Almada | Que mau cheiro é este?

Foi a pergunta que os almadenses mais fizeram nos últimos dias. Investigadores tentam identificar origem do odor a "azeitonas"

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O concelho de Almada e a região de Lisboa, registaram nos últimos dias mau cheiro no ar, com “características a acre/azeitonas”, “atípicas para esta localização”, que resulta das condições meteorológicas que se fizeram sentir, inclusive do vento, desconhecendo-se para já qual a origem, segundo uma investigadora da qualidade do ar.

O cheiro foi sentido em Almada, Setúbal, Palmela, Moita, Oeiras, Cascais, Sintra, Mafra, Lisboa, Amadora e, até na Ericeira e Leiria. Nas redes sociais, nas páginas e grupos locais, eram muitos os almadenses, seixalenses e lisboetas que mencionavam o mau cheiro, que se fez sentir mais fortemente durante o fim-de-semana passado. Caracterizavam o cheiro como bagaço de azeite misturado com valvoline. Como hipóteses de origem avançavam o fabrico de cimento da Secil no Outão, o fabrico de papel da Navigator em Setúbal, o armazenamento de cereais da Silopor na Trafaria ou, a actividade da Sovena, antiga Tagol, com a sua refinação de óleos de girassol soja e colza, ou a produção de biodiesel, em Palença de Baixo, no Pragal.

“Temos aqui um conjunto de características meteorológicas que estão a potenciar esta percepção de odores, nomeadamente nesta última semana e mesmo no início de Janeiro, […] que tem características a acre/azeitonas e que, portanto, são de certa forma atípicas para esta localização”, afirmou a investigadora Sofia Teixeira, do departamento de qualidade do ar da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa. (FCT NOVA). Esta é uma situação atípica, uma vez que não é normal que acontecimentos desta natureza se prolonguem por tantos dias e em tantas zonas geográficas diferentes.

Em declarações à agência Lusa, a investigadora apontou como características meteorológicas o registo de ventos oriundos do quadrante sul sudeste, com “uma inversão térmica muito baixa, que faz com que os próprios gases fiquem aprisionados numa camada mais baixa da atmosfera” e que se possa percepcionar ainda mais os odores.

Além disso, verifica-se “uma intensidade de vento moderada, que tem vindo a promover a dispersão das massas de ar para localizações mais afastadas”, indicou Sofia Teixeira, referindo que o conjunto destas características meteorológicas “faz com que numa região mais alargada, incluindo, por exemplo, Sintra, Almada e Sesimbra, seja detectado em simultâneo este tipo de odor a acre/azeitonas.”

Sobre a existência de uma massa de ar proveniente dos desertos do Norte de África, que transporta poeiras em suspensão, que está prevista atravessar Portugal continental, a 29 e 30 de Janeiro e, que levou a Direção-Geral da Saúde (DGS) a recomendar à população em geral que evitasse esforços prolongados e actividades físicas ao ar livre e aos idosos e crianças que ficassem em casa, a investigadora explicou que esta percepção de odores “nada tem a ver” com essas partículas.

Questionada sobre a origem deste mau cheiro que se faz sentir na região de Lisboa e Vale do Tejo, a investigadora disse que “poderá ser transversal a diversos sectores de actividade, mas os mais comuns poderão ser a indústria do processamento do bagaço de azeitona ou até mesmo o processamento de resíduos”.

Relativamente a possibilidade de o cheiro ser proveniente de um aterro, o que se sabe é que quando se trata de resíduos a dispersão dos odores “é muito mais centrada numa determinada localização e não tão dispersa na região inteira de Lisboa e Vale do Tejo”.

“Portanto, o mais provável é que [o odor] possa estar relacionado com uma fonte fixa e, que depois, aliada a estas condições meteorológicas muito particulares possa promover esta detecção nestes vários locais em simultâneo”, acrescentou Sofia Teixeira.

Os investigadores da qualidade do ar estão a tentar identificar quais os processos que deram origem a este tipo de odor e quais é que são as actividades que fazem parte da fonte emissora que está a contribuir para a percepção de mau cheiro.

“Suspeitamos, ainda sem grandes certezas, que possa ser uma fonte emissora oriunda de uma localização mais a sul da região de Lisboa e Vale do Tejo, portanto o Alentejo poderá ser uma hipótese”, revelou a investigadora.

“É estranhíssimo, quase impossível, que venha de Ferreira do Alentejo. Estamos a falar de mais de 100 quilómetros de distância”, explica Francisco Ferreira, presidente da ZERO, em declarações à SIC , sobre uma das primeiras hipóteses avançadas sobre a origem do mau cheiro.

A identificação das fontes emissoras vai permitir perceber o que é que pode ser feito para minimizar os impactos da dispersão dos odores, ainda que em Portugal não existam normativos legais para se proceder em casos como este, ressalvou.

“O que estamos a fazer é mapear as localizações que têm vindo a surgir dos cidadãos, que têm vindo a queixar-se, por exemplo, através das redes sociais, e depois mais para a frente, tentarmos identificar duas ou três possíveis fontes emissoras e dirigirmo-nos ao terreno e avaliar a situação”, referiu.

A Agência Portuguesa do Ambiente (APA) emitiu um esclarecimento sobre a qualidade do ar onde pode ler-se que “Portugal está sob a influência de grande estabilidade atmosférica, com fraca dispersão desde dia 26 de Janeiro.” A APA acrescenta ainda que, “no que respeita aos odores, estes não são regulamentados ou monitorizados na rede nacional de qualidade do ar ou a nível comunitário. Quando a estabilidade é grande, a concentração de odores pode aumentar e ter várias origens, resultando difícil a identificação das suas fontes.”

Relativamente às consequências deste tipo de odores, Sofia Teixeira disse que “não têm impactos directos na saúde humana, têm é os impactos provocados pela incomodidade da percepção do tipo de odor” e pelos constrangimentos para fazer algumas actividades, por exemplo, abrir a janela de casa ou conseguir respirar um ar que não seja com este cheiro.

Segundo as previsões meteorológicas, o odor deve ficar menos intenso na Terça-Feira, 30 de Janeiro.

Sofia Quintas

Directora e jornalista do Almada Online

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