Oxalá 2026 nos valha, com o que nos anima!
Todos nós precisamos da arte e da cultura, mesmo aqueles que acham que não.
Chegados a 2026, neste primeiro mês do Ano, por que me lembro de trazer aqui o Manifesto assinado por Jorge Silva Melo e Martim Pedroso em 12 de Outubro de 2012?
Com espanto, óbvio que no sentido de susto, ouvi um Candidato à Presidência da República nas eleições de Janeiro de 2026, muito preocupado com a Defesa, defender mais investimento na Cultura, mas considerar impossível atingir a meta de 1%, um valor “bastante elevado”.
Como não podemos trazer de volta a voz de Jorge Silva Melo, partilho o seu Manifesto.
“Fazemos teatro
Somos actores, somos bailarinos, escritores, luminotecnicos, produtores, sonoplastas, bilheteiros, frentes de sala, arrumadores, produtores…
Fazemos teatro.
E gostamos.
Às vezes com muitos espectadores, às vezes com poucos. Há anos em que temos mais espectáculos, há anos em que temos menos. Mas fazemos teatro – e gostamos do que fazemos.
Gostamos também que gostem de nós. E gostamos também que não gostem de nós. Gostamos de apostar em espectáculos que não são de consumo rápido. Que fazem reflectir. Gostamos de pensar e de fazer pensar na sociedade e no indivíduo. Porque gostamos da sociedade e do indivíduo.
Por isso, às vezes, temos poucos espectadores. Porque para pensar é preciso tempo e cada vez há menos tempo.
Mas estes espectáculos que fazemos são imprescindíveis – até para aqueles que não os vêem.
Por isso não iremos desistir.
Não, não vamos desistir de fazer espectáculos (ou de fazer filmes) que não se esgotam no divertimento de uma noite, que não são auto-sustentáveis comercialmente (há algum verdadeiramente auto-sustentável?).
Fazemos teatro porque esse gesto ousado ainda nos liberta – a nós e a vocês e aos outros que ainda não estão aqui, ou nunca estarão.
Fazemos teatro porque defendemos a liberdade: a liberdade, sim.
Não apenas a liberdade de opinião, a liberdade de circulação, a liberdade de expressão: a liberdade, apenas. É isso que nos faz viver – a nós e a vós.
E é por isso que precisamos de dinheiro do Estado: porque nem nós nem vocês temos dinheiro para pagar nem esta sala, nem estes actores, nem o tempo livre de preparação de espectáculo, nem os ensaios, nem o tempo perdido à espera de uma ideia, não temos.
Por isso, precisamos do dinheiro do estado. Precisamos todos. Os que andam aqui há mais tempo e os que andam há menos. As grandes e as pequenas companhias, os clássicos e os contemporâneos. As primeiras e as últimas obras, e já agora as intermédias também. E os espectadores de todas. Porque é na diversidade que o pensamento se cria, no confronto do velho com o novo.
Precisamos do dinheiro do Estado. É justo!
Precisamos do dinheiro do estado para estrearmos, para circularmos, para apresentarmos os espectáculos por aí, para podermos debater, para poderem gostar do que fazemos – ou não gostar.
Nós gostamos do que fazemos (mesmo quando sabemos que o trabalho ficou aquém do que esperámos, mesmo quando sabemos que ‘não foi desta’ ). É do erro que emerge o acto criativo. Somos feitos de erro, falhas e descompensações, caso contrário não haveria necessidade de criar o que quer que seja.
Gostamos de fazer teatro.
E temos que viver.
Há anos (não é só de agora) que as autoridades nos adiam, nos desprezam, nos dizem que o melhor é desistir. Não vamos desistir.
Mas temos que planear, temos que nos organizar, temos que quebrar este vil desprezo a que somos votados.
Com quem discutir? com quem trabalhar? com quem organizar os nossos trabalhos? Precisamos de alguém que nos queira ouvir. Que nos perceba, que nos dê a merecida importância, que não nos mande areia para os olhos…
Quem diz que não somos necessários?
Quem diz que não somos responsáveis?
Quem diz que não somos organizados?
Quem se atreve?
Queremos trabalhar para uma organização eficaz das nossas profissões, da nossa qualificação profissional, dos nossos estatutos, das nossas reformas.
Queremos um departamento da cultura que trabalhe connosco e não se limite a ser um escritório que produz sucessivos adiamentos.
Queremos um departamento da cultura que não desperdice não só o dinheiro como o nosso trabalho – e o torne útil (o nosso trabalho e o dinheiro investido).
Queremos trabalhar.
E não queremos ser adiados, nem desprezados, nem ignorados, nem manietados,…”
Proponho aqui a todos os artistas e espectadores que divulguem este manifesto ou outro semelhante escrito por vós. Que o divulguem nos vossos teatros, nos vossos festivais, nos vossos eventos. Nos vossos blogs, nas vossas páginas do Facebook. Divulguem a nossa e a vossa preocupação, não se calem. Todos nós precisamos da arte e da cultura, mesmo aqueles que acham que não.
Há companhias que neste momento estão em risco de cancelar as suas programações. Há jovens artistas que pensam todos os dias em emigrar ou abandonar a sua actividade. O que será de nós sem esses artistas? O que será dos artistas sem os espectadores?

Oxalá 2026 nos valha, com aquilo que nos anima!
Eleições à porta, recordo outro saudoso grande nome do nosso Teatro, Artur Ramos, que, quando nos deixou, disse pela voz de Artur Portela, “… Uma última coisa, uma última coisa! … VOTEM BEM! Eu sei do que falo, eu nasci em 26!”
Almada Online, Crónica, Maria Emilia Castanheira, Opinião, Teatro


