Teresa Ayala: pioneira do surf feminino na Costa da Caparica e em Portugal
Dias depois de Teresa Ayala completar a sua sexta capicua — 66 anos — volto-me para a sua história, entrelaçada com esta terra de sal e horizonte aberto, onde aprendeu a amar o mar: a Costa da Caparica.
Formada em artes visuais e produção de espectáculos, dedicada à história da cultura e das artes da Costa da Caparica
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Foi ali, muito antes de se saber o que era o surf, que tudo começou. Os pais da Teresa conheciam a Costa desde os anos 40. Entre marés e verões longos, apaixonaram-se. Alugaram uma casa todo o ano na Avenida 1.º de Maio, perto da Estalagem Colibri. E, desde o nascimento dos três filhos — o Tó, a Isabel e a Teresa — fizeram da Costa o seu refúgio: fins de semana, férias grandes, feriados — sempre que podiam.
A Costa foi o primeiro território de descoberta da Teresa. E o mar, o seu lugar secreto. Aos 13, já fazia carreirinhas nas ondas. Tinha 16 quando viu, pela primeira vez, alguém a surfar com uma prancha — pela pinta, devia ser estrangeiro, “bife” ou francês. Ficou fascinada. Mas só dois anos depois teve oportunidade de experimentar. Até lá, contentava-se com os colchões repimpa.
Foi em 1977, aos 18, que começou a surfar com pranchas emprestadas. O namorado da altura, Nuno Taveira, ofereceu-lhe uma twin fin vermelha, com rails azuis e o desenho de um carvalho. Mas essa não contava: a primeira prancha a sério tinha de ser comprada com o seu esforço. Arranjou então trabalho numa churrasqueira em São João da Caparica e, com os 5 contos que juntou, comprou uma prancha a um francês. Nunca se entendeu com ela. Era horrível — uma single fin 6’2 azul, de marca branca. Meses depois, vendeu-a a outro francês por 8 contos.
A primeira verdadeira chegou pouco depois. Comprou-a a um americano chamado Steve, amigo do Nuno Jonet, que conheceu em Aveiro. Custou 7 contos. Uma single fin 6’8” que ainda hoje guarda com carinho. Foi com essa prancha que começou a escrever o seu caminho no mar — e ainda lhe sobrou 1 conto!
O início foi feito de intuição, vontade e amor ao mar. Durante um ano e meio foi assim — mais paixão do que técnica. Mas houve momentos de puro deslumbramento. Um deles ficou gravado para sempre: a primeira vez que cortou uma onda limpinha, a fazer trimming, a andar na parede da onda. Foi na Praia do Paraíso, numa twin fin do Miguel Cueca. Uma conquista luminosa — nunca mais a esqueceu.
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Teresa com 17 anos junto à bola Nívea que existia no pontão do Bento
Nos anos 90, tornou-se instrutora de surf e bodyboard. Realizou os cursos de Grau I e II, e também o primeiro curso de juízes. Um passo marcante no percurso de uma pioneira — e um exemplo que inspirou outras mulheres a aventurarem-se num mar ainda dominado por homens.
O primeiro patrocínio chegou da Waterline, do Miguel Taveira — uma parceria de 25 anos que ainda hoje recorda com gratidão. Durante muito tempo, surfou sem fato. Divertia-se a ver os rapazes cheios de frio, enquanto ela, sem qualquer proteção, parecia indiferente à água gelada.
Guarda da Costa memórias profundas e felizes. Lembra-se da vila antes das grandes construções, quando ainda tinha um ar quase secreto, quase selvagem. Era o lugar onde se sentia mais à vontade para brincar e conviver com os amigos ao ar livre. Para ela, a Costa será sempre mar, juventude e, sobretudo, essa sensação de poder respirar por inteiro — liberdade. E, já agora, música. Samba Pa Ti, dos Santana, soa-lhe como banda sonora de uma época que ficou.
Partilhou ondas com nomes históricos dos inícios do surf na Caparica — Nuno Taveira, João Boavida, António Pereira Caldas, Miguel Cueca, Carlos Carolo e Quim Comissário. Mais tarde, com os Brunos, Miguel Katzenstein, João (Morto), Pedro Pais e Paulo Soviético.
Hoje, Teresa Ayala continua ligada ao surf com a mesma entrega. É juíza de surf, bodyboard, longboard e bodysurf — e chegou até a fazer o catering de alguns campeonatos. Continua a surfar com regularidade e participou em várias competições regionais, nacionais, taças de Portugal, e também competições internacionais, em França e em Portugal.
Já a viver em Peniche, fundou em meados dos anos 90 a primeira secção de surf e bodysurf do Clube Naval local e organizou o Circuito Inter-escolas da região Oeste. E, aos 65 anos, tornou-se rececionista na Baleal Surf Station — onde ainda se mantém.
Teresa Ayala foi a primeira mulher a fazer surf na Costa da Caparica — e em Portugal. Uma verdadeira pioneira. O mar que a acolheu jovem continua a ser o seu lugar. E a sua história — feita de coragem, amor e persistência — inspira quem chega agora, de prancha na mão, a olhar o mesmo horizonte onde tudo começou.
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