E Tudo o Tacho Levou: A Guerra da Sucessão

O problema é que Almada não precisa da nostalgia socialista. Precisa de limpeza urbana, de escolas dignas, de ruas cuidadas, de serviços competentes, de ambição, de respeito pelos munícipes e de uma Câmara que perceba que uma cidade não é uma sala de espera para carreiras partidárias.

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Nos últimos episódios da nossa longa novela municipal, Almada percebeu que a sua Câmara é uma corte de província, com baronesa, pajens, escudeiros, figurantes, bengalas comunistas e uma curiosa tendência para confundir governação com encenação.

Não me canso de recordar a Grande Guerra dos Gabinetes que se viveu nos SMAS, onde a baronesa entrou pela administração adentro para reclamar a sua sala do trono e tratou de pôr ordem na criadagem com a delicadeza institucional de quem acha que o poder local é uma extensão de uma taberna.

Depois vieram as reuniões públicas em que os munícipes queriam falar de lixo, abandono e incompetência. Enquanto a Câmara podia ouvir e responder ou, até, fingir empatia (esse exercício teatral em que alguns políticos são exímios quando há câmaras ligadas), preferiu inovar, desligou a transmissão e acabou metade das reuniões públicas. Em Almada, quando a realidade incomoda, a democracia passou a ter botão de pausa.

Pois bem, caro leitor, a novela avançou. E, como em qualquer produção dramática digna desse nome, chegámos agora ao momento mais delicado – a sucessão. Ou, como prefiro chamar-lhe – a batalha para ver quem vai ser o novo socialista a mandar na CDU do Sr. Luís Palma e seus muchachos.

É que hoje há eleições no PS Almada. E isto, em condições normais, poderia ser apenas um episódio interno de um partido. Contudo, em Almada nada é apenas interno e tudo o que mexe no PS mexe na Câmara, nos gabinetes, nas dependências, nos equilíbrios, nos compromissos e naquela vasta fauna político-administrativa que aprendeu a respirar melhor junto ao orçamento municipal do que junto ao ar livre da vida real.

A baronesa Inês de Medeiros parece cada vez mais em fim de ciclo. Já não governa Almada e, antes, parece pairar sobre a cidade – surge aqui, desaparece ali, falta acolá, manda recados, aparece em fotografias cuidadosamente enquadradas e vai deixando no ar aquela sensação de que já tem a cabeça fora da Câmara, antes mesmo de o corpo abandonar formalmente o edifício. Porém, enquanto a baronesa se afasta, a máquina não dorme.

Naturalmente, quando uma matriarca política começa a sair de cena, os herdeiros aproximam-se da mesa, os pajens endireitam a casaca, os escudeiros olham para os lados, os fiéis começam a jurar fidelidade com maior elasticidade, e os que ontem batiam palmas à senhora da casa ensaiam agora discretamente o sorriso que oferecerão ao próximo dono do palácio.

É sempre assim nas grandes famílias políticas. Primeiro vem o silêncio, depois os telefonemas, a seguir os almoços, e, no fim, os comunicados cheios de palavras como “unidade”, “renovação”, “proximidade”, “futuro” e “militância”. Estas são palavras tão bonitas que quase parecem acabadas de sair de uma lavandaria partidária.

A disputa no PS Almada tem, no entanto, o mérito raro de colocar perante os socialistas uma escolha clara. De um lado, um deputado municipal digno, experiente, conhecedor dos dossiers, com intervenção consistente, bom senso e uma independência relativa que, naquele ecossistema, já quase parece um ato de insurreição. Num partido habituado a confundir disciplina com vassalagem e unidade com silêncio obediente, alguém que ainda pensa antes de bater palmas merece, no mínimo, ser observado com atenção.

Do outro lado, a Dona Teodolinda Silveira, antiga vice-presidente da Câmara, surge como a candidatura do regresso. E se há regressos que emocionam e regressos que redimem, também há regressos que lembram humidade nas paredes – basta aparecerem para nos recordarmos do que correu mal da última vez.

Quero ser claro – a Dona Teodolinda representa uma memória política concreta e não é uma abstração, uma novidade, ou uma promessa por testar. Já esteve lá e já teve muito poder e responsabilidade. E muitos almadenses recordar-se-ão bem do que isso significou em áreas como a limpeza urbana e a Educação. O problema dos regressos é precisamente esse – trazem currículo, mas também trazem cadastro. No caso da Dona Teodolinda, 90% é cadastro.

No caso da Educação, a memória é particularmente incómoda. A Escola da Fonte Santa não foi apenas um episódio administrativo, mas sim um símbolo – uma comunidade abalada, uma escola tratada como linha incómoda no Excel municipal, uma decisão envolta em autoritarismo e uma Câmara incapaz de perceber que uma escola não é apenas tijolo, cimento e despesa corrente. A Dona Teodolinda nunca respeitou aquela gente e onde o poder devia chegar com respeito, a Dona Teodolinda levou a régua, o esquadro e a frieza de tesouraria.

Aliás, para a sensibilidade socialista de gabinete desta inefável personagem, houve sempre uma explicação – quando se fechava, racionalizava-se; quando se cortava, otimizava-se; quando se abandonava, reorganizava-se; quando os pais protestavan, dramatizavam; quando uma comunidade se alevantou, estava mal informada; quando as crianças perderam, havia certamente um parecer técnico com muitas vírgulas a explicar que perderam para seu próprio bem. São estas as diferenças entre olhar para a cidade e olhar para uma folha de cálculo. Quem olha para a cidade vê pessoas. Quem, como a Dona Teodolinda, olha para a folha de cálculo vê rubricas.

Por tudo isto, também, há interesse nestas eleições internas do PS. Não porque o destino do mundo dependa da concelhia do PS Almada (felizmente a humanidade ainda dispõe de problemas maiores do que saber quem manda na CDU do Sr. Luís Palma), mas porque esta disputa mostra que tipo de instinto de sobrevivência tem o partido que governa o concelho.

As dúvidas impõem-se – quer o PS corrigir caminho ou quer regressar ao armazém para recuperar peças antigas e gastas? Quer o PS abrir uma janela ou quer trocar apenas a cortina? Quer recuperar autonomia local ou continuar a viver como centro de emprego?

O candidato alternativo pode não ser uma revolução ou um desembarque na Normandia da política almadense, mas representa, pelo menos, a hipótese de algum bom senso e dignidade dentro de uma estrutura que há demasiado tempo confunde poder com posse. Esta é a oportunidade de o PS Almada tentar parecer adulto, institucional e minimamente consciente da degradação política em que se deixou envolver. Acredito mesmo que a candidatura da Dona Teodolinda mais não é do que o passado a bater à porta vestido de solução, a velha engrenagem a pedir recauchutagem, e o regresso de quem já passou pelo centro do poder municipal e não deixou propriamente saudades em áreas onde a cidade precisava de competência, sensibilidade e presença.

Esta é, de facto, uma ironia deliciosa. Num partido que tanto finge gostar de falar de futuro, a disputa é entre o futuro possível e o passado requentado das sobras do ano passado.

Naturalmente, ambos falarão de união, porque todos falam de união nestas alturas. A união é a camomila dos aparelhos partidários e serve para acalmar militantes, disfarçar azias e esconder facas debaixo da toalha. Falarão também de renovação porque a renovação é outro clássico. Em política interna, toda a gente renova, mesmo quando recicla ou, como neste caso, quando tira do sótão uma peça antiga, sopra-lhe o pó e a apresenta como património afetivo.

O problema é que Almada não precisa da nostalgia socialista. Precisa de limpeza urbana, de escolas dignas, de ruas cuidadas, de serviços competentes, de ambição, de respeito pelos munícipes e de uma Câmara que perceba que uma cidade não é uma sala de espera para carreiras partidárias.

Enquanto os militantes do PS escolhem quem lhes vai presidir à concelhia, os almadenses continuam a escolher por onde passam para evitar lixo, ervas, buracos, bosta de cão, e a paisagem cada vez mais deprimente de um concelho que perdeu a sua identidade. Enquanto uns contam votos internos, outros contam contentores por recolher e colchões e móveis velhos à porta de casa.

Perante isto, a Dona Teodolinda nunca desceu do seu pedestal e nunca pôs os pés na rua. Para a Dona Teodolinda, como para a baronesa, a cidade real raramente entra nestas contas e é apenas cenário que aparece ao fundo da fotografia, desfocada, enquanto os protagonistas sorriem para a objetiva. Almada é útil em campanha, comovente nos discursos, indispensável nos slogans e rapidamente esquecida quando se fecham as urnas.

A grande pergunta destas eleições não é, portanto, quem vence. A pergunta é outra – o PS Almada quer continuar a ser uma máquina de ocupação do poder ou quer voltar a ser um partido com ligação real ao concelho? Porque uma coisa é suceder à baronesa Inês de Medeiros, outra, bem diferente, é acabar com o inês-medeeirismo enquanto método. E o método está bem à vista – propaganda em vez de obra, gabinete em vez de rua, fotografia em vez de solução, desculpa em vez de responsabilidade, palácio em vez de cidade. A baronesa pode sair em breve, mas a corte pode ficar, e esse é o verdadeiro perigo desta disputa.

De pouco servirá mudar o rosto se o espelho continuar o mesmo e de pouco servirá trocar a senhora do retrato se a moldura permanecer pendurada na mesma parede cheia de mofo. Sobretudo, de pouco servirá falar de renovação se, no fim, tudo continuar organizado para proteger os mesmos hábitos, os mesmos vícios e os mesmos pequenos confortos do aparelho.

Por tudo isto, o regresso da Dona Teodolinda Silveira merece ser lido como aquilo que é – um teste à memória do PS Almada e uma tentativa de recauchutagem. Querem mesmo convencer os almadenses de que o futuro passa por repristinar o passado com nova maquilhagem ou com uma fotografia de há 20 anos?

E é por tudo isto que a candidatura alternativa, com todas as cautelas que a política recomenda, surge como a hipótese menos absurda dentro daquele universo. Não por ser messiânica, mas por parecer menos dependente do velho teatro e, sobretudo, por ter os pés assentes na terra e por andar na rua com as pessoas reais.

A verdade é que o PS Almada chega a este momento numa situação curiosa. Tem poder, mas não tem brilho. Tem máquina, mas não tem alma. Tem comunicação, mas não tem entusiasmo. Tem gabinetes, mas não tem gente competente para os ocupar. Tem slogans, mas já ninguém acredita neles. E agora tem de escolher se quer preparar o pós-baronesa com inteligência e decência ou se quer apenas mudar de rosto para continuar a mesma peça. Numa terra normal, a decência seria o mínimo. Em Almada, já é quase exótica.

A novela, portanto, promete. Veremos se os militantes socialistas escolhem uma tentativa de correção ou uma sessão de espiritismo autárquico sob a qual paira o perfume bafiento dos velhos corredores do poder.

Pela minha parte, não tenho ilusões. O aparelho tem sempre uma capacidade notável de se proteger e é como certas ervas daninhas nos passeios de Almada – podemos cortá-las, mas voltam sempre, teimosas, instaladas, convencidas de que o espaço público lhes pertence por usucapião.

Ainda assim, há momentos que revelam muito. E este é um deles.

A baronesa prepara a saída. Os pretendentes apresentam-se. Os fiéis reposicionam-se. A palavra renovação volta a circular, fresca e inútil, como ambientador num sótão fechado. E Almada, essa, continua à espera que alguém perceba que uma cidade não é uma herança partidária.

No fundo, a escolha do PS Almada é simples e é entre abrir uma janela ou fechar-se no sótão.

O receio é que, no fim, a grande questão não seja quem tem projeto para Almada, mas quem fica a mexer o tacho.

David Cristóvão

Ex-autarca

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