No Verão de 1983 a Costa da Caparica conquista a primeira praia de surf: a do CDS
O surf era mal visto. Os poucos que se atreviam a entrar no mar com uma prancha eram vigiados ao longe, através de binóculos. Para os cabos do mar (vigilantes da praia) aquilo era uma provocação. O surf não constava nas leis, mas a regra era clara: como os barcos ou o windsurf, só a mais de 300 metros da costa.
Foi essa a resposta que Carlos Oliveira recebeu da Capitania da Trafaria, quando quis perceber o enquadramento legal da nova paixão dos filhos. Nada de manobras junto à areia: o surf era tolerado — mas longe.
Os cabos do mar circulavam de binóculos em punho, atentos a cada movimento. Parecia que se dedicavam a criar sarilhos aos miúdos que ousavam surfar demasiado perto da rebentação. Mas nem todos estavam do lado da autoridade. Entre os nadadores-salvadores havia aliados. O principal era o Corvo, que dava sinais de apito sempre que os cabos estavam por perto. Não só os avisava, como lhes escondia as pranchas na sua barraca, para que pudessem escapar discretamente da vigilância. Às vezes, passavam mais de cinco horas dentro de água, a tremer de frio, à espera que os binóculos da repressão desistissem da vigia.
Foi num desses dias quentes, na Praia Nova, que tudo se precipitou. Cali, Salomé e Tiaguinho — três jovens inseparáveis — foram apanhados pelos cabos do mar e levados à Polícia Marítima (com eles tb estava o Paulinho) . Já devia passar das nove da manhã; o primeiro tema da praxe já tinha tocado — “Amor de Verão”, do Zé Malhoa, que abria os dias da época balnear na cabine de Som! Na esquadra, a identificação foi rápida. Cali tinha 19 anos — era maior de idade. Salomé, com 16, e Tiaguinho, com apenas 12, foram libertados.
Mas o Cali ficou. E não ficou lá muito bem. Foi agredido. Não só por ter surfado dentro da zona proibida, mas também — dizem — por ter dito, com aquele humor atrevido que sempre teve, que se fosse filho do Mário Soares nada daquilo teria acontecido. Saiu dali “ferido”, humilhado e a chorar. Quando se reencontrou com os amigos, contou-lhes o que se tinha passado. Salomé, revoltada, pegou em pedras e atirou-as à Capitania — num gesto de raiva adolescente que ainda hoje se recorda com uma mistura de orgulho e incredulidade.
Em casa, os pais não acharam graça nenhuma. A mãe do Tiago e da Salomé, furiosa, exigiu saber quem era o cabo envolvido. Não podiam deixar aquilo passar. Foram à Capitania do Porto de Lisboa, onde o pai da Salomé tinha alguns contactos e influência. Queriam respostas — e justiça. O resultado? Um pequeno avanço para os surfistas da Costa da Caparica: foi-lhes atribuída oficialmente uma praia para a prática da modalidade. A Praia da Vitória — na altura já conhecida por “Praia do CDS”, nome que ainda hoje se mantém.
Mas havia condições. Uma delas: a colocação, todos os dias, de duas placas de madeira feitas por eles, com medidas específicas, letras a preto, rebordo azul e setas vermelhas a indicar o local autorizado. Como a praia não era vigiada, eram os próprios surfistas que as montavam de manhã e recolhiam ao fim do dia. As placas tornaram-se parte do ritual — uma espécie de preço a pagar pela conquista.
Hoje, quando se vêem miúdos a surfar de manhã à noite, com leash no pé e GoPro na prancha, é fácil esquecer que o surf já foi um acto de rebeldia. Mas foi. E talvez ainda seja — não por ser proibido, mas por continuar a ser um exercício de liberdade, de resistência ao tédio, de desafio ao previsível. À sua maneira, o Corvo, o Cali, a Salomé , o Tiaguinho e o Paulinho, não só fintaram os cabos do mar — abriram caminho.
E não, não se pense que só se surfava na Praia do CDS! A legalização daquele areal foi uma pequena vitória — simbólica, até — mas os miúdos continuaram a ir onde sempre foram: às ondas boas, aos picos escondidos, às praias onde o mar chamava mais alto. Porque o surf nunca quis saber muito de fronteiras ou autorizações.
E ainda bem.
Almada Online, Costa da Caparica, praia do CDS, Sandra Barros Simões, Surf










