Quinzena de Dança de Almada – Entrevista a Ana Macara

A 31ª Quinzena da Dança de Almada inicia-se amanhã, 21 de Setembro. O Almada Online entrevistou a sua directora artística, a professora Ana Macara

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Foi há 31 anos que as professoras Ana Macara e Maria Franco iniciaram o que é hoje a Quinzena de Dança de Almada – International Dance Festival. Conheceram-se num festival de dança, a ideia surgiu e, as mãos fizeram. Na altura, não havia a oferta nem os espaços culturais existentes actualmente em Almada. Não havia festivais de dança, muito menos dedicados à dança contemporânea, sendo a área dominada pela dança clássica. A determinação, dedicação e amor pela dança de ambas, fez este evento ser pioneiro e único em Portugal. 

Com enfoque na dança contemporânea e, com uma Plataforma Coreográfica Internacional que junta bailarinos, produtores e programadores culturais, a Quinzena de Dança de Almada marca a rentrée cultural todos os anos em Setembro e, atrai coreógrafos e bailarinos de todo o mundo ao concelho de Almada. A professora Ana Macara, directora artística da Quinzena de Dança, contou-nos como foi desbravar e ousar colocar a dança contemporânea no mapa de Portugal e, Almada no mapa da dança contemporânea internacional.

Almada Online (AO): Como surgiu a ideia de uma Quinzena de Dança em Almada dedicada à dança contemporânea?

Ana Macara (AM): Na realidade, quando a Quinzena de Dança de Almada surgiu, ha 31 anos, nem estávamos a pensar só na dança contemporânea. Na altura não havia festivais de dança, foi um ano em que começou o nosso festival, começou o Danças na Cidade e, nós achámos que era importante haver um festival de dança, como já acontecia noutros países, que desenvolvesse a dança e, foi o que aconteceu. A dança começou a desenvolver-se em vários sectores, nas danças de salão, nas danças de rua e, nós centrámo-nos no nosso maior interesse pessoal e que achamos que precisa mais de divulgação, que é a dança contemporânea. Não existe tanto conhecimento sobre sobre este sector da dança, mesmo ao fim destes 31 anos. Há quem aprecie muito, mas nem toda a gente conhece, sequer. O nosso trabalho existe para que, por um lado as pessoas da dança possam ver mais espectáculos e, por outro a dança contemporânea seja levada ao público em geral, que muitas vezes não conhece ou não entende a sua linguagem. Às vezes há dificuldade em compreender e, Almada é uma cidade que tem muita tradição de teatro e, no final dos espectáculos da Quinzena há sempre conversas sobre o que foi apresentado e, percebemos que às vezes as pessoas sentem falta da narrativa do teatro. A dança tem de ser vista de uma forma diferente, o tipo de narrativa é diferente, o corpo é fundamental e, às vezes as pessoas não estão habituadas. É um caminho que se vai fazendo. Têm surgido muitos outros festivais, actualmente há muito mais gente a fazer dança, muito mais gente a fazer dança contemporânea. Acho que o que fazemos não tem sido em vão.

AO: Foram a “semente” de muitas outras coisas…

AM: Sim, sobretudo a professora Maria Franco que tem tido milhares de alunos ao longo dos anos. Desde os anos 70 até agora, sempre se dedicou ao ensino da dança e, constatou que estava a formar pessoas e era necessário uma Companhia para essas pessoas trabalharem. Depois de termos a Companhia como estrutura, decidimos criar um festival para divulgar ainda mais a dança.

AO: Como se conheceram?

AM: Conhecemo-nos na dança, no tempo do Grupo Experimental de Dança Jazz, em Lisboa, onde eu trabalhava. Ficámos muito contentes quando a Maria entrou, porque ela era uma excelente bailarina. Não estava muito na área da dança jazz, mas foi entrando e, nós também tínhamos peças que não eram propriamente dança jazz, eram mais dança contemporânea. Na altura em Almada havia pouca coisa, havia as colectividades e a professora Maria Franco. Muitos bailarinos que estão a trabalhar actualmente, passaram por ela.

AO: Quais são as vossas expectativas e objectivos na edição deste ano da Quinzena da Dança de Almada?

AM: Um dos objectivos é continuarmos a desenvolver a nossa visibilidade internacional. O Festival inicia-se com a Plataforma Coreográfica Internacional, no dia 21 de Setembro, que normalmente traz cá cerca de uma centena de artistas internacionais, entre coreógrafos, bailarinos, técnicos, programadores. Este é um espaço de convívio, de troca de conhecimentos e, de intercâmbio de trabalho. Normalmente os bailarinos vêm cá, com a perspectiva de depois irem a outros festivais, a outros espaços. É um ponto de encontro. Temos sentido um grande interesse a nível internacional à chamada que fazemos à Plataforma. Recebemos cerca de 500 propostas anuais, este ano tivemos 490 propostas de todo o mundo, de todos os continentes. Dessas 490, só podemos seleccionar duas dezenas aproximadamente, não temos possibilidades para trazer mais. 

AO: Como fazem a selecção?

AM: É um processo difícil. É a parte mais desagradável, ter de dizer que não a muitas propostas, algumas delas bastante boas, mas não podemos receber todas. Há algumas mais fracas, mas há uma altura no processo de selecção, em que se torna mais difícil porque a qualidade de todas é muito boa. A maioria são bons trabalhos, no mundo inteiro há muita gente a fazer dança contemporânea. Temos de ver, escolher, perceber o que é possível apresentar ou não, de cerca de 500 candidaturas todos os anos. Nesta parte, só eu e a professora Maria Franco, com a colaboração da nossa produtora Carlota Machado, é que fazemos a triagem. É muito trabalho, mas ao mesmo tempo dá-nos uma grande visão do que se faz no mundo inteiro neste sector da dança. É muito interessante, há certas tendências que cada ano são diferentes. Por exemplo o ano passado havia muitas candidaturas com braços entrelaçados. A dança contemporânea é muito vasta, mas é um mundo relativamente pequeno, quando comparado com outras áreas. Chegam-nos coisas da Ásia: Singapura, Coreia, China por exemplo. São países que no sector da dança contemporânea têm uma sensibilidade eventualmente diferente, mas a linguagem é a mesma. A linguagem da dança contemporânea está muito globalizada. Às vezes em África, há linguagens um pouco diferentes. Apesar de terem a mesma linguagem, a base técnica e a base conceptual, cada cultura acaba por ter as suas especificidades, por exemplo, do México vêm sempre coisas muito diferentes, que não estamos nada à espera. De África também, mas de África é sempre mais difícil de trazer, normalmente há problemas com os vistos, ainda continua a ser um processo complicado e, outras vezes, também há problemas com as autorizações de saída do país de origem. Mais do que uma vez tivemos de cancelar companhias que queríamos trazer de África e não foi possível, não conseguiram sair do país. Os objectivos são sempre Impulsionar a plataforma, trazer muitos espectáculos diferentes a Almada. Temos sempre também por objectivo a estreia da Companhia de Dança de Almada. Este ano, vamos estrear uma peça da Inês Pedrouco, chamada ShortCut, no dia 30 de Setembro, no Teatro Municipal Joaquim Benite.

AO: O que destaca na programação deste ano?

AM: Temos um projecto muito interessante, de cooperação entre a Roménia e Madagáscar. Vem um bailarino de Madagáscar, que passou por todo o processo difícil de conseguir obter visto. A peça chama-se Ramanenjana e, é sobre tradições de Madagáscar retrabalhadas, com vídeo, com palavra também, está entre o documentário e o espectáculo ao vivo. Temos também uma companhia espanhola a Siberia Danza, da Paloma Muñoz, à qual esperamos que as pessoa adiram, porque é um trabalho muito interessante. Não é fácil trazê-la, foi preciso apoio da Embaixada Espanhola, e de outro programa cultural espanhol. A peça chama-se L.E.V.E e pode ser vista no dia 7 de Outubro, no Auditório Osvaldo Azinheira, na Academia Almadense. Será uma boa aposta, para quem quiser vir ver. Temos também a peça Sons Mentirosos Misteriosos, da Sofia Dias e do Vítor Roriz, no dia 30 de Setembro, no Auditório Fernando Lopes-Graça. Destaco ainda a noite de vídeo, um projecto do Luís Antunes, com filmes de 13 coreógrafos nacionais, Cisnografia-A Reescrita do Cisne, no dia 7 de Outubro no Museu de Almada – Casa da Cidade. São reinterpretações da morte do cisne, do 13º movimento do “Le Cygne” da suite “Le Carnaval des Animaux” de Camille Saint-Säens, por coreógrafos uns mais conhecidos que outros, mas todos com um trabalho muito interessante. São peças muito boas, às quais esperamos que o público almadense adira em força.

AO: O que distingue esta edição das anteriores?

AM: A estrutura é a mesma, mas temos uma selecção de videodança que considero mais pertinente, tudo o que veio é trabalho muito bom, que vale a pena ser visto. Temos uma residência, que não é uma novidade, também tivemos noutros anos, em que aproveitamos vir cá um coreógrafo, que coreografa para a Companhia, e também para os alunos da escola. Uma coreografia que é uma reposição e outra que é uma criação, Odd Nights e Wuthering Days, são o que encerra a nossa Quinzena no dia 8 de Outubro às 17h, no Auditório Osvaldo Azinheira, na Academia Almadense. Tentamos manter a estrutura, é algo que nos agrada, a questão está no que chega, nos conteúdos que trazemos. As candidaturas têm a ver com a mostra de vídeo e a plataforma, os espectáculos são uma selecção que nós vamos fazendo, do muito que vemos, de outros festivais onde vamos, sujeitas às nossas limitações orçamentais. Não conseguimos trazer todas as companhias que mais ambicionamos porque temos um orçamento que é muito limitado, mas também não podem ser sempre os mesmos, tem de haver novidade. Tentamos sempre trazer coisas novas, companhias que ainda não tenham vindo. Muitas são tão boas que não resistimos a trazer uma segunda vez, mas é nossa política não repetir. 

AO: Como coordenam a vontade de trazer artistas renomeados e ao mesmo tempo apoiar artistas emergentes?

AM: A própria Companhia de Dança de Almada tem um programa com artistas emergentes e outro programa com alguém que já trabalhou mais e, já provou o seu mérito. Na Quinzena de Dança as coisas também dependem do que acontece durante esse ano, às vezes há propostas que são muito aliciantes por parte de jovens que tentamos apoiar, outras vezes não acontece isso e tentamos ir buscar coreógrafos já conceituados. É um jogo de equilibrismo entre quem conseguimos trazer e quem gostaríamos de trazer. 

AO: 31 anos depois o que acha que mudou na dança contemporânea e na relação da Quinzena de Dança com Almada e com o público almadense?

AM: Tem havido uma evolução do público almadense em relação aos espectáculos culturais em geral, não só em relação à Quinzena. Isso nota-se porque também há muito mais coisas a acontecer. Quando nós começámos ainda não havia o Auditório Fernando Lopes-Graça, o Teatro Azul [Teatro Municipal Joaquim Benite], o teatro da Academia, ainda cá fizemos um espectáculo antes da remodelação, estava a cair aos bocados, também fizemos espectáculos no Teatro António Assunção, quando ainda não era António Assunção, que também estava péssimo na altura. Foi uma altura pioneira, durante estes anos foram cinco espaços que ou foram criados de origem ou reabilitados e, são espaços que agora estão sempre cheios. Neste momento há poucos espaços culturais porque há muita procura. Nós neste momento já temos as salas marcadas para 2024.

AO: Quantas pessoas formam a vossa equipa?

AM: A tempo inteiro para além da Maria Franco temos mais três pessoas e algumas trabalham para a Quinzena e para a Companhia. Depois, há a equipa da escola que tem mais uma pessoa a tempo inteiro e os professores todos. Há a parte técnica, acaba por ser muita gente. Temos pessoas a tempo parcial que contratamos só para a Quinzena e, temos voluntários. Este ano contratámos duas pessoas só para a Quinzena, durante seis meses. Tem de ser porque é muita coisa, muitos contactos, muito para organizar num espaço de tempo pequeno, em várias localizações, que obriga a que haja várias equipas.

AO: Nunca pensaram alargar o tempo? fazer por exemplo o mês da Dança?

AM: Houve um ano que durou quatro fins-de-semana, por causa dos espaços, mas torna-se muito difícil para a equipa. O ritmo da Quinzena durante um mês torna-se muito difícil. Este ano temos três fins-de-semana, uma Quinzena com três fins-de-semana. 

AO: Acha que o interesse do público almadense em relação à dança contemporânea tem aumentado devido à Quinzena de Dança?

AM: Esperamos que sim. Acho que isso se calhar não é tão visível, porque há muitas outras coisas a acontecer. Do nosso ponto de vista isso é bom, já não é só a Quinzena que existe. Ao início não havia mais nada. Agora a Casa da Dança também apresenta algumas coisas de dança contemporânea, o Festival de Almada também e, há pessoas que estão cá em Almada a criar e apresentam os seus trabalhos. Há muito mais oferta. Muitas dessas pessoas passaram por aqui e nesse aspecto sentimo-nos muito contentes, sentimos que a Companhia e a Quinzena têm tido um efeito multiplicador. 

AO: O que falta fazer na Quinzena que ainda não tenham conseguido realizar?

AM: Há algumas companhias que ambicionamos trazer há vários anos, mas para isso precisaríamos de parcerias que têm sido difíceis de encontrar. Continuamos a tentar, porque acreditamos que pode vir a ser possível. Há alguns projectos também muito interessantes que às vezes conseguimos apoiar, outras vezes não conseguimos. Há trabalhos com pessoas que não são bailarinos que gostaríamos de implementar. A escola tem um grupo sénior, tem um grupo de crianças desfavorecidas do Centro Social Paroquial Padre Amadeu Pinto, faz muitos espectáculos com pessoas que não são profissionais. A dificuldade que temos é que esses grupos normalmente começam a trabalhar em Outubro e, terem coisas preparadas para apresentar na Quinzena é muito difícil. As coisas são preparadas, em Junho acabam as aulas, depois vão de férias e, voltar a retomar torna-se difícil. Nós gostávamos de conseguir englobá-los na Quinzena. 

AO: Que apoios precisariam para trazer cá essas companhias que tanto desejam e ainda não conseguiram?

AM: A nível de alojamentos temos uma parceria com o Hotel que nos faz descontos, poderia ser muito mais, mas não é desprezível. Precisávamos de um patrono. Temos lutado por isso, mas não temos conseguido. Houve uns anos que houve alguns apoios, mas neste momento não temos nenhum patrono e isso faz-nos falta. Estamos dependentes de um apoio aqui, outro ali. A Câmara Municipal de Almada tem sido um apoio constante ao longo dos anos, mas os preços não estão estáveis. Desde que na CMA está este executivo actual os apoios não têm acompanhado a subida dos preços e, alguns apoios logísticos que tínhamos antes deixámos de os ter. Não nos queremos queixar, mas com a inflacção, a nova lei da Segurança Social, o aumento dos ordenados mínimos, tudo subiu. As despesas da Companhia practicamente duplicaram e os subsídios não acompanharam esse aumento. Nós pedimos sempre um aumento, mas não se tem verificado. 

AO: Como vê o futuro da Quinzena?

AM: É possível continuar a fazer parcerias com a Embaixada de Espanha, com a Mostra Espanha. Estamos a desenvolver novas parcerias internacionais, porque começámos a entrar cada vez mais no circuito dos festivais internacionais. Devido à Plataforma e à nossa presença. Temos ido a outros festivais, onde conhecemos muitos programadores e directores de companhias. Há intercâmbios e a implementação de parcerias de diferentes tipos. Estive há pouco na Roménia, no âmbito de uma parceria, vem cá uma companhia da Roménia e nós fomos lá. A Companhia de Dança de Almada dançou lá, eu estive no júri de filmes de dança e tudo isto é bom, não só porque vemos novos espectáculos, mas também porque vemos outro tipo de organização e dá-nos muitas ideias para o que podemos fazer, como podemos coordenar-nos. Tem sido muito importante. A Plataforma tem tido um papel importante neste intercâmbio, se bem que a plataforma também tem tido uma evolução. Nos primeiros anos recebíamos cerca de 100 candidaturas, a qualidade não era a mesma que a actual, as tecnologias também evoluíram ao longo dos anos o que tem feito crescer a qualidade e a quantidade do que recebemos. 

AO: Há algo mais que queira realçar sobre a Quinzena de Dança de Almada?

AM: Quero realçar que a professora Maria Franco é que é o “motor” disto tudo, eu só faço a parte da direcção artística. A Maria Franco está a par de tudo, coordena tudo e está a 100% na Quinzena, embora ainda dê aulas, possui uma capacidade de trabalho absolutamente espantosa. Quero também convidar o público a vir ver a edição deste ano da Quinzena, há trabalhos imperdíveis aqui mesmo à porta de casa.

A 31ª edição da Quinzena de Dança de Almada – International Dance Festival, tem iníco amanhã, dia 21 de Setembro às 21h30, no Auditório Fernando Lopes-Graça, com a Plataforma Coreográfica Internacional, que na noite de estreia dará destaque a Israel. Serão apresentadas coreografias israelitas “Accounting” de Edya Stern, que coloca questões sobre a capacidade de dar, sacrificar e apoiar os outros; “There Was Times” com coreografia e performance de Yasmin Gariv e Itamar Galina, que fala sobre uma experiência íntima, relacionável e universal, evocando emoções de nostalgia, a passagem do tempo, memórias queridas e histórias de amor duradouras; “60,000 GRA(HA)M” de Dana Ruttenberg, onde a autora questiona a sua capacidade e necessidade de se apoiar, ser agarrada, dar peso e, a relação inesperada entre o mítico e o pessoal, através de lifts da sua obra e, de “Thoughts About Living” de Ravid Abarbanel, que aborda o constante movimento entre a partida e o regresso.

Sofia Quintas

Directora e jornalista do Almada Online

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