Mulheres corticeiras
Cresci a ouvir músicas que contavam a história daquela ceifeira alentejana chamada Catarina Eufémia.
“…desde os anos 30 até ao 25 de abril de 1974, elas [as mulheres] não baixaram os braços. […] Para aqui chegar, muitas outras vieram antes de nós e outras virão a seguir”.
in “Mulheres e Resistência”, Folha de Sala da exposição no Museu do Aljube, Rita Rato, 2024
Queria aqui contar uma história pessoal. Quando andava na 3ª classe, na escola primária nº 1 do Feijó, ganhei um prémio a nível regional, num concurso de desenho com o tema “O 25 de Abril”. O meu desenho centrava-se na cena da morte da Catarina Eufémia, que se tornou uma mártir e símbolo de resistência e da Reforma Agrária. Para uma criança, foi como um ícone do 25 de Abril, e uma representante da resistência das mulheres contra a ditadura e o fascismo.
O meu pai foi operário da construção civil e comunista convicto. Cresci a ouvir músicas, que contavam a história daquela ceifeira alentejana chamada Catarina Eufémia. Os meus pais eram naturais de Beja, e a caminho da terra para visitar a família, já tínhamos passado de carro por Baleizão e visto num largo a escultura que representa aquela ceifeira. O meu desenho era fruto do meu capital simbólico e do imaginário à volta daquela figura feminina. Mostrava um militar (que mais tarde soube ser um GNR) a disparar contra uma mulher de lenço na cabeça e grávida. A paisagem era amarela da seara manchada de vermelho sangue.
Lembrei-me hoje do meu desenho infantil, que me rendeu 500 escudos, quando me enviaram uma imagem pelo WhatsApp e perguntaram se conhecia a obra de arte urbana de Beja1, da autoria da artista Ana Rodrigues, com a Catarina Eufémia como um símbolo de resistência das mulheres. Ainda não a vi, mas conto conhecê-la in loco na próxima ida aquela cidade, onde vou visitar a família.

Vem isto a propósito da questão das mulheres na resistência. Houve tempos e contextos em que, a homens e mulheres, nada mais restava senão resistir.. E isso ficou-me no ADN. Obviamente, quem nunca sentiu injustiças e desigualdades nunca sentiu necessidade de resistir.
Quando neste Verão se tornou viral a notícia sobre um pequeno grupo de mulheres que se reuniu em Sintra, e que se intitulavam de conservadoras, caiu o Carmo e a Trindade. O fait divers da silly season teve muita visibilidade na comunicação social, aliado ao facto do algoritmo das redes sociais se alimentar de ruído, de ódio e das polémicas, como um cancro que se alimenta de hormonas. Mulheres conservadoras, assim como progressistas e resistentes sempre existiram.
Este era um grupo de oito ou nove mulheres portuguesas e brasileiras, manietadas por um líder masculino de uma seita religiosa e por um partido com líder masculino. Inicialmente deixei-me contaminar, e respondi a um ou dois comentários, até que me lembrei do livro de Filipe Neto “Como combater o ódio”, onde refere que a melhor forma é não alimentar o algoritmo. Sempre existiram pessoas conservadoras e progressistas, ponto final. Que algumas queiram ser ultraconservadoras e regressar aos anos 50 do século passado, é com essas pessoas.
Lembremos as mulheres que resistiram e lutaram, para que agora este grupo tenha essa liberdade. Eram tempos em que faltava o pão na mesa, as estradas e a canalização. As trabalhadoras rurais do Alentejo tiveram de unir-se e resistir, por ganharem menos do que os homens, lutaram pelo direito ao salário e ao trabalho..
Daí sigo para o título desta crónica, mulheres conrticeiras. Quero destacar duas mulheres trabalhadoras de Almada, que viveram tempos difíceis no trabalho operário e sem condições que a indústria conserveira proporcionava a jovens e adultas, por vezes mães e filhas, no território e na memória do Ginjal. Uma é a Maria Generosa Cruz, que nasceu nos anos 20 do século passado.
“Tinha treze anos quando foi trabalhar para a fábrica Rankin & Sons, fundada em Silves em 1913, que mais tarde se transferiu para Almada, onde a indústria feminina concentrou o maior número de mão de obra. Fez-se passar por dezasseis anos num tempo em que não exigiam certidão de nascimento. Foi operária corticeira entre 1930-47. […] Faziam rolhas de todo o tamanho nas máquinas. As mais perigosas eram as máquinas de espaldar, que em princípio deveriam ser manejadas por homens, mas nas quais eram colocadas mulheres, porque ganhavam menos. Havia também uma ou duas máquinas de quadrar, a eletricidade, que também eram manejadas por mulheres. […] Férias só depois de 1940. Ganhava-se 5,50 escudos por dia. Quando apareceram os sindicatos passaram a 7$00-7$50. Quando saiu em 1947, após quase 20 anos, ganhava 19$20 por dia. […] Em 1946, Maria Generosa foi passar o mês de férias à terra. Quando voltou, já não regressou à Ranking, passando a trabalhar na costura. Teve dois filhos.” 2
A outra corticeira que aqui nomeio foi Isaura dos Santos Pereira. “Corticeira na fábrica Rank Brothers & Sons, na Cova da Piedade, e operária conserveira na fábrica La Paloma, no Ginjal, Isaura entrou na história da resistência operária em Almada pela sua ação solidária com os presos políticos e as suas famílias, durante o Estado Novo, visitando-os na cadeia e acolhendo familiares em sua casa nos dias de visita. A atividade antifascista desta operária tem início na década de 1930 e, nos anos 40, participa nas greves e manifestações do setor corticeiro (1943). […] Na noite de 11 de novembro, uma concentração operária arranca na Cova da Piedade com cerca de dois mil trabalhadores que se deslocam para Almada, chegando aos cinco mil no final. […] O corticeiro Cândido Capilé […] é atingido mortalmente e António Pereira, filho mais novo de Isaura dos Santos Pereira, é baleado e preso entre 1961 e 1962, visitando-o regularmente e a outros presos nas cadeias do Aljube, de Caxias e de Peniche. Isaura dos Santos Pereira, representa a luta da classe operária e profissional da cortiça e conservas.” 3
O meu ponto de vista é que estas mulheres poderiam ser até conservadoras nos costumes, mas foram obrigadas a resistir contra as difíceis condições de trabalho, de vida e de dignidade para si, para os filhos e família. Não havia escolha. Não existia o direito à greve, a férias pagas ou creches sociais onde deixar as crianças. Há quem ainda viva hoje com desigualdades sociais, mesmo num estado de direito democrático.
Um grupo pseudopolítico-religioso de mulheres posicionar-se como conservadoras não passa de um fait divers. É um posicionamento que vem de um lugar de fala de privilégio, de mulheres brancas, da classe média, de países ocidentais com acesso ao ensino público, à saúde e à vacinação do SNS, graças à resistência anterior, e às conquistas depois da instauração do regime democrático.
Antes, a mulher não existia enquanto sujeito jurídico. A Constituição de 1976 consagrou o princípio da igualdade e outros direitos fundamentais dos cidadãos. Muito há e haverá por fazer, para que se consiga materializar a igualdade consagrada na lei e para que chegue a todos.
Como refere Rita Rato no livro Mulheres e Resistência, “A independência económica das mulheres é negada por um modelo económico assente na desvalorização e na exploração do trabalho das mulheres. Elas estão na linha da frente dos baixos salários, da precaridade, do subemprego, do desemprego, da pobreza”. Há motivos para que as mulheres se unam e ainda resistam, por independência financeira, por trabalho igual e salário igual, para que tenham reformas iguais às dos homens.
- Mulheres na Resistência – arte urbana, memória e território. Mural para todas as Catarina Eufémia desta vida e outras tantas. De referir que este mural foi homenagem a uma Mulher e não a um partido político. Conceito e pintura Ana Rodrigues ↩︎
- e 3. “49 Mulheres de Almada”, Florbela Barão da Silva e Margarida Pereira-Müller, 2021, págs 92-93 e págs 48-49 ↩︎
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