Almada entre o potencial e a urgência de governar
Almada parece estar constantemente a correr atrás dos problemas em vez de os antecipar. Os almadenses já sabem o que o seu concelho pode ser. O que esperam agora é que alguém demonstre, todos os dias, que também sabe como lá chegar
Almada é um dos concelhos mais privilegiados de Portugal. Possui uma localização estratégica na Área Metropolitana de Lisboa, uma frente atlântica de excelência, uma frente ribeirinha de enorme valor, universidades, tecido empresarial, património natural e uma população qualificada e participativa. Poucos municípios reúnem tantos ativos.
E, no entanto, poucos concelhos apresentam uma discrepância tão evidente entre o potencial existente e a perceção de muitos dos seus cidadãos.
Quem acompanha os debates da Assembleia Municipal, lê a imprensa local, participa nas redes sociais de proximidade ou simplesmente conversas nos cafés da Charneca de Caparica, da Sobreda, de Cacilhas, do Feijó ou da Costa da Caparica, encontra um sentimento recorrente: Almada parece estar constantemente a correr atrás dos problemas em vez de os antecipar.
Os vários partidos representados na Assembleia Municipal apontam responsabilidades em direções diferentes. O executivo municipal destaca investimentos, candidaturas a fundos comunitários e projetos estruturantes. A oposição denuncia atrasos, falhas de planeamento e insuficiente resposta aos problemas do dia a dia.
Mas a realidade dos munícipes é geralmente mais simples e mais exigente.O cidadão não avalia a política através dos comunicados. Avalia-a através da rua que percorre, do autocarro que espera, do serviço que utiliza e da resposta que recebe. E é precisamente nesses aspetos que se concentra uma parte significativa das críticas à governação municipal.
Persistem preocupações relacionadas com a limpeza urbana, a recolha de resíduos, a manutenção dos espaços públicos, a degradação de algumas áreas históricas, os congestionamentos viários, a escassez de estacionamento, a pressão urbanística e a dificuldade crescente de acesso à habitação para jovens e famílias de classe média.
A tudo isto acresce um sentimento de excessiva centralização das decisões no centro urbano de Almada, deixando frequentemente a Charneca de Caparica, a Sobreda, a Trafaria e outras localidades com a perceção de que recebem menos investimento proporcional face ao crescimento populacional que têm registado.
Contudo, limitar a análise à crítica seria injusto. Também é verdade que Almada tem vindo a modernizar equipamentos, a investir na mobilidade suave, a promover a reabilitação urbana e a valorizar o seu património ambiental.
O problema fundamental não parece ser a ausência de investimento. O problema parece ser a ausência de uma visão integrada que transforme investimentos dispersos numa estratégia coerente e percetível para os cidadãos.
O que deveria ser a prioridade para Almada? Mais importante do que identificar problemas é apresentar soluções.
1 Um Plano Municipal de Limpeza e Espaço Público
A higiene urbana não é uma questão menor. Uma cidade limpa transmite segurança, qualidade de vida e eficácia administrativa.
Almada deveria implementar equipas de limpeza por freguesia com objetivos mensais públicos, disponibilizar uma aplicação municipal para reporte georreferenciado de ocorrências, publicar indicadores de desempenho por freguesia, e reforçar a fiscalização do abandono ilegal de resíduos.
O munícipe deve saber quando foi reportado um problema e quando será resolvido.
2 Uma nova estratégia para a Charneca de Caparica e Sobreda
Estas freguesias cresceram muito mais depressa do que as infraestruturas.
É necessário construir novos parques de estacionamento periféricos, concluir ligações viárias estruturantes, reforçar os equipamentos de saúde, aumentar áreas verdes de proximidade, e requalificar sistematicamente passeios e arruamentos.
A Charneca de Caparica e a Sobreda já não são periferias. São centros urbanos relevantes e devem ser tratadas como tal.
3 Mobilidade Metropolitana
A mobilidade continua a ser o maior desafio da próxima década.
Almada deveria liderar uma estratégia junto da Área Metropolitana de Lisboa para criar corredores BUS eficazes, integrar melhor o Metro Sul do Tejo, melhorar as ligações à Costa da Caparica, criar parques dissuasores junto às principais entradas do concelho, apostar em transportes de proximidade para zonas menos servidas, pois o tempo perdido no trânsito representa uma enorme perda económica e social.
4 Habitação para a classe média
Muito tem sido discutido sobre habitação social, mas pouco sobre os jovens trabalhadores e famílias de rendimentos médios.
Almada precisa de programas municipais de arrendamento acessível, benefícios urbanísticos para projetos destinados a renda controlada, reabilitação de património devoluto, e parcerias público-privadas para habitação acessível.
Uma cidade onde os filhos dos almadenses não conseguem viver deixa de ser sustentável.
5 Frente Atlântica e Economia do Mar
A Costa da Caparica é muito mais do que praias.
Pode ser um motor económico permanente através de turismo sustentável durante todo o ano, valorização da gastronomia local, centros de inovação ligados à economia azul, eventos internacionais de desporto e ambiente, e requalificação do espaço público marítimo.
Almada tem de olhar para o mar como um ativo económico, não apenas recreativo.
6 Participação cidadã efetiva
Muitos munícipes sentem que são ouvidos apenas em período eleitoral.
A Câmara Municipal deveria criar orçamentos participativos reforçados, plataformas digitais de consulta pública, e painéis de acompanhamento de grandes obras. A democracia local não se esgota no voto de quatro em quatro anos.
O maior problema de Almada não é a falta de recursos nem a falta de potencial. O verdadeiro desafio é transformar um território extraordinário numa referência nacional de boa governação local.
A questão central já não é saber quem governa ou quem faz oposição. A questão é saber quem consegue construir uma visão mobilizadora para um concelho que cresceu mais depressa do que a capacidade das suas instituições para acompanhar esse crescimento.
Almada não precisa de mais propaganda. Precisa de ruas cuidadas, mobilidade eficiente, habitação acessível, serviços públicos próximos e uma administração capaz de transformar o potencial em realidade.
Porque os almadenses já sabem o que o seu concelho pode ser. O que esperam agora é que alguém demonstre, todos os dias, que também sabe como lá chegar.
Almada Online, Crónica, Opinião, Pedro Dias Pereira, PS


