Dicas financeiras para o Natal
Dezembro costuma ser o mês em que as famílias mais consomem e gastam devido ao Natal. É um ciclo consumista que se repete todos os anos, mas que pode ser transformado se mudarmos de atitude e perspetiva, começando pelos presentes que oferecemos. E se em vez de dinheiro, roupa e acessórios, optassemos por oferecer algo diferente e que estimule a literacia financeira?
Historicamente, dezembro tem sido o mês com os níveis mais elevados de consumo privado, devido às comemorações do Natal e da Passagem de Ano. As famílias fazem compras para os dias 24, 25 e 31 e gastam um montante significativo em presentes para os seus familiares e amigos mais próximos.
Isto é facilmente comprovado se olharmos para um setor de atividade impulsionado pelo consumismo – o comércio – cujo volume de negócios apresenta picos no mês natalício. Como se pode verificar no gráfico abaixo, entre 2005 e 2024 os estabelecimentos comerciais, a grosso e a retalho, venderam em média mais no mês de dezembro do que no resto do ano, incluindo os meses de verão. Este fenómeno é ainda reforçado pelos valores mínimos e máximos, que também são mais elevados:

Na crónica anterior escrevi sobre a importância da literacia financeira para o crescimento económico e o seu impacto nas perspetivas de bem-estar, qualidade de vida e riqueza da população. Constatámos que Portugal é pouco competitivo neste tema, ocupando um dos últimos lugares entre os países europeus, embora os organismos públicos e privados tenham implementado diversos programas nos últimos anos para consciencializar a população sobre as suas atitudes e conhecimento perante o dinheiro.
Porém, não abordámos o papel que as pessoas têm para aumentar o seu conhecimento e o dos que as rodeiam.
Mais importante do que o Estado ou as empresas promoverem a educação financeira, é nós próprios tomarmos essa iniciativa, na forma como nos educamos e educamos os nossos filhos, ou como alertamos familiares e amigos quando têm desejos irracionais de algo que não precisam realisticamente, e existem alternativas mais em conta que cumprem o mesmo objetivo.
Com o apoio dos dados anteriores, podemos afirmar que dezembro é o mês do ano em que a literacia financeira dos portugueses é mais posta à prova, e que costuma chumbar com nota muito negativa. Talvez o nosso contributo individual já seja enorme se simplesmente mudarmos a forma como presenteamos os nossos entes queridos e amigos no Natal.
Se, por exemplo, em vez da D. Maria dar dinheiro ao seu neto como habitualmente (o qual é gasto alguns dias depois), lhe oferecesse o mesmo montante num depósito a prazo, no qual ele não pode mexer durante algum tempo e que rende juros periódicos? Se em vez do Jorge oferecer à sua filha adolescente aqueles ténis de 150 euros, lhe oferecesse um livro prático que ensina técnicas para poupar de forma eficiente, e ainda uns ténis um pouco mais baratos? Se o David oferecesse um curso sobre finanças pessoais ao seu pai que tem 62 anos, e não sabe como vai gerir a sua reforma daqui a uns anos, em vez de lhe dar uma garrafa de vinho como faz habitualmente?
Estes são exemplos que alguns leitores podem considerar ridículos, pois refletem pormenores em que muitos de nós nunca pensámos, mas que se generalizarmos, iriam ter um impacto brutal em todas as gerações. Aqui temos alguns exemplos comuns de presentes de Natal, e suas alternativas que, apesar de disruptivas, poderiam melhorar os níveis de literacia financeira dos nossos familiares e amigos.

Quando pensamos em presentear alguém no Natal, as primeiras coisas em que costumamos pensar, na ausência de algo já pré-definido são, dependendo da pessoa e da respetiva idade, jogos, roupa, dinheiro, vales-oferta em lojas, vouchers de experiências e viagens, perfumes, cosméticos, entre outros. Convido o leitor a trocar estes presentes por outros relacionados com educação ou produtos financeiros.
Educação e conhecimento
Costuma dizer-se que o conhecimento “não tem preço”, pelo que produtos que o estimulam em diferentes áreas têm um impacto mais positivo do que os presentes tradicionais. Os livros podem enquadrar-se também nesses presentes tradicionais e serem igualmente benéficos, visto que hábitos de leitura regulares contribuem sempre para melhorar os níveis de conhecimento, vocabulário, criatividade, concentração, stress, etc.
O contributo positivo dos livros pode ser maior quando abordam a literacia financeira ou até mesmo competências pessoais, técnicas e organizativas. Neste Natal pondere oferecer um livro sobre finanças ou desenvolvimento pessoal, generalista ou focado em alguma competência ou temática específica, que poderá ajudar jovens e séniores a pensar de modo diferente e a tomar melhores decisões. Seguem algumas sugestões baseadas nas minhas próprias escolhas de leitura passadas e cujas abordagens considero enquadrarem-se na maioria das faixas etárias:
-“O Homem Mais Rico da Babilónia” de George S. Clason, contém conselhos sobre finanças pessoais e sobre o conhecimento do funcionamento básico do sistema financeiro, transformando-os em parábolas da Antiga Babilónia. O livro dá dicas fundamentais e intemporais sobre como gerir os nossos rendimentos e gastos de forma disciplinada e ensina a criar mais riqueza, sendo que a sua linguagem simples acompanhada de contexto histórico torna a leitura bastante acessível, adaptando-se a todas as idades. As “cinco leis do ouro” apresentadas merecem especial destaque e podem servir como ponto de partida para quem quiser começar a melhorar rapidamente o seu comportamento face ao dinheiro, fazendo-o crescer de forma consistente na sua carteira: (i) colocar sempre de parte pelo menos 10% dos rendimentos, (ii) encontrar um investimento lucrativo a prazo para a poupança, (iii) procurar auxílio de quem tem conhecimento especializado, (iv) evitar aplicar o dinheiro em soluções não conhecidas ou entendidas e (v) desconfiar das promessas de grandes lucros rápidos.
-“Como Fazer Grandes Coisas” de Bent Flyvbjerg, foca-se na origem do fracasso da maioria dos projetos e porque estes ultrapassam prazos e orçamentos. Identifica os principais enviesamentos que levam os grandes e pequenos gestores a escolherem a opção errada ou a não alcançarem os objetivos pretendidos. Aborda também a importância de fazer um planeamento robusto antes da execução, defendendo que os conceitos “experiência” (buscar a ajuda de quem já esteve envolvido em desafios semelhantes e usar modelos que já foram prévia e corretamente aplicados) e “experimentação” (existência de um histórico extensivo de tentativas-erro), são essenciais para o sucesso de qualquer ideia. O livro utiliza uma linguagem simples e é mais indicado para jovens-adultos e adultos, sobretudo para pessoas que querem começar o seu próprio negócio, e também estudantes (na verdade, esta deveria ser uma leitura obrigatória para todos os alunos de gestão). Defende que as pessoas que não cumprem expetativas nos seus projetos “planeiam rápido e agem devagar”, quando deviam fazer exatamente o contrário, “planear devagar e agir rápido”.
-“O Monge que Vendeu o seu Ferrari” de Robin Sharma, conta a história de um advogado bem-sucedido e prestigiado que, após sobreviver a um ataque cardíaco devido a anos de trabalho e à pressão constante, assim como um estilo de vida pouco saudável, abandona a sua carreira para iniciar uma aventura. Sozinho nos Himalaias, conhece uma vila mítica de monges ancestrais que orientam as suas vidas consoante uma série de rituais e princípios antigos relacionados com humildade, autocontrolo, hábitos consistentes e propósito de vida, que aprende durante a sua estadia e mudam a sua forma de pensar e agir, passando a ter a missão de difundir o conhecimento que aprendeu pelo mundo. Embora bastante filosófico, o livro mostra uma abordagem diferente para enfrentar os problemas da vida1, algo essencial para quem quer tomar as melhores decisões nos momentos mais complicados.
O conhecimento também pode ser oferecido na forma de uma subscrição digital de um jornal, o que seria um presente fora do comum e provavelmente inesperado. Muitos jornais nacionais e internacionais publicam análises e artigos pagos de qualidade sobre política, economia e finanças, abordando as perspetivas de futuro, que a par com os livros pode ajudar amigos e familiares, por exemplo, a tornarem mais eficiente o tempo gasto nos transportes públicos.
Entre os jornais que, na minha opinião, contribuem para uma melhor literacia financeira e compreensão da atualidade económica destacam-se o Jornal Eco, Observador e o Negócios a nível nacional, e o The Economist, a Reuters e o Financial Times a nível internacional.
Produtos financeiros
Começar a encarar os produtos financeiros como presentes pode ser um ponto de viragem para a literacia financeira na sociedade portuguesa, principalmente quando falamos de adolescentes e jovens-adultos, cujas atitudes em relação ao dinheiro ainda podem ser facilmente moldadas.
Muita gente prefere oferecer dinheiro aos seus filhos, netos, sobrinhos e primos, por ser a opção mais fácil e conveniente. Não exige perder tempo e energia à procura do presente ideal e ao mesmo tempo é flexível, pois cada um pode escolher o seu destino, evitando falsas expetativas.
Tem uma limitação, pois muitas vezes acaba por ser gasto de forma compulsiva e irracional, por exemplo nos saldos logo a seguir ao Natal. Oferecer o mesmo montante num produto financeiro reduz essa possibilidade ao não fornecer acesso directo e imediato ao dinheiro, sendo uma base para o presenteado compreender o benefício da rentabilização das poupanças através de um planeamento financeiro a longo prazo, e para que continue o processo autonomamente.
Existem diversos produtos financeiros que podem ser subscritos, sendo que numa primeira fase deve dar-se prioridade a uma rentabilidade segura e com capitalização de juros, por não se saber a tolerância ao risco da pessoa presenteada e o seu entendimento sobre investimentos (sobretudo os menores, que costumam ser quem recebe mais dinheiro no Natal).
Aqui incluo a abertura de contas-poupança, ou depósitos a prazo feitos pelo representante legal do menor no banco, e a compra de certificados de aforro ou do tesouro, títulos muito seguros e representativos de boa parte da dívida pública portuguesa.
Todas estas soluções oferecem uma remuneração periódica relativamente baixa actualmente, pois as taxas de juro de referência não se encontram muito elevadas. Por outro lado, são uma recompensa por apenas se ganhar exposição ao “preço do tempo” e não ao “preço do risco”, conceitos que abordarei em crónicas futuras.
1 Por exemplo, os monges defendiam que a dor é sempre benéfica, porque ajuda o crescimento interior, pelo que não se deve fugir dela, mas sim “abraçá-la”.
Almada Online, Crónica, Economia, Opinião, Tiago Pereira


