Dia Internacional das Pessoas Ciganas

Almada celebra com actividades simbólicas

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A 8 de Abril celebra-se o Dia Internacional das Pessoas Ciganas, sendo esta uma ocasião certa para reconhecer e valorizar a rica herança cultural e histórica, da comunidade cigana em todo o mundo

A Câmara Municipal de Almada (CMA) tem programadas algumas actividades que visam promover a consciencialização e o entendimento acerca das comunidades ciganas, contribuindo para a construção de uma sociedade mais inclusiva e acolhedora.

Assim, a partir das 15h, na Sala Pablo Neruda da Biblioteca Central, poderá ouvir poesia sobre ser cigano e, a partir das 16h, conversar com pessoas desta etnia no “Círculo de Conversas sobre a Comunidade Cigana”, contribuindo para a desconstrução de preconceitos e promoção da cultura cigana. Em simultâneo, haverá projecção de imagens alusivas a esta temática. Às 17h30 haverá um momento cultural promovido pela Associação Kalé Heritage. A celebração deste dia culmina com o hastear da bandeira cigana, ao som do hino da etnia. A entrada é livre.

A data é uma ocasião simbólica, para honrar e apreciar as marcas culturais e históricas do povo cigano à escala global. É também uma oportunidade para reforçar a importância da inclusão, do respeito mútuo e da promoção da igualdade entre todos os indivíduos.

Veja aqui a programação completa da celebração deste dia.

Um pouco de História

A escolha da data 8 de Abril como Dia Internacional das Pessoas Ciganas, foi feita durante o 1º Congresso Mundial Romani (1st World Romani Congress / WRC), realizado em Londres, em 8 de Abril de 1971. Este congresso foi um marco no processo de internacionalização dos movimentos sociais romani, quando foram lançadas as bases para a fundação da União Internacional Romani (International Romani Union / IRU) em 1978, a mais importante organização transnacional romani até meados da década de 1990 e, activa até hoje.

A realização do 1º Congresso Mundial Romani foi o resultado da internacionalização dos debates sobre questões políticas e sociais relacionadas com os povos conhecidos como ciganos. Essas discussões foram encabeçadas por parte de uma elite intelectual, socializada e formalmente educada dentro dos grupos maioritários dos países onde viviam, mas que se sentiam como integrantes dos povos ciganos.

Calcula-se que pessoas de 14 países estiveram presentes neste congresso, cujo objectivo foi a discussão de problemas enfrentados quotidianamente pelas populações ciganas em todo o mundo, estratégias e desafios a serem enfrentados por essas comunidades e, promover a inclusão dos membros da comunidade cigana na sociedade, dando a conhecer a sua cultura e história.

No campo simbólico, três decisões importantes foram tomadas nesse congresso: a adopção de uma bandeira para representar a população romani; a escolha de um hino, Gelem, Gelem (Djelem Djelem, em português “Andei, andei”) e; a decisão de que a palavra mais adequada para representar as populações conhecidas como ciganas seria roma (singular rom, adjectivo romani), que significa homem ou marido em língua romani.

A escolha da palavra roma surgiu para evitar as conotações pejorativas associadas à palavra cigano, gypsy e sinónimos. As comunidades portuguesas identificam-se como ciganas e mantiveram esta designação a todos os níveis.

©Shutterstock / Vida, paz e mãe natureza, são alguns dos elementos presentes na bandeira cigana.

A bandeira cigana

A bandeira foi instituída como símbolo internacional de todos os ciganos do mundo no ano de 1971, pela Internacional Gypsy Committee no 1º Congresso Mundial Romani, realizado em Londres.

A roda vermelha no centro da bandeira simboliza a vida, representa o caminho a percorrer e o já percorrido, as estradas percorridas em cima das carroças. É uma roda de carroça, em que a disposição em 16 aros representa os 16 principais clãs ciganos, a Sansara ou Roda Indiana, ligada ao ciclo de existências que antecedem a libertação da alma. Simboliza também a tradição, como um contínuo eterno, que se sobrepõe ao azul e ao verde, com os seus aros representando a força do fogo, da transformação e do movimento.

O azul representa os valores espirituais, a paz, a ligação do consciente com os mundos superiores, significando libertação e liberdade.

O verde representa a Mãe Natureza, a terra, o mundo orgânico, a força da luz do crescimento vinculado com as matas, com os caminhos desbravados e abertos pelos ciganos. Representa o sentimento de gratidão e respeito pela terra, de preservação da natureza pelo que ela nos oferece, proporcionando a sobrevivência do homem e a obrigação de ser respeitada pelo homem, que dela retira os seus suprimentos, devendo mantê-la e defendê-la.

O hino cigano

No mesmo congresso Jarko Janovic, um cigano jugoslavo, compôs o Hino Internacional Cigano, Djelém, Djelém, que narra o sofrimento dos ciganos nos campos de concentração nazi durante a II Guerra Mundial. O hino descreve este momento e a capacidade dos ciganos erguerem a cabeça e não se deixarem abater facilmente, voltando para as estradas da vida e seguindo seus caminhos. 

Letra de Djelem, Djelem (Opré Romá) – Andei, Andei (Levantem-se Rom)

Andei, andei por longas estradas,
E encontrei os de sorte.
Ai ciganos, de onde vocês vêm
Com suas tendas e crianças famintas?
Oh, velhos ciganos,
Oh, jovens ciganos.
Eu também tive uma grande família,
Mas a Legião Negra a exterminou;

Homens e mulheres foram mortos
E também crianças pequenas
Ai velhos ciganos, ai jovens ciganos
Abra Senhor, as portas escuras
para que eu possa ver onde está minha gente

Voltarei a percorrer os caminhos e
Andarei com os ciganos de sorte
Ai velhos ciganos, ai jovens ciganos

É hora, levantemo-nos,
É chegado o momento de agir.

Venham comigo ciganos do mundo
Ai velhos ciganos, ai jovens ciganos.

Sofia Quintas

Directora e jornalista do Almada Online

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