Petição online por estátua para Ladrão, o cão de Almada

Almadenses relembram com saudade a vida do patudo mais famoso da cidade e pedem uma homenagem que fique na história

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Os almadenses não esquecem o Ladrão / Dão, que partiu no Dia Internacional do Animal, a 4 de Outubro. São muitos os testemunhos deixados na página do Facebook deste patudo, que relatam momentos partilhados com o cão mais famoso de Almada, que com os anos se tornou na mascote da cidade. Existe até uma petição online que pede à Câmara Municipal de Almada (CMA) uma estátua que eternize este ladrão de corações.

O Ladrão é quase uma lenda conhecida por todos os almadenses. Julga-se que nasceu no Ginjal, num matilha que por ali andava mas ninguém sabe ao certo a idade que tinha. Apontam-se os 17, 18 anos e, há até quem diga 20. O rafeiro, ao que consta arraçado de pastor alemão e pitbull, teve uma vida cheia nas ruas da cidade de Almada e, com a sua simpatia e meiguice conquistou amizades ao longo dos anos. Deixa descendência numerosa.

São muitas as histórias que o envolvem, desde andar na companhia de pescadores no Ginjal, a ter tido uma família que alega que ele fugiu. Nessa altura era conhecido como o cão do Espanta Lobos, o patriarca dessa família de vendedores de Cacilhas. Nas ruas, Ladrão ganhou o nome ao roubar peixe e carne grelhada de vários restaurantes da cidade quando tinha fome, mas muitas pessoas alimentavam-no sempre que podiam. Uma casa de frangos existente em Cacilhas, dava-lhe frango assado dessossado e tinha um balde com água à porta sempre à sua espera. Alguns talhos também lhe reservavam sobras que ele nunca negava. Ladrão era um assíduo madrugador no Mercado de Almada, onde o mimavam com petiscos. Conta-se também que apanhava o metro e saía na estação que desejava.

Olhos brilhantes e meigos, lingua de fora de contente que lhe conferia um sorriso aberto e, cauda a abanar. Era assim que Ladrão saudava todos que lhe quisessem afagar o pelo, que foram centenas, senão milhares, ao longo dos anos. Gostava de crianças, de posar para fotografias e de frango assado.

Foram várias as pessoas que tentaram adoptá-lo ao longo da sua vida sem sucesso. Ele livre, jovem e feliz, voltava sempre para as ruas de Almada, que percorria do Cristo-Rei a Cacilhas. Era o dono de todas as ruas. Quando Almada ainda tinha canil municipal de abate, foram várias as vezes que Ladrão escapou aos funcionários que o tentaram apanhar, até desistirem de o tirar da rua.

Em 2017, apareceu num vídeo (3: 07) do humorista Diogo Batáguas, sendo referido como “o animal de estimação de Almada”. Darksunn fez-lhe uma música, e numa entrevista de 2021 à Ritmos e Batidas apelidou-o de “eterna mascote da cidade” e “cão comunitário”, dizendo ainda haver “pessoal que se junta para meter dinheiro para pagar as vacinas ou algum tipo de tratamento ao Ladrão”.

Quando já coxeava, em 2018, conheceu Elsa Ribeiro, a tutora que ele próprio escolheu para o acolher na velhice. De início, ia ter com ela sempre que passeava o seu patudo Charlie no relvado e seguia-os até casa. Elsa começou por o deixar entrar e dar-lhe um tapete para dormir. Habituado a andar na rua e a outros pitéus, Ladrão não demonstrava interesse pela ração de Charlie, mas bebia água, comia bolachas e ia à sua vida. As visitas de Ladrão tornaram-se rotina e Elsa Ribeiro desparasitou-o, chipou-o, tratou-lhe das otites.

Elsa decidiu adoptá-lo oficialmente, mas a adopção não foi fácil de início. Ladrão continuava a estar em regime aberto e nos seus passeios por Almada tiravam-lhe a trela e os peitorais. Muitos almadenses achavam que era um cão livre que se deveria manter na rua, reclamavam-no como seu, de todos. Ladrão ficava cada vez mais em casa, porque cada vez mais lhe era difícil andar, até que deixou de o conseguir fazer por perda do movimento nas patas traseiras. Foi diagnosticado com osteoartrite e demência.

Sabendo que ele adorava andar na rua, Elsa ainda o passeou várias vezes com o auxílio de uma petsitter. Até que com a ajuda de outros tutores fez uma angariação de fundos que cobriu os custos de uma cadeira de rodas feita à sua medida, medicação e consultas. Tudo foi angariado num dia com a ajuda de muitos. Ladrão, agora um cão caseiro passou a chamar-se Dão e, com a ajuda da cadeira de rodas continuou a sair à rua com a sua tutora e a receber festas dos almadenses por onde passava. Continuava a salivar sempre que o jantar era frango assado.

Na primeira edição do Rafeiro de Ouro, ganhou o prémio de Honra, entregue por Inês de Medeiros, presidente da CMA que na ocasião disse que “Almada é tão especial que em vez de ter um cão de suporte emocional de uma única pessoa, tem um cão de suporte emocional de uma comunidade inteira – o Ladrão de Almada. Acompanhou várias gerações, vivia na rua, mas sempre foi acarinhado pelos almadenses, sobretudo pelas crianças”. O prémio foi entregue em representação “de todos quantos se cruzaram com este cão fantástico. (…) Um município que consegue demonstrar tanto carinho, amor e reconhecimento a um cão maravilhoso como é o Ladrão é francamente um município especial”, realçou ainda Inês de Medeiros, agradecendo ao Ladrão “toda a alegria e carinho que deu a tantas pessoas de Almada, mas também à sua tutora que está a cuidar dele no final da sua vida.”

Durante quase um ano, Dão usufruiu do seu “Porche” e era com grande alegria que continuava a passear por Almada com a sua tutora. Dia 4 de Outubro, foi o dia que este cão emblemático e resistente partiu, para enfim descansar de uma vida cheia de aventuras. Não se fizeram esperar as homengens nas redes sociais e os relatos de momentos partilhados com Ladrão / Dão. Há quem conte que os acompanhava a casa ou ao cacilheiro na ida para o trabalho; quem diga que aparecia sempre nas noitadas de Almada Velha; quem acrescente que era o terror dos gatos; que gostava de dormir de papo para o ar como um eterno cachorro; quem o relembre na vitória de Portugal no Europeu a partilhar a alegria dos almadenses que assistiram ao jogo em directo no Parque Urbano Comandante Júlio Ferraz (também conhecido por Central Parque); quem o recorde dos piqueniques em que se fazia de convidado no Jardim do Rio. Todos expressam saudade e pesar e, muitos pedem uma homenagem mais duradoura. Mencionou-se um mural, mas à imagem de Akita Hachikō, o que mais foi sugerido espontaneamente foi uma estátua, em homenagem ao cão que faz há muito tempo parte da história de Almada.

Decorre uma petição online que pede à CMA uma estátua para o cão que roubou a muitos corações. Vivemos tempos onde os heróis que gerem consenso e pacifiquem são urgentes. Porque não hão eles de ser um cão? Mas não um cão qualquer. Almada só tem uma mascote herói, o Ladrão.

Já na sua vida de Dão, no primeiro dia que experimentou a cadeira de rodas e pode andar novamente.
Sofia Quintas

Directora e jornalista do Almada Online

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