Restaurar a natureza requer mais investimento do governo e autarquias
Com compromisso, investimento e uma gestão adequada dos recursos, a recuperação da natureza é possível.
As populações de vida selvagem monitorizadas diminuíram em média 73% desde 1970, segundo o Relatório Planeta Vivo 2026 da WWF1, lançado em outubro. Num mundo em que cerca de metade do PIB global, aproximadamente 58 biliões de dólares, depende moderada ou fortemente da natureza, a perda de biodiversidade representa muito mais do que uma ameaça ambiental: é um risco económico e social crescente.
Os fluxos financeiros globais (e locais) continuam, porém, a ignorar o problema. Em 2023, cerca de 7,3 biliões de dólares foram canalizados para atividades prejudiciais à natureza, enquanto apenas 220 mil milhões financiaram a sua proteção ou restauro.
Ainda assim, há sinais concretos de que é possível inverter esta tendência. Em Portugal, o lince-ibérico passou de Criticamente em Perigo a Vulnerável, aumentando-se a sua população em quase dez vezes mais nos últimos 5 anos. Também a sardinha recuperou a certificação MSC (que comprova responsabilidade ambiental) em julho deste ano e o atum-rabilho (que se encontra na costa algarvia) deixou de ser considerado sobre explorado. Estes exemplos mostram que, com compromisso, investimento e uma gestão adequada dos recursos, a recuperação da natureza é possível.
É esta convicção que está na origem da D-EVOLUÇÃO, a iniciativa nacional de restauro ecológico da WWF Portugal. A iniciativa foi lançada em Almada há um ano atrás, e contou com a presença da Presidente da Câmara, Inês de Medeiros, que considerou a iniciativa importante e meritória.
Ao longo deste primeiro ano, a WWF conseguiu mobilizar cerca de 482 mil euros, com o contributo de vários parceiros, empresas e cidadãos; destes, 100 mil euros estão a ser investidos em Almada, no projeto cavalos marinhos da Trafaria. Aí foram instalados nove abrigos subaquáticos, construídos a partir de carrinhos de supermercado reaproveitados, num exemplo de economia circular ao serviço da biodiversidade, enquanto se consolida um esforço conjunto e de longo prazo para a recuperação plena do seu ecossistema.
Também outras intervenções na paisagem já se fazem notar: no Gerês, estão em recuperação 46 hectares de floresta e habitats afetados por incêndios; na serra do Caldeirão, prepara-se o restauro dos primeiros 19 ha de montado.
Mais do que reparar ecossistemas degradados, estas intervenções são um investimento na resiliência do país e dos municípios, e na redução de riscos ambientais. Os benefícios traduzem-se, assim, em ganhos económicos e sociais concretos – segundo a Comissão Europeia, cada euro investido no restauro da natureza pode gerar entre 8 e 38 euros em serviços de ecossistema.
O desafio está agora em ampliar estes resultados. Até aqui, centenas de cidadãos e mais de uma dezena de empresas portuguesas já se juntaram à WWF neste esforço, demonstrando que a sociedade civil e o setor privado podem ter um papel determinante.
Mas o investimento privado não substitui a responsabilidade do Estado e dos municípios, a quem cabe assumir a liderança através de políticas ambiciosas e financiamento adequado do Restauro da Natureza.
Proteger e recuperar os ecossistemas é proteger o capital natural, a atividade económica e o bem-estar das comunidades. Restaurar a natureza não é um custo, mas um investimento no futuro e uma das decisões mais certas que podemos tomar em Almada.
- Word Wild Fund ou Fundo Mundial para a Natureza, em português. ↩︎



