Não sei por que vos quero falar do silêncio, mas quero
O silêncio também é possível, também é bom, virtuoso e vivenciado
A apoteose do silêncio, como diz Peter Brook, no que foi o seu primeiro livro sobre teatro: “O Espaço Vazio”, publicado em 1968. Lembra ele que nos esquecemos de que existem duas apoteoses possíveis para uma experiência teatral, a apoteose da celebração, em que participamos com “bravos” e palmas ruidosas, mas também pelo silêncio, tão esquecido; sim, a apoteose do silêncio, modo diferente de agradecer e apreciar. Levantamo-nos, batemos palmas, levados pela onda de aplausos, quantas vezes sem que aconteça uma respiração final no palco. E em nós mesmos, como público, enfim, sem tomarmos consciência de que o silêncio também é possível, também é bom, virtuoso e vivenciado.

Pode dizer tanto, na verdade, o silêncio. Em três versos orientais tanto que podemos intuir, nele e sobre ele:
no ir e vir da
alma, o silêncio
toca a rocha
É um haiku de Carlos Semedo, in “Afundar Raízes no Azul”, edição Alma Azul.
E ainda outros, que, ora, transcrevo:
olho o vento
tateio o aroma
vejo o silêncio;
Silêncio
uma giesta branca enlaça
o amarelo;
Silencia-te
apaga esse temor
escuta a pedra

Como actriz, ao lê-los, apetece-me pensar como é que neles se habita o espaço entre as palavras. Há-de ser um exercício de interiorização, obriga a escuta, neste caso, de nós próprios. Peter Brook, noutro seu livro, “Tocando de ouvido”, edições Sesc São Paulo, lembra um grande criador da Dança, Merce Cunningham, que fez com o seu grupo de bailarinos uma experiência de “bailado silencioso”. E comenta o efeito mágico “fazer com que nós público nos tornássemos mais afinados uns com os outros. Era o Zen na dança.”
A força motora do silêncio, hoje, contra o Horror do ruído do mundo.
Ah apetece citar Natália Correia no mais belo soneto “Credo (…)
Creio no incrível, nas coisas assombrosas
Na ocupação do Mundo pelas rosas
Creio que o amor tem asas de ouro. Amén”
Também em plena Formação “O que fazemos nós aqui?” de O Sentido dos Mestres, com Miguel Seabra (actor, encenador, desenhador de luz, director do Teatro Meridional, com Natália Luiza), leio agora uma breve citação do segundo verso desta última estrofe do soneto de Natália, no meu caderno de apontamentos das cinco sessões (de 13 a 17 de Julho) na Casa da Cerca, em Almada, que decorreram no âmbito do Festival de Teatro. E no correr das notas, a chamada de atenção para a percepção sensorial da escuta. Ouvir, tal como Olhar e Ver.
Mais: a atenção é um músculo! Muscular o corpo, a voz. Também o afecto pode ser musculado. De olhos fechados: a vibração do actor não engana.
Dar significado à respiração. Convocar a vontade, aquecê-la! A transparência da nossa sinceridade. Quem somos nós!

Na pergunta que Miguel Seabra nos dirigiu “Qual o primeiro gesto da manhã?” recordo ainda algumas respostas de colegas. E a minha: Levantei a cabeça, para ver as horas. Mas, de seguida, Miguel perguntou: Tinhas o relógio à tua frente? Não (respondi). “Atenção, então, ao movimento!”. Percebi e corrigi: Ergui o tronco e virei a cabeça para a direita, para ver as horas.
Ocorre-me muitas vezes lembrar este exercício da consciência do despertar, a atenção e a precisão. Um dia destes escrevi mentalmente e procuro agora passar para o “papel”
MANHÃ
Quando estico
no lençol
encaixo
enrolo e colo
Corpo de baile
num primeiro gesto
da manhã
Obrigada, Mestre, pela generosidade da partilha que nos enriqueceu.
Sei que o digo em coro, foi grande o rastilho de cumplicidade que nos deixaste. E no próximo Dia Mundial do Teatro, 27 de Março de 2027, lá estaremos no TMJB, em alegrias de reencontro, para a sessão de lançamento do teu livro na Colecção O Sentido dos Mestres.
Maria Emília Castanheira escreve de acordo com a antiga ortografia.
Almada Online, Crónica, Maria Emília Castanheira, Opinião, Teatro

