O Homem Que Andava Devagar Porque Ia Longe

Subiu degrau a degrau, da Juventude Socialista às salas abafadas de Bruxelas, dos corredores do Parlamento às noites longas de negociações internas. Era, no fundo, um resistente. E talvez por isso tenha sido sempre tratado como um intruso no seu próprio partido.

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Havia em António José Seguro qualquer coisa de interior profundo — não apenas por ter nascido em Penamacor, mas porque carregava consigo aquela persistência teimosa de quem aprendeu cedo que nada lhe seria oferecido. 

Subiu degrau a degrau, da Juventude Socialista às salas abafadas de Bruxelas, dos corredores do Parlamento às noites longas de negociações internas. Era, no fundo, um resistente. E talvez por isso tenha sido sempre tratado como um intruso no seu próprio partido.

António José Seguro sempre pareceu deslocado na política portuguesa. Não por falta de currículo — que o homem tem mais cargos no passado do que muitos têm livros na estante — mas porque acreditava, com uma candura quase bíblica, que a política era um lugar de mérito, paciência e decência. Um erro de cálculo que, no PS, costuma pagar-se caro.

Quando chegou à liderança do PS, em 2011, vinha com a serenidade de quem acredita que o tempo recompensa os pacientes. Mas o PS, esse, nunca foi um convento. É mais parecido com um velho navio corsário, cheio de bandeiras, fações, memórias de batalhas e marinheiros que juram lealdade ao capitão, até ao dia em que deixam de jurar.

Seguro tentou governar o partido como quem segura um vaso de porcelana, com cuidado, com método, com a ideia de que a estabilidade é uma virtude. Mas muitos dos seus camaradas preferiam o estilo tempestade — e tempestade tiveram.

A “abstenção violenta” no Orçamento de Estado de 2012 foi o primeiro trovão. Alguns no partido acharam que era demasiado branda, outros demasiado dura. Seguro, que sempre acreditou na nuance, descobriu que a nuance é a primeira vítima quando a sede de poder aperta.

Depois vieram as autárquicas de 2013, onde o PS teve um dos melhores resultados de sempre. Mas, ironicamente, foi aí que começaram a afiar-lhe a lâmina. A vitória foi considerada por “poucochinho” — palavra que, se tivesse corpo, teria entrado na sede do Largo do Rato de punhal na mão. A partir desse dia, Seguro deixou de ser líder e passou a ser um alvo.

E então surgiu António Costa e seus “muchachos”, como quem desce de um palco iluminado para reclamar o papel principal. O partido, que tantas vezes se queixa de falta de democracia interna, descobriu subitamente o entusiasmo pelas primárias abertas. Seguro aceitou o duelo — talvez por convicção, talvez por ingenuidade, talvez porque acreditava que a lealdade ainda tinha valor.

Perdeu. E perdeu com a dignidade de quem sabe que a política é um jogo onde nem sempre ganha o mais preparado, mas quase sempre ganha o mais impaciente.

Saiu sem estrondo, sem vingança, sem dramatismos. Recolheu-se. Escreveu. Comentou. Pensou. E, como tantas figuras que o país julgava arrumadas, regressou anos depois, mais maduro, mais livre, mais seguro de si — ironia do destino — para disputar a Presidência da República, onde acabou por ser eleito.

Hoje, olhando para trás, percebe-se que António José Seguro foi talvez o último romântico da política socialista: acreditava que o mérito se impunha, que o tempo esclarecia, que o partido era uma família. E como em tantas famílias, descobriu que os abraços podem ser sinceros, mas as facas também costumam estar à mão.

No fim, porém, venceu o tempo. O tempo não faz primárias e raramente falha. 

Pedro Dias Pereira

Advogado e ex-deputado Municipal eleito pelo PS na Assembleia Municipal de Almada.

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