Batalha da Cova da Piedade podiam/deviam ser peças importantes nesta candidatura.
O recente chumbo, por algumas forças políticas, à reabilitação do “Palácio do Gomes”, que é propriedade da CMA há décadas, não é o melhor indicador. O mesmo se pode dizer dos mais de 20 milhões para centralizar burocracia, ou da entrega (aprovada, mas não concretizada) da “Escola do Gomes” a uma associação desconhecida no concelho.
Uma grande figura da cultura portuguesa nasceu em Almada, mais precisamente no Ginjal, Columbano Bordalo Pinheiro, foi um dos maiores pintores oitocentistas. Está de tal forma esquecido que até mudaram o nome da escola que tinha o seu nome e demoliram a casa em que nasceu no Ginjal. Exposições, publicações, propostas aos artistas locais ou não, é possível fazer muito.
A escolha de embaixadores, parece mostrar uma aposta na “Capital do Rock”, e em “culturas urbanas”, mas é preciso passar é dos pioneiros, ou dos “mid career” para algo que seja mesmo inovador. Não precisamos de festivais mainstream, como o “Sol da Caparica”, mas de iniciativas que possam envolver as escolas, as comunidades, em especial as mais desfavorecidas. A escolha de celebridades televisivas é partilhada com outras candidaturas, mas podia ter sido melhor.
Almada tem argumentos importantes, o Festival de Teatro tem uma projeção nacional importante, a Casa da Cerca tem ganho o seu lugar no panorama das artes plásticas e como recurso educativo, há dezenas de coletividades, algumas centenárias, em que se faz música, teatro, artes plásticas. Há espaços subaproveitados, Capuchos, Zagallos, átrio do Fórum Romeu Correia, Sala Grande da Academia Almadense, Igreja de S. Tiago. Outros espaços permitiriam realizações excecionais, Lisnave, Silos, Presidio da Trafaria, instalações militares abandonadas, algumas podiam partir destas realizações para uma reabilitação.
Almada também tem uma história única que vai de uma fundação pelos fenícios a ter sido decisiva no cerco de Lisboa em 1384 e na vitória liberal de 1834. Também tem uma muito interessante história de industrialização e de movimentos laborais, que vêm do século XIX, passam pela resistência à ditadura e continuam depois do 25 de abril. Na Costa da Caparica continua ativa a forma de pesca tradicional que também é uma manifestação cultural. Na Trafaria algumas casas mostram os restos do que foi a estância balnear de 1900.
Évora que vai ser a capital da cultura 2027 está a aproveitar para reabilitar alguns locais, Almada que hoje apresenta sinais de desleixo, no estado do espaço urbano, e na higiene, podia (devia) aproveitar para tratar disso. Não creio que alguém leve a sério a candidatura de uma cidade que junto a cada contentor tem uma pilha de lixo.
Almada tem, também, uma relação estranha com os seus agentes culturais. Há pessoas e instituições, às vezes medíocres, que são enormemente apaparicadas, há outras que são claramente indesejadas e em relação às quais o objetivo parece ser a extinção. Quer no tempo em que a CDU tentava fazer de Almada a sua montra cultural, quer com a gestão de Inês de Medeiros, que inicialmente queria destruir tudo e depois passou a trazer os amigos (que não costumam aquecer lugar), tem-se apostado na menorização cultural do concelho. O encerramento do Museu da Música Filarmónica e o limbo em que está o Museu Naval, são exemplos disso.
A orla marítima é muito aproveitada, mas a ligação ao rio é algo em que Almada falha há muitos anos e reparte-se entre restos da indústria e pouco mais. A Piedade até tem uma pequena praia, e por muito que se faça não a recomendaria para banhos, mas torná-la num espaço praticável não é assim tão difícil.
Muito pior do que as freguesias centrais, estão as da periferia, a “outra cidade” do Concelho não tem uma biblioteca, um espaço de exposições, um auditório público. O espaço municipal dedicado a questões ambientais, parece abandonado e está degradado.
Há outras situações ridículas. Até há menos de três décadas, Almada não tinha caminho de ferro. As linhas urbanas têm tido um percurso atribulado, mas com as interurbanas é pior. O Alfa passa em Almada, na ligação Porto-Faro, mas não se digna a parar. Fica-se em Entrecampos e apanha-se o da Fertagus. Chegar ao Oriente ou a Stª Apolónia só se consegue com vários transportes. A Fertagus fica-se por Roma-Areeiro. Lembro que já foi possível ir diretamente do Pragal para o Porto.
Esta “menoridade ferroviária” de Almada que, lembremos é um dos dez maiores concelhos do país, e se fosse capital de distrito seria a quarta mais populosa, tendo mais população do que alguns distritos, é incompreensível e injustificável. Mesmo sem candidatura a capital da cultura devia ser motivo para grandes protestos e ações de força por parte do Município, mas nada, é um não assunto.
É curioso, mas mau, e passa por todas as candidaturas a ausência das escolas como sujeito e, diria eu, alvo principal de uma capital da cultura. Creio que isso acabará por ser resolvido, qualquer que seja a vencedora, mas devia estar alto em qualquer lista de prioridades.
Monetariamente, a capital da cultura rende um milhão de euros, é pouco para o que é necessário gastar, é um pouco que mostra o que é a falta de importância dada à cultura em Portugal. É um quarto do vencimento anual do selecionador de futebol, coisa muito mais importante para o país.
Almada partiu tarde e sem debate, aliás o não debater é marca desta autarquia, não é até ao prazo de apresentação de candidaturas que esse debate se vai fazer, é pena. Ser capital da cultura seria bom para Almada, mas, por que razão condicionar o que é preciso ser feito à vitória da candidatura?
O que for preciso fazer, deve ser feito, é simples.
Almada Online, Crónica, história contemporânea, Nuno Pinheiro, Opinião


