Investir: a única forma de alcançar a independência financeira a longo prazo (parte 1)

O paradigma económico dos últimos 50 anos mostrou que a capacidade financeira real e o poder de compra das famílias degradaram-se em termos relativos devido a uma desigualdade crescente entre crescimento/inflação e aumentos salariais. Vamos ver que basear uma vida inteira apenas no fator trabalho deixou de ser suficiente e a rentabilização das nossas poupanças assume um papel estrutural no caminho para a independência financeira.

Partilhe:

Desde cedo, a sociedade e o sistema educativo incutem os jovens a procurar uma área profissional que simultaneamente se enquadre no seu perfil ou preferências pessoais e seja tendencialmente qualificada ou responda às necessidades da economia, numa lógica de cada individuo fornecer um contributo para a continuidade operativa das empresas e instituições, para a inovação ou para o crescimento económico. 

No entanto, a retribuição que o cidadão comum recebe por seguir um padrão socioprofissional – estudar durante vários anos, escolher uma área de especialização ao tirar um curso técnico-profissional ou superior, integrar o mercado de trabalho e construir uma vida autónoma – tem sido cada vez mais modesta em termos reais. Sendo algo transversal a todos os países, a evolução da economia dos próprios EUA ilustra este fenómeno. 1

Fonte: Federal Reserve of St. Louis (FRED) e Bureau of Labor Statistics (BLS). Nota: os indicadores representados no eixo da esquerda estão transformados em índice de base 1960 (1960 = 100), enquanto o índice de Gini, representado no eixo da direita, mede a desigualdade através da área entre a “Curva de Lorenz” e a linha de perfeita igualdade (para mais detalhes consultar a definição online).

O gráfico acima mostra um ponto de rutura particularmente importante a partir dos anos 70: passou-se de uma conjuntura socioeconómica em que a riqueza e bem-estar da população empregada crescia a ritmos idênticos ao da própria economia (entre 1960 e 1970, o PIB per capita dos EUA aumentou cerca de 32.9% e o salário médio real apenas um pouco abaixo, 26.3%) para uma marcada por uma fragmentação crescente entre rendimentos e crescimento (de 1970 a 2024 e em termos reais, o PIB per capita subiu 165% enquanto o salário médio apenas 76.2%). Em consequência, o nível de desigualdade social, medido pelo índice de Gini, regressou a uma trajetória ascendente. 

O crescimento económico deve-se classicamente a diversos fatores2, nomeadamente a demografia, o progresso técnico, a especialização do trabalho, a investigação e inovações tecnológicas, que otimizaram processos e consolidaram novos produtos e setores de atividade. Este foi sustentado por uma melhoria na produtividade, pelo que as gerações de trabalhadores foram se tornando cada vez mais eficientes e qualificadas, mas não proporcionalmente recompensadas.

Além do benefício indireto e não monetário via, por exemplo, novas tecnologias e melhorias nos cuidados de saúde, a população em geral usufruiu de menos de metade do crescimento económico nos últimos 50 anos. A parcela maioritária do PIB tem sido captada por quem possui poder económico e/ou disposição ao risco, tais como investidores de retalho internacionalmente conhecidos, investidores institucionais (fundos de investimento), donos de grandes empresas e governos das principais potências, evidenciando uma profunda e, para muitos injusta, transferência de rendimento, sendo esta uma das principais teses políticas do socialismo.

Passámos efetivamente de um modelo que valorizava o fator trabalho – no qual construir uma carreira profissional “normal” e “socialmente aceite” valia a pena – para um que valoriza principalmente o fator capital – quem tem capacidade e disposição a assumir riscos sobre o seu próprio dinheiro é recompensado.

Ao mesmo tempo, em Portugal, os esforços das políticas sociais de equidade e de combate à desigualdade assumiram um papel fundamental na integração europeia e na transição para uma economia desenvolvida no final do século XX, mas não resolveram o problema estrutural ligado à remuneração “sub-ótima” dos profissionais qualificados e de setores com maior valor acrescentado.

O salário mínimo consiste num ótimo exemplo: sobe por decreto-lei sem que as empresas consigam reunir as condições operacionais e financeiras para suportar esses aumentos, deixando o salário médio estagnado e reduzindo o diferencial percentual entre ambos, limitando as perspetivas de produtividade.

Há quem discuta inclusive uma hipótese de que os trabalhadores qualificados, que ganham em torno do salário médio, “subsidiam” endogenamente os aumentos forçados do salário mínimo, além da maior carga fiscal que enfrentam. Com a transição do governo do PS para o do PSD/CDS em 2024, registou-se o aumento mais expressivo do salário médio desde pelo menos 2000, no entanto a trajetória de “compressão” com o mínimo ainda não foi quebrada:

Fonte: Eurostat.

As perspetivas sobre uma aceleração potencial e significativa no aumento dos salários não são as melhores e dependem de fatores como a diminuição da carga fiscal e o incentivo às empresas em se tornarem mais eficientes e especializadas em setores estratégicos, como o tecnológico e o farmacêutico. Ao mesmo tempo, a incerteza nos mercados internacionais e na geopolítica diz-nos que a inflação veio para ficar e a crise de habitação manter-se-á, pelo menos, no curto prazo.

A subida lenta dos salários foi ainda agravada recentemente pela crise de habitação, que tornou impossível a uma parte considerável da população comprar casa própria ou sequer suportar rendas; e pela persistência da inflação de bens e serviços, decorrente de conflitos armados, tensões geopolíticas e choques na oferta de bens alimentares e energia nos últimos quatro anos. 

Torna-se consensual que basearmos os nossos rendimentos exclusivamente no fator trabalho – o nosso salário – não é suficiente para garantir qualidade de vida e bem-estar financeiro a médio-longo prazo, algo ainda agravado pela degradação das pensões e subida da idade da reforma. Devemos tentar alocar pelo menos uma parcela da nossa estrutura de rendimentos ao fator capital, e tal só é possível assumindo um nível tolerável de risco e rentabilizando as nossas poupanças excedentárias.

Existem essencialmente dois conjuntos de soluções para alcançar a liberdade financeira no longo prazo, e estes são conceptualizados pelo empreendedor Robert Kiyosaki no seu livro “Rich Dad’s Cashflow Quadrant”, o caminho do empresário e o caminho do investidor.

De seguida, apresento o modelo dos quadrantes cash-flow de Robert Kiyosaki, que embora tenha sido alvo de várias críticas (por exemplo, uma pessoa pode perfeitamente situar-se em mais de um quadrante), providencia um enquadramento pertinente:

Fonte: Kiyosaki, R. T. (1998). 
Rich dad’s cashflow quadrant: Guide to financial freedom

Os empregados (E), que constituem a maioria da população, trocam o seu tempo e esforço físico e/ou intelectual por um ordenado providenciado por uma empresa ou instituição, ou seja, obtém rendimentos cuja fonte principal é o fator trabalho. Em benefício, garantem estabilidade e segurança pelo facto de obterem uma remuneração fixa e sem risco (embora a noção de “sem risco” possa ser colocada em causa em períodos de crise financeira e de aumentos abruptos no desemprego).

Os pequenos empreendedores (S) são essencialmente trabalhadores independentes (advogados, nutricionistas, contabilistas, intermediários, explicadores a tempo inteiro, etc.) ou donos de pequenos negócios (restaurantes, lojas, etc.), que embora possuam uma certa estrutura empresarial que lhes providencia alguma liberdade/personalização e controlo sobre os seus serviços, continuam a trocar tempo e esforço por um rendimento (por exemplo, comissões) que não advém de um sistema padronizado e, em acréscimo, pode ser arriscado. Juntamente com os empregados, representam cerca de 80 a 90% da população mundial (excluindo inativos e desempregados).

Os donos de grandes empresas (B) enfrentam um risco muito elevado por tentarem criar e escalar um negócio em nichos específicos/novos ou mercados competitivos, que se torna um sistema automatizado (continua mesmo quando não estão presentes, ao contrário dos S), caracterizado por processos bem-definidos e um modelo de negócio que funciona e conseguiu ganhar relevância ao longo do tempo. Os B deixam de depender de rendimentos do fator trabalho e passam a rentabilizar o seu capital e propriedade intelectual.

Muitas vezes, estes empreendedores apenas conseguem recuperar o investimento décadas após o início da atividade, mas os rendimentos (lucros) que daí advêm compensam o risco, conseguindo alcançar a independência financeira. Basta olhar para empresários internacionais de sucesso, como Elon Musk e Jeff Bezos.

Por fim, os investidores (I) também obtém rendimentos de capital, mas fazem-no de forma mais indireta, aplicando as suas poupanças em ativos cuja expetativa de valorização futura (ganhos de capital) é atrativa ou providenciam cashflows periódicos interessantes (como dividendos no caso das ações, juros no caso das obrigações e rendas no caso do imobiliário). A longo prazo, embora enfrentem um nível de risco que depende da carteira de ativos e passivos, conseguem alcançar a liberdade sobre o seu dinheiro e tempo, por via do efeito composto, que será abordado na parte 2 deste artigo. Juntamente com os grandes empresários, representam apenas 10 a 20% da população.

Este modelo fornece mais uma evidência de que depender exclusivamente de um salário não é a escolha mais acertada a longo prazo. Devemos tentar rentabilizar as nossas poupanças, e quanto mais cedo o fizermos, maior a capacidade de suportar perdas.

Visto que o quadrante B é muito específico e inacessível à maioria das pessoas, focar-nos-emos no quadrante I na parte 2, visto que democratização dos mercados financeiros a partir do final dos anos 90 tornou acessível a qualquer pessoa começar a investir. Abordaremos ainda alguns “axiomas” ou “factos estilizados” do ato de investir, como a relação risco-retorno e o efeito-diversificação.

  1. É utilizado o exemplo dos EUA pela maior facilidade e disponibilidade de séries longas de dados, mas esta trajetória tende a
    ser padronizada e verifica-se em diversas economias.
    ↩︎
  2. Por exemplo, ver obras de economistas como Adam Smith, David Ricardo, Thomas Malthus, Nicholas Kaldor, Joseph Schumpeter e Robert Solow. ↩︎
Tiago Pereira

Economista e Mestre em Finanças pelo ISEG-UL

, , , ,