Linaria almadensis, a planta que só existe em Almada

Descoberta feita por João Farmilhão, investigador de Coimbra

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Identificada por João Farminhão, investigador do Centro de Ecologia Funcional (CEF) da Universidade de Coimbra (UC), a Linaria almadensis cresce há cerca de três séculos no gargalo do Tejo, entre o Cristo-Rei e a Trafaria. É a 198ª espécie de linária descrita em todo o mundo, mas tem uma particularidade: é um ex-libris almadense.

Em Abril de 2022, Farminhão estava no herbário do Instituto Superior de Agronomia (ISA) da Universidade de Lisboa (UL), a rever colecções de plantas acumuladas durante 250 anos, quando a linaria almadensis lhe chamou a atenção, por não corresponder a nada que conhecesse.

O exemplar tinha sido colhido em Porto Brandão por Pedro Arsénio, do Instituto Superior de Agronomia, em 2019. Em Março do ano passado, João Farmilhão não encontrou a planta em Porto Brandão, devido a um grande aluimento de terras que fez perder esse núcleo, mas foi encontrá-la na arriba por baixo do Cristo-Rei, a 31 desse mês.

A sua especificidade regional, os núcleos em arribas arenosas, na proximidade de rochas calcárias, bem como as folhas elípticas e a coloração única das pétalas permitem distinguir a planta almadense. As suas pétalas separam-se entre um amarelo-pálido e um amarelo vivo, o palato é amarelo-alaranjado, e tem uns raios violeta no tubo de néctar.

©João Farminhão / O habitat da Linaria almadensis necessita de medidas urgentes de conservação, segundo Farmilhão.

Farmilhão descreveu-a na revista científica de botânica Botany Letters, no âmbito de uma revisão taxonómica. “É a planta mais almadense à face da Terra”, declarou o investigador em entrevista ao Público, cujo avô almadense o ajudou a subir a arriba a 1 de Abril, dia dos seus anos, para colher um exemplar da sua descoberta.

O primeiro exemplar recolhido da Linaria almadensis de que há registo, data de 1843, pelo botânico austro-húngaro Friedrich Martin Josef Welwitsch. Actualmente, apenas se conhecem poucas dezenas de indivíduos desta nova espécie, que entra assim directamente para a categoria de planta Criticamente em Perigo, o nível de ameaça de extinção mais grave, segundo os critérios da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN).  

Para a Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), a descoberta demonstra o nível de desconhecimento sobre a biodiversidade portuguesa, mesmo em grupos relativamente bem conhecidos, como são as plantas vasculares, e mesmo em lugares tão próximos dos centros de conhecimento, como as arribas ribeirinhas de Almada.

Sofia Quintas

Directora e jornalista do Almada Online

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