10 de Março…a verdade escondida pelos números

Antes de tudo uma ressalva, esta crónica é uma análise aos resultados das eleições, escrito após o escrutínio e durante as reuniões do presidente da república com os partidos políticos, logo no seu teor apenas conterá uma análise aos resultados, incluindo já votos dos emigrantes, mas não são analisadas as opiniões e os cenários governativos traçados ao longo dos últimos dias pelos partidos, nem tão pouco aqueles que possam já estar “em vigor” no dia da publicação.

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Dia 10 de março de 2024, cerca das 19h toca o telefone, era a mãe da minha esposa, que com grande preocupação nos ligava da Sicília, Itália, a dizer que noticiavam que o Basta era o grande vencedor das eleições em Portugal, e que a extrema-direita se afirmava em mais um país europeu. O mais estranho disto, não é o erro na tradução do Partido Chega, mas como é que, ainda faltando uma hora para o fecho das mesas no Açores, em Itália já se comentavam resultados desconhecidos da maioria de nós.

A verdade é que aquele comentário vindo dos nossos vizinhos mediterrânicos não estava assim tão errado, saberíamos uma hora depois, que efetivamente, após alguns anos de bipartidarismo, existia alguém que derrubava a normal equação de um PSD sozinho ou coligado ou de um PS (com ou sem geringonça).

Com um crescimento de 193% face a 2022 o Chega consolidou a sua posição como força política, alcançando assim o maior crescimento da noite. No entanto, no outro extremo, um partido conseguiu crescer de forma semelhante, o Livre, cresceu 188% em relação a 2022, certo de que passar de 71 mil para 128 mil eleitores não é igual a 399 mil para pouco mais de 1 milhão e 100 mil. Mas, destes números, retiramos desde já os dois vencedores da noite de 10 de março – Chega e Livre. 

Vencedores que vão escrever, por certo, páginas bem diferentes naquele que será o “diário de bordo” desta legislatura. Um terá muito maior poder de influência que o outro, um terá maior capacidade de estabilizar ou destabilizar um governo, mas em política poderá a qualidade ser medida pelo número de deputados? O que poderão fazer 48 que 4 não façam e vice-versa. Rui Tavares e André Ventura têm duas coisas em comum para já, são os grandes vencedores das eleições de 10 de março e ambos já foram deputados únicos.

Mas então como é que o partido mais votado, no caso coligação, a AD, não é o grande vencedor da noite? Pois no jogo em que tinha tudo para ganhar, não foi além de uma exibição trivial, sem brilho, nem perfume e um resultado paupérrimo. Poderemos sempre afirmar, e em sua defesa (e tomemos o conjunto dos partidos que formam a coligação como um só), que aumentaram o número de deputados – 77 para 80, que até aumentaram o número de votantes, e que em bom rigor até cresceram 6%, e estaríamos certos, mas dos partidos que cresceram foram o que cresceram menos, menos até do que aqueles que não aumentaram o número de deputados. 

Eleições, e a história no geral, não se fazem só de vencedores, não nos esqueçamos dos vencidos, e existem dois pontos muito interessantes neste dia 10 de março. Mais interessantes ainda o crescimento do Chega e que a “quase derrota” da AD. Falo dos números do PS e dos números da participação eleitoral. 

Vejamos, então, o que aconteceu com o Partido Socialista, o partido que apresentou como candidato um individuo que foi demitido do governo anterior (maioria absoluta do PS de António Costa), por supostamente não ter competência para o cargo que exercia. Este partido acaba o dia 10 de março, com praticamente o mesmo número de deputados que o mais votado, 80(AD)-78(PS), ou seja, quase que por acidente poderia ter vencido as eleições. Até aqui tudo muito bem e até podíamos aplaudir o PS e afirmar plenos de certeza que o resultado era bom, mas não foi, mais uma vez com recurso aos números vemos que o Partido Socialista viu a sua massa eleitoral diminuída em 22%, ou seja, cerca de 490 mil eleitores decidiram alterar o seu sentido de voto ou não votar de todo. 

Por falar em quedas, ligeiramente mais à esquerda do PS, assistimos também à queda do PCP, e não foi uma queda nada simpática, menor que a do PS em boa verdade, mas com 14% do seu eleitorado a escolher outras opções, e cada vez mais a ver-se afastado de ser muleta ou bengala de uma qualquer alternativa de esquerda. 

Foi, também, noticia ao longo deste 10 de março a elevada participação nas eleições, e a descida histórica da abstenção, e nem o facto de os cadernos eleitorais terem menos 2.111 eleitores, ofuscou os 910.292 “novos” eleitores. Este aumento de participação de 8% levou a abstenção a descer para cerca de 40%, algo que muito de nós já não nos lembrávamos de ter acontecido. Esperamos que não tenha sido um acaso, uma utilidade ou um protesto, que seja algo que se vá manter ou até crescer. 

Falei de vencedores, de quase derrotados e de vencidos. Falta abordar os que que, como diz o povo “nem aqueceram, nem arrefeceram”. Estou a ser injusto, os três partidos que ainda não comentei nesta crónica e que garantiram a manutenção dos seus lugares no parlamento, ainda que sem aumentarem o número de deputados, obtiveram crescimento no número de eleitores. Assim, o PAN, aquele que registou maior crescimento dos 3, cresceu cerca 43%, em contraste com a IL que cresce 17% e o BE 15%. 

Esta crónica está a ser escrita em Almada, concelho do qual faço parte e tenho atividade politica ativa, mas antes de avançar para o paralelismo com o meu concelho, gostava, ainda, de “gastar” umas linhas a falar do fenómeno ADN, ou por outro lado, do reflexo do desinteresse, baixa literacia, qualidade do sistema de ensino, da displicência, etc., mas não só dos eleitores, mas também de quem fez o “marketing” da AD, que não teve a antecipação de perceber que esta situação se poderia verificar. Felizmente o pior não aconteceu, pois, a eleição de um deputado pelo ADN representaria o deputado da vergonha, o reflexo da escolha irrefletida, de anos de iliteracia propositada e da pressa do voto útil. Não querendo de todo com este paragrafo tirar qualquer mérito aos verdadeiros eleitores do ADN.

E Almada? Será que Almada acompanhou o país nos números que este ato eleitoral nos brindou ou não? Antes de responder a esta pergunta, tenhamos presente que Almada faz parte do círculo eleitoral de Setúbal, distrito que, em 2024, passou a eleger 19 deputados para a Assembleia da República, tendo a distribuição sido a seguinte: PS-7, CH-4, AD-4, PCP-1, BE-1, IL-1 e L-1. 

Se aplicássemos o método de Hondt só a Almada, os resultados seriam exatamente iguais aos do Distrito, podendo afirmar que Almada reflete a realidade política da totalidade do distrito de Setúbal. No entanto, em relação ao país, Almada não seria um espelho tão perfeito, neste cenário hipotético, o PS seria vencedor, mas com o mesmo número de deputados (78), AD e Chega perderiam deputados, todas as outras forças políticas que atualmente têm assento parlamentar aumentaria a sua representação, e o ADN elegeria 3 deputados. 

Mas, a governação não se faz de cenário hipotéticos, e importa que desçamos à realidade dos números, assim, e ainda que ao olhar desatento e sem uma análise dos dados se pudesse afirmar que o PS é o vencedor neste círculo, os números que vamos explorar de seguida, vão contradizer essa realidade, o que é ainda mais curioso quando o concelho de Almada é governado pelo PS desde 2017. 

Almada acompanhou o país no sentido do crescimento e queda dos partidos, subiram os mesmos e desceram os mesmos. Ainda que por aqui o Livre seja o partido que mais cresceu, 231%, seguido do Chega com 155% de crescimento. Seguem-se, com crescimentos mais residuais, mas não menos importantes, o PAN, a AD, o BE e a IL por esta mesma ordem, ainda que a AD tenha um crescimento superior em 10% ao seu crescimento nacional.

As quedas são as mesmas do nível nacional, o que não deixa de ser curioso que são das duas forças politicas que já foram governo em Almada, quem pode esquecer os 40 anos de PCP, que nestas legislativas viram 1106 eleitores tomarem outra opção, ajudando assim a uma queda de 13,57%, e também, em contraciclo dos números, pois mesmo sendo o partido mais votado no distrito, em Almada o PS não contou com o voto de 8639 eleitores, o que representou a maior queda neste ato eleitoral, uma queda de 21% face a 2022. A questão que se levanta (ainda que de forma abusiva pois por norma não existe extrapolação de resultados autárquicos dos legislativos) será que estes resultados são um castigo à governação de António Costa ou de Inês de Medeiros?

Neste círculo, houve um total de 2822 votos não convertidos em mandatos, ou seja, que não serviram para nada, representando 5,74% do total de votos válidos no distrito de Setúbal. O que transposto para a escala nacional, representa perto de 700 mil votos que não serviram para eleger ninguém, quando os grandes partidos apelam ao voto útil, é precisamente para que isto aconteça, para que consigam perpetuar os mesmo de sempre, nos lugares de sempre. 

Muitas vezes apontamos o método de Hondt como o culpado desta desigualdade dos votos, e do facto de efetivamente os votos dos portugueses não terem todos o mesmo valor, mas é errado. A culpa não está no método, mas no excesso de círculos eleitorais e na inexistência de mecanismos de compensação. Na última legislatura a Iniciativa Liberal propôs esta alteração, mas o PS rejeitou, porque será?

Para terminar este artigo que já vai longo, mas a verdade dos números assim me obriga, e em jeito de apelo para eleições futuras, lembram-se de há pouco ter escrito “na política a qualidade poderá ser medida pelo número de deputados?” A minha resposta, que só a mim me representa, é não, não consigo considerar os números 7 ou 4 do PS ou da AD ou do CH, melhores que o número 1 ou 2 de qualquer outro dos partidos. Mais ainda quando estes 7 ou 4 serão mais um no meio de 70 ou 50, muitas vezes no topo da bancada, passando despercebido ao longo de quatro anos. Enquanto aquele 1 ou 2 serão trabalhadores afincos com vontade de mostrar algo aos portugueses, pois serão eles e mais 4 ou 5 que estarão sempre em escrutínio do que fazem. 

O meu apelo, aos portugueses em geral, e aos Almadenses em particular, é que não vão atrás de votos úteis, conheçam as pessoas, e na próxima votem em que realmente vos diz algo. Porque em Setúbal não votamos nem Luís Montenegro, nem Pedro Nuno Santos, nem André Ventura, nem Rui Rocha, nem Mariana Mortágua, nem Paulo Raimundo, nem Rui Tavares e nem Inês Sousa Real. Votamos sim na Teresa, na Catarina, na Rita, na Joana C. e na Joana M., na Paula e no Paulo, pessoas estas que muitas vezes foram nossos colegas de escola, são nossos vizinhos e quiçá os conhecemos tão melhor que aqueles que só vemos na televisão ou em campanha. 

Em suma, de 10 de março saem dois grandes vencedores, Chega e Livre, e pelo que tudo indica um primeiro-ministro que ganhando eleições, não se pode qualificar como vencedor dessa noite, Luís Montenegro. E saem dois grandes derrotados, PS e PCP. A força política que governou o país durante 8 anos, e governa Almada à 7, e foi castigado pelos portugueses e pelos Almadenses. Agora resta esperar que todos os eleitos tenham a responsabilidade de defender os valores de Abril, e principalmente os de Novembro, e colocar Portugal a crescer. 

Valter Ferreira

Vogal IL Almada

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