Como o lixo se tornou luxo para os cavalos-marinhos da Trafaria
Projecto D-Evolução da WWF Portugal cria abrigos artificiais no Estuário do Tejo com carrinhos de supermercado
O fundo da baía da Trafaria, conta a partir de agora com uma ajuda invulgar para travar o declínio da biodiversidade marinha. Na apresentação pública no antigo Presídio da Trafaria, que decorreu na manhã de hoje 8 de Setembro, a Associação Natureza Portugal (ANP) e a World Wide Fund for Nature Portugal (WWF) revelaram os detalhes do projecto D-Evolução, uma iniciativa de restauro ecológico que transformou nove carrinhos de supermercado em abrigos subaquáticos artificiais, para proteção das vulneráveis populações de cavalos-marinhos do Estuário do Tejo.
O projecto baseia-se numa ironia biológica. Ao monitorizarem a fauna local, os investigadores do centro MARE/ISPA e da associação MARDIVE aperceberam-se de que estes pequenos peixes utilizavam espontaneamente detritos metálicos pesados que caíam à água para se fixarem com a cauda e resistirem às fortes correntes fluviais. A observação deu origem a uma parceria com o Lidl Portugal, que cedeu as estruturas metálicas.
Antes de irem para a água, os carrinhos foram totalmente limpos e transformados com a ajuda de dois serralheiros locais – Carlos Pereira (Quinchas) e João Viegas (Bolha) -, envolvendo assim também pessoas da comunidade, para garantir que servem de base ao crescimento de algas, sem libertar contaminantes para o ecossistema. Assim, o que começou por ser lixo marinho, transformou-se numa tábua de salvação para a espécie.
Divididos por três zonas estratégicas da Trafaria, os novos abrigos pretendem dar uma nova oportunidade às duas espécies que ali habitam: o cavalo-marinho-comum (Hippocampus hippocampus) e o cavalo-marinho-de-focinho-comprido (Hippocampus guttulatus). Ambas, descobertas em 2019, enfrentam severas ameaças na região devido à poluição, ao ruído das embarcações e à perda de habitats naturais, agravada pelas redes de pesca “fantasma” abandonadas no fundo do rio.

Em declarações à agência Lusa, Gonçalo Silva, mergulhador científico e investigador responsável pela intervenção subaquática da MARDIVE, explicou que, embora seja difícil a sua contabilização, as observações realizadas desde 2019 permitiram verificar que a população de cavalos-marinhos da baía da Trafaria é significativa, tendo uma das maiores densidades de cavalos-marinhos conhecidas em Portugal (mais até que na Ria Formosa), com especimes que atingem dimensões acima da média.
“Estamos a falar de espécies raras. Por norma nós vemos um, dois indivíduos, e aqui, quando mergulhámos pela primeira vez, encontrámos 10, 12 indivíduos”, disse.
Além destas espécies de cavalos-marinhos, as marinhas “Syngnathus acus” que pertencem à mesma família, foram também observadas com muita frequência no local e compõem esta comunidade multiespecífica.
“Uma das principais coisas que nos chamou a atenção foi que, no meio de todo o lixo marinho que existia aqui, a maior parte artigos de pesca ou relacionados com a pesca, existiam carrinhos de supermercado abandonados e vimos cavalos-marinhos a usar esses abrigos”, disse, adiantando que surgiu então a ideia de os utilizar, o que parece estar a resultar.
“Transformámos os carrinhos no sentido de os preparar e minimizarmos os riscos, retirando plásticos, criando, soldando peças de forma a conseguirmos estacá-los no fundo para que eles não saiam do lugar e, assim, criar esses abrigos”, disse, adiantando que agora esta acção será monitorizada entre 2026-2028, para avaliar a ocupação dos abrigos pelas espécies-alvo, o desenvolvimento de comunidades biológicas associadas e a evolução ecológica da área intervencionada.. Os abrigos representam apenas uma primeira etapa da intervenção.
A médio prazo, a ambição passa também por remover os resíduos submersos que constituam uma ameaça para a biodiversidade do estuário, e reforçar as condições de abrigo onde se revele necessário. A longo prazo, o objectivo é contribuir para a recuperação das condições ecológicas do habitat dos cavalos-marinhos e para o restauro dos ecossistemas estuarinos, reduzindo as pressões que actualmente afetam esta área do Tejo.
Ângela Morgado, Dircetora Executiva da WWF Portugal, explicou à agência Lusa que o projecto se integra na iniciativa D-Evolução, que identificou nove áreas prioritárias em Portugal, avançando de imediato com três, nomeadamente no Parque Natural Peneda-Gerês, na Serra do Caldeirão e no Estuário do Tejo, este último focado na preservação dos cavalos-marinhos.
“Para nós, esta intervenção é muito especial, porque liga as pessoas com essa espécie emblemática que são os cavalos-marinhos”, disse, adiantando que a ideia do projecto é ser potencialmente atractivo para outros municípios, outras empresas que se queiram juntar, outros cidadãos que queiram também ligar-se ao projecto, transformando esta acção num caso de estudo que possa ser transportado para outras realidades, “não só no Estuário, mas também em outros pontos onde existem cavalos-marinhos”.
Já Duarte Mata, director do Departamento de Intervenção Ambiental, Clima e Sustentabilidade da Câmara Municipal de Almada (CMA), destacou a importância do envolvimento de toda a comunidade nestes projectos, para que valorizem a sua protecção e defesa.
“Uma das coisas que este trabalho sempre fez foi dialogar com as comunidades locais e esse diálogo acaba por trazer pessoas para a defesa desta causa”, disse, adiantando que para a zona da Trafaria o projecto de conservação da população de cavalos-marinhos é também um factor de promoção turística e territorial.
A autarquia de Almada tem estado envolvida há já algum tempo nas acções de protecção dos cavalos-marinhos. Em 2022, o município fez um protocolo com o ISPA -Instituto Universitário de Ciências Psicológicas, Sociais e da Vida, com um investimento municipal de quase 70 mil euros, para o estudo da população de cavalos-marinhos existente na frente ribeirinha do concelho.
Ao abrigo do protocolo, foram realizados 86 mergulhos em 13 locais distintos da frente ribeirinha de Almada (desde a Cova do Vapor ao Alfeite), tendo sido registados, entre Stembro de 2022 e Julho de 2023, mais de 60 exemplares de cavalos-marinhos e de marinhas.
Mais do que uma solução mecânica, o projecto assume-se como um laboratório vivo. Os promotores da iniciativa sublinham que a área não se destina ao turismo ou ao mergulho recreativo, mas sim à conservação estrita. Nos próximos meses, equipas de biólogos vão realizar mergulhos de monitorização periódicos para avaliar a taxa de ocupação das estruturas, ao mesmo tempo que avançam com acções de sensibilização junto da comunidade piscatória local para mitigar as capturas acidentais. Através da economia circular aplicada à conservação, no Tejo testa-se uma resposta criativa para segurar uma das suas espécies mais icónicas.
Esta intervenção resulta de uma parceria técnico-científica entre a WWF Portugal e a MARDIVE – Associação Ciência e Educação para a Conservação da Biodiversidade Marinha, e conta com o financiamento principal do Lidl Portugal, o apoio financeiro da marca Oliveira da Serra e dos Pastéis de Belém, o contributo de dezenas de doadores individuais e a colaboração de diversas entidades, entre elas a CMA, o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) ou a União das Juntas de Freguesias da Caparica e Trafaria (UJFCT) . Em conjunto, estes parceiros contribuem para um objectivo comum: restaurar a natureza e proteger a biodiversidade do Estuário do Tejo.
Caso queira fazer parte do projecto D-evolução, e ajudar a preservar os cavalos-marinhos da Trafaria e a restaurar o ecossistema do Estuaário do Tejo, pode fazê-lo aqui.
ANP|WWF, cavalos-marinhos, D-Evolução, Estuário do Tejo, Natureza, restauro, Trafaria, WWF Portugal
