Ação Cooperativista denuncia concurso “Cantar Abril 2024”

Grupo informal de apoio aos profissionais da cultura considera concurso da CMA e de O Gerador uma "exploração do trabalho dos artistas"

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Na tarde de Segunda-Feira 26 de Fevereiro, o grupo informal de apoio aos profissionais da cultura Ação Cooperativista difundiu um manifesto onde denuncia o concurso “Cantar Abril 2024“, cujas candidaturas terminam na próxima Quinta-Feira, considerando que é uma “afronta à dignidade dos artistas”.

Num texto intitulado “Manifesto Contra a Exploração de Artistas no Festival ‘Cantar Abril 2024′”, o grupo declara que “vem denunciar a perversidade de um concurso lançado para a criação de projetos artísticos em comemoração do 25 de abril, um marco histórico que simboliza a conquista da liberdade e da democracia em Portugal, e o respeito pelo valor do trabalho e a sua consequente justa remuneração”.

A Ação Cooperativista defende que “a ironia deste concurso reside na contradição flagrante entre os valores proclamados pelo 25 de abril e a prática exploratória imposta a artistas que se propõem a participar nele”, e que “o anúncio do concurso, uma iniciativa da Câmara Municipal de Almada [CMA] em parceria com o Gerador, revela-se como uma afronta à dignidade de artistas, configurando-se antes uma prática de exploração do seu trabalho.”, onde se oferece “a ilusão de oportunidade e de visibilidade, quando na verdade, a exploração é camuflada nas entrelinhas do regulamento.”

O grupo defende que os “artistas, ao dedicarem tempo, esforço e criatividade na produção e consequente mobilização para apresentação de obras, para além de suportarem com as despesas associadas, vêem-se reféns de um sistema que remunera o seu trabalho apenas se o seu projeto for o vencedor escolhido por um júri, neste concurso específico composto por 2 artistas de cada área, 8 artistas no total.”

“Esta prática é uma ofensa à essência do 25 de abril, que defende a liberdade e a justiça para todas as pessoas, não compatível com a exploração do trabalho gratuito, seja nas artes ou em qualquer outra profissão. Este concurso perpetua uma estrutura de injustiça, na qual apenas algumas pessoas são recompensadas financeiramente, enquanto outras são deixadas à margem, com as suas
contribuições artísticas desvalorizadas.”, pode ler-se no manifesto.

“O Gerador, uma plataforma portuguesa independente de jornalismo, cultura e educação, que se propõe a ser um veículo de expressão cultural, defensora de boas práticas e justiça social, não pode ignorar a flagrante contradição entre os seus princípios declarados e a realidade deste concurso ao estilo
‘Got Talent’. Ao promover um festival concursal onde apenas os projetos vencedores são remunerados, o Gerador compromete a sua credibilidade e contribui para a perpetuação da exploração no mundo das artes.”, critica o colectivo.

O manifesto defende ainda que “O respeito por artistas é fundamental para a construção de uma sociedade que valoriza a liberdade e a expressão artística, e este concurso, tal como está estruturado, ignora esses princípios e valores fundamentais.”

Assim, a Ação Cooperativista apela aos organizadores do concurso e aos “artistas e representantes da SPA, da GDA e do Gerador que fazem parte do júri deste concurso, a repensarem as suas práticas, alinhando-as verdadeiramente com os valores democráticos e justos que o 25 de abril representa.”

Questionados pela agência Lusa sobre este manifesto, a Câmara Municipal de Almada e O Gerador, explicam que “este é um evento que permite a muitos novos autores, artistas e projetos serem apresentados, muitas vezes pela primeira vez recebendo um valor de representação, numa lógica de democratização da cultura, algo que está fortemente ligado aos valores de Abril”.

Por outro lado, explica a autarquia de Almada, “todos os autores, com excepção dos vencedores, têm acesso a um valor de representação e no dia 15 de Março, todos os autores selecionados receberão um contacto por parte do Gerador onde serão informados deste valor e da disponibilidade da equipa de produção em apoiar os autores noutras necessidades, como no aconselhamento personalizado, ajuda técnica e capacidade de divulgação dos trabalhos individuais.”

Cada autor selecionado terá de apresentar uma performance ao vivo durante 10 minutos numa das três iniciativas agendadas para os dias 13, 20 e 27 de abril. Cada uma das três iniciativas, frisa a Câmara Municipal de Almada, “será complementada com a presença de artistas de referência nacional, que farão a abertura e o fecho de cada evento, garantindo maior projecção e potencial audiência para os seleccionados.”

No manifesto a Ação Cooperativista considera ainda injustificada a disparidade na valorização do trabalho dos vencedores na música, que recebem 2.500 euros, enquanto na dança e na declamação recebem apenas 1.500 euros.

Numa resposta enviada à agência Lusa O Gerador explica que a diferença de valores dos prémios justifica-se, exactamente, porque a centralidade do festival é a música e, a dança e a declamação surgem numa fase experimental. “Vemos esta evolução como algo positivo e esperamos que em edições futuras possamos consolidar estas áreas, com os mesmos prémios e, abrir espaço à experimentação de outras categorias artísticas”, explica.

O Gerador, uma organização sem fins lucrativos, adianta que até à passada Terça-Feira já recebeu mais de 80 candidaturas oriundas de todo o país.

O Festival Cantar Abril é uma iniciativa da Câmara Municipal de Almada, que já vai na sexta edição, contando este ano com o envolvimento da plataforma O Gerador, que contribui para a extensão do festival, alargando-o este ano a outras áreas para além da música.

Sofia Quintas

Directora e jornalista do Almada Online

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