Zézinho da Freedom – Zézinho dos Laybacks
Quando imagino pessoas que ficam para sempre ligadas à imagem que temos de um lugar, e quando penso na praia - a minha praia, a Costa - surge-me quase de imediato a imagem do Zézinho Lafuente: alto, esguio, loiríssimo, de sorriso aberto e olhar discreto.
Embora a família viesse de Campolide, a ligação à Costa já vinha de trás. Os avós passavam férias no Pica Galo e, nos anos 60, os pais seguiram-lhes os passos, alugando e depois comprando casa em São João da Caparica. Primeiro apenas durante o verão, depois também aos fins de semana, até que, quando o Zézinho tinha doze anos, a mudança tornou-se definitiva.
Numa família apaixonada pelo mar dificilmente poderia ter sido de outra maneira. O irmão mais velho tinha um barco e passava a vida a pescar. O Zézinho cresceu entre mergulhos, carreirinhas, pescarias intermináveis e dias inteiros de praia com os amigos João Luís Simões Rodrigues e José João Castilho Borges.
O surf apareceu quase sem se dar por isso. Depois da esferovite e das barbatanas, vieram umas placas de contraplacado transformadas em skinboards (quem sabe se não tinham saído da estância de madeiras da Avenida Aresta Branco…). Depois aconteceu o acaso que muda uma vida: um vizinho, o nadador-salvador Carlos Janeiro, apareceu com uma prancha Tiki que um antigo namorado inglês da irmã deixara esquecida.
Para miúdos de dez ou onze anos aquilo era apenas mais um objecto para se atirarem às ondas. Passavam horas a fazer carreirinhas; a prancha foi apenas a evolução natural dessa brincadeira. O mesmo deslizar, mas agora de pé.
Em junho de 1977, Carlos Janeiro apresenta-lhe os irmãos Rocha, nadadores-salvadores da Lisboa Praia (a actual Sol Nascente), vindos da linha do Estoril para trabalhar na época balnear. Nessa altura, o Zézinho acabara de concluir o ciclo preparatório. O pai decide assinalar o momento com um presente que lhe mudaria a vida: compra ao João Rocha uma Freedom. Era a primeira prancha do filho.
Nascia também a primeira alcunha: “Zézinho da Freedom”.
Nessa fase surfava sobretudo em São João, quase sempre sozinho. Assim continuou até ao final do verão de 1978, o verão em que começou a aproximar-se das praias do centro da Costa e dos surfistas que até aí observava à distância. Primeiro conhece o Janita (João Alves). Depois repara no Boavida. Impressiona-se com a elegância do Nuno Jonet e com a evolução rápida do Paulo “Soviético”.
Em 1980, durante o segundo Campeonato de Aveiro, ganha uma nova alcunha. Naquele tempo, Big Wednesday (Os três Amigos do Surf – em Português) era o filme que todos os surfistas queriam imitar. Havia uma manobra que ficava na memória de quem a via: o layback.
O Zézinho chegou a Aveiro e começou a desenhá-los um atrás do outro, com uma facilidade que chamou imediatamente a atenção. Quando regressou à Costa, já ninguém lhe chamava apenas Zézinho. Passou a ser o “Zézinho dos Laybacks”.
Foi também aí que a sua fama começou verdadeiramente. De repente, aquilo que antes poucos tinham visto tornou-se impossível de ignorar. Tinha um talento natural para apanhar ondas. Lia o mar antes dos outros, remava no momento certo e raramente falhava.
Mas havia outro lado da história.
Continuava a surfar como o miúdo que crescera em São João. Via uma onda e ia. Sem cálculo. Sem pensar que mais alguém a queria. Dropava toda a gente. Conta, aliás, que aprendeu com os irmãos Bruno e com o Paulinho Marques da Costa, que eram uns grandes “fussangas”.
O Paulo “Soviético” resume-o melhor que ninguém: “Ele mandava-se a todas as ondas. As maiores eram sempre dele. Fazia uma grande onda e nós ficávamos à espera da próxima… mas ele fazia essa também.” As histórias multiplicam-se.
Num campeonato nacional de longboard, na praia do Marcelino, o Zézinho já tinha pontuação suficiente para passar o heat. O Paulo precisava de uma última boa onda. Faltavam minutos quando o Zézinho lhe fez drop precisamente nessa.
— Já passaste… e não me deixas apanhar uma onda? Zézinho encolheu os ombros. Era mesmo assim.
Os dois passaram muitos invernos juntos na Costa. Muitas vezes eram só eles no mar, com vento de leste e mar grande.
“O Zézinho fazia uma grande onda e eu pensava: a próxima é minha. Mas bastava ele achar-lhe piada… e lá vinha outro drop.” Era essa a sua natureza.
Dentro de água era intenso, competitivo até ao osso e egoísta da única forma verdadeiramente perdoável: a dos inocentes. Fora dela voltava a ser o rapaz tímido, educado e de sorriso fácil.
O inverno de 1978 marcou a entrada de José de Lafuente na história do surf caparicano. O miúdo de São João desceu à Costa com uma Freedom, uma fome infinita de ondas e um talento que ninguém lhe tinha ensinado. A partir daí, tudo se foi construindo.
Foi também na Costa que descobriu as longboards. Primeiro com uma prancha dos irmãos Bruno, que rapidamente lhe mostrou que aquele formato lhe assentava de forma natural. A entrada mais cedo na onda e a possibilidade de desenhar linhas longas encaixavam na forma como sempre surfou. Ao mesmo tempo, nunca perdeu a ligação às ondas grandes. Pelo contrário. Quanto maior o mar, maior era a adrenalina.
No início dos anos 80, quando Miguel Katzenstein e Nick Uricchio avançaram para Ribamar para fundar a Semente, dando continuidade ao trabalho iniciado na Lipsticks, o Katzenstein desafiou-o a acompanhá-los. Passou a ir com eles durante períodos mais longos, sem nunca deixar de ser da Costa nem de lá viver. Na fábrica fazia um pouco de tudo. Construía os cavaletes onde as pranchas eram trabalhadas, preparava os glue-ups e participava numa das operações mais delicadas do processo: com um fio aquecido cortava ao meio o bloco de foam, colocava o stringer de madeira ao centro e voltava a unir as duas metades, que ficavam sob pressão, apertadas por câmaras de ar até a cola secar. Aprendeu assim a conhecer uma prancha por dentro.
Os dias dividiam-se entre Ribamar e a Costa, onde nunca deixou de viver nem de surfar. No verão havia os Coxos. Sempre que podia acampava em Ribeira d’Ilhas e seguia as ondulações em busca de boas ondas. Foi numa dessas temporadas que começou a cruzar-se com o Kika, o Michel e o Alex, surfistas de quem se foi aproximando nessa fase e com quem partilhava o hábito de andar atrás das melhores ondas. A ligação nasce sobretudo dessa dinâmica. Ter uma Toyota Hiace no grupo era, na prática, o que abria o jogo: dava mobilidade para ir atrás da janela de swell e chegar ao pico certo.
Naqueles anos, o mapa era curto, mas muito bem definido. Ia da Costa da Caparica a Peniche, passando por Santo Amaro, pela Ericeira e por outros spots pelo meio. No fundo, era ali que se delimitava o território quando a ondulação fugia da rotina local. Seguir o mar quando entrava noutro spot, sair da praia de casa e ampliar horizontes.
José de Lafuente afirmou-se como um dos nomes consistentes do longboard nacional, com títulos de campeão em 1994, 2002, 2003 e 2011. Ao longo dos anos foi presença regular no circuito nacional e em provas de mar grande. Hoje continua ligado ao mar e ao surf, também através da filha, Beatriz, que pratica surf desde os seis anos. Continua a entrar no mar como sempre entrou.
Almada Online, Costa da Caparica, Crónica, Sandra Barros Simões, Surf

