A Farsa de Inês de Medeiros
No episódio anterior da nossa longa e atribulada novela municipal, Almada ficou a saber que a sua Câmara já não é propriamente uma autarquia – é uma corte de província em que não faltam a baronesa, muitos pajens, alguns escudeiros nervosos mas obedientes, e uma velha CDU que, depois de décadas a distribuir lições de superioridade moral, descobriu finalmente o aconchego erótico de ser a bengala do poder.
De facto, a cena que se passou nos SMAS e que aqui contei foi digna de um filme de época de terceira categoria. Vale a pena recordar – a baronesa entrou pela administração adentro como quem reclamava uma sala do trono, encontrou adjuntos da CDU refastelados num gabinete e, num dos seus habituais ataques de fúria imperial, tratou de pôr ordem na criadagem e de repreender o vereador Palma aos gritos. A CDU, esse antigo monumento de altivez revolucionária, limitou-se a meter a viola no saco e a descer as escadas de cabeça baixa, sem um pio, sem um protesto, trocando a “Internacional” pelo tom melancólico da dignidade a bater no chão.
A nova função histórica do comunismo municipal em Almada reduziu-se a um serviço de chapelaria política e a sua grande missão é agora segurar o guarda-chuva da senhora Presidente para que ela não se molhe na chuva de críticas. E quando a chuva aperta, como aconteceu nas reuniões públicas onde os munícipes pretendiam falar de lixo e de incompetência, a solução da baronesa é de uma sofisticação tecnológica sem precedentes – desligar a ficha.
Com a leveza de quem manda apagar uma torradeira, Inês de Medeiros decretou o fim da democracia com um “acabou!”, deixando câmaras, técnicos e cidadãos a falar para o vazio. A realidade incomoda tanto que o executivo prefere cortar a emissão a ter de se ver ao espelho.
Também já percebemos que em Almada os acontecimentos correm mais depressa do que a sátira. A baronesa granjeou agora uma promoção honorífica e é unanimemente considerada também como a multiplicadora de tachos. Pela minha parte, proponho ainda que se torne uma espécie politicamente protegida – a Sra. Presidente é tão raramente avistada nas reuniões da Assembleia Municipal que qualquer aparição sua devia ser comunicada ao ICNF para que possa ser adequadamente estudada e catalogada.
Enquanto isso, a máquina continua a mastigar orçamento com uma voracidade admirável. É que em Almada já não se governa – produz-se conteúdo. Há mais esforço investido no enquadramento de uma fotografia do que no estado da rua onde ela é tirada. E depois há o maravilhoso ecossistema dos tachos. Não se trata já de um caso isolado, nem de uma coincidência administrativa, nem de um episódio desgarrado.
Temos, em Almada, uma economia circular, onde nada se perde, nada se cria, tudo se recoloca – vereadores viram assessores, vereadores suplentes orbitam vereadores efetivos, antigos protagonistas partidários reaparecem com contratos faraónicos, comentadores misturam-se com assessorias e figuras do velho aparelho socialista encontram sempre uma almofada municipal onde pousar.
Não começaram agora. Já em 2022 se noticiava o caso da mulher do vereador promovida a chefe de divisão – a Sra. Inês Moreira Simões, assessora de Inês de Medeiros, passou a chefe de divisão, sem concurso, sendo casada com o Sr. Filipe Pacheco, vereador socialista e agora vice-presidente da autarquia. Naturalmente, tudo terá tido explicações administrativas muito sólidas, daquelas que só não convencem quem ainda insiste em olhar para a política com os olhos do cidadão comum.
Mais recentemente, ainda há escassas semanas, surgiu uma consultadoria jurídica para apoio à revisão do PDM de Almada, por consulta prévia, adjudicada à Sra. Rosália Russo, no valor de 48 mil euros. Quarenta e oito mil euros é certamente uma quantia modesta, como dirão os sacerdotes da normalidade administrativa, porque rever um PDM é coisa séria. Mas é curioso como Almada parece ter desenvolvido uma capacidade estatística extraordinária para encontrar, sempre que há consultorias em aberto, nomes com passado ou proximidade ao universo socialista lisboeta. É que todo o aparelho que ficou sem ocupação em Lisboa quando o PS perdeu aquela Câmara veio cá parar. Até já se diz que Almada pode ter dificuldade em encontrar soluções para o lixo, para a higiene urbana, para o estacionamento, para a degradação do espaço público ou para o comércio local, mas que quando é preciso encontrar alguém do aparelho para uma adjudicação, a bússola socialista funciona com precisão suíça.
Do lado da CDU, a conversão ao capitalismo de gabinete é comovente. O Sr. Tiago Galveia, antigo vereador comunista e atual vereador suplente, reapareceu para uma assessoria técnica de apenas 31 dias pelo módico valor de quase seis mil euros. É uma pequena temporada de luxo que faria inveja a qualquer proletário que passa o mês a tentar sobreviver com o salário mínimo. A foice e o martelo foram substituídos pela folha de presenças, garantindo-se assim que nenhum camarada fica exposto ao frio do mercado de trabalho. Noto que, sendo também vereador suplente, no fundo, este Sr. assessorou o vereador do qual é substituto. Esta solidariedade entre camaradas deixa-me com o coração em lágrimas e com a voz embargada.
Mas há também o caso do assessor do vereador comunista que ainda se mantinha jornalista enquanto desempenhava funções de assessoria política. O Sr. Nuno Ramos de Almeida poderá, entretanto, ter entregado a carteira profissional, como convinha, mas o essencial da questão permanece: Almada tornou-se um pequeno laboratório de promiscuidade entre política, comunicação e comentário. Há assessores que comentam, comentadores que assessoram e uma máquina municipal que comunica como se estivesse em campanha permanente. No fundo, já nem se percebe onde termina a representação democrática e começa o departamento de recursos humanos. Almada parece uma espécie de condomínio fechado do aparelho, onde a entrada está reservada a quem conhece o porteiro certo – ou a porteira.
Também não se pense que esta corte vive apenas de assessorias, consultorias e reciclagem de quadros. Além disso, há mordomia e conforto material. Já este ano foram gastos quase 10 mil euros em mobiliário de escritório para os gabinetes da vereação. Parece-me justo – um concelho em declínio não se administra em cadeiras desconfortáveis. Além disso, gastaram-se também mais de 6 mil euros em café para os gabinetes da Presidência e dos vereadores. Também compreendo – gerir o abandono cansa e produzir propaganda, multiplicar tachos, ignorar munícipes, faltar a reuniões e sobreviver politicamente exige cafeína. A cidade pode feder, com lixo na rua e porcaria de cão nos passeios, mas os gabinetes cheiram a bica acabada de tirar.
Não vejo melhor síntese do regime municipal do que esta. Para a limpeza urbana há constrangimentos e para resolver problemas há estudos, prazos, dificuldades, competências partilhadas, concursos, procedimentos, desculpas e mais desculpas, e no fim a culpa é do governo.
Mas para o conforto da corte há sempre verba, procedimento e adjudicação, porque como qualquer corte decadente, também a de Almada trata primeiro do mobiliário palaciano, da cafeína institucional e da sobrevivência dos seus orbitantes. O cidadão comum, esse, que atravesse a ponte, desvie-se do lixo, fuja dos ratos e espere pelo próximo comunicado triunfal nas redes sociais.
Porém, quando se pensa que o ridículo poderá ter atingido o limite, este regime consegue sempre subir mais um degrau na escada da vergonha alheia. Para ilustrar este ponto tenho de contar uma história. Num gesto institucional normal, preparado e digno, o cardeal Américo Aguiar, bispo de Setúbal, visitou recentemente as instalações da Assembleia Municipal tendo levado a “obrigatória” oferta protocolar, com o brasão episcopal, para entregar ao Presidente da Assembleia, o Sr. João Couvaneiro. Do lado de Almada, no entanto, o impossível aconteceu – o Presidente da Assembleia, qual pajem de pacotilha, ficou encavacado e admitiu ao cardeal que não tinha nada para lhe oferecer. Nada. Nem uma lembrança, nem uma publicação institucional, nem um símbolo da cidade, nem sequer uma caneta esquecida numa gaveta.
Imagine-se, pois, esta cena: o cardeal chega com a sua oferta, o protocolo avança, os presentes olham em redor, e o pajem municipal faz aquela cara de aluno que se esqueceu dos trabalhos de casa e que tenta convencer a professora de que o cão comeu o livro. Só que aqui não havia cão. Havia apenas um pajem de trazer por casa e uma instituição a fazer figura triste.
Contam-me que o desconforto entre os presentes terá sido tal que uma deputada municipal improvisou uma solução, mandando um familiar a casa buscar um livro sobre Almada para oferecer ao cardeal. Foi, de facto, brilhante. Na falta de protocolo e quando a dignidade institucional falhou, a Assembleia pediu a ajuda de casa.
Claro que no meio de tudo isto continua a propaganda – o verniz dourado sobre a madeira podre. A tentativa permanente de convencer os almadenses de que vivem numa cidade vibrante, moderna, funcional e feliz, quando muitos sentem precisamente o contrário. Há vídeos, há fotografias, há publicações, há sorrisos, há frases feitas, há promessas recicladas, mas a cidade real é outra.
Almada é a cidade do lixo acumulado, dos passeios maltratados, das ervas que crescem como se fossem património botânico municipal, dos buracos, dos serviços lentos, da falta de ambição, da degradação urbana e da sensação cada vez mais generalizada de que está entregue a uma maioria que se preocupa mais consigo própria do que com quem aqui vive.
E agora vem o calor. Preparem-se, almadenses. Elas vêm aí outra vez. As únicas fiscais que verdadeiramente andam na rua em Almada – as baratas. É que todos os anos, com a pontualidade que falta aos serviços municipais, regressa esse grande festival zoológico da incompetência. As baratas aparecem nas ruas, nos prédios, nas zonas degradadas, nos espaços mal cuidados, como pequenas fiscais do abandono. Não precisam de comunicado, não precisam de assessoria, não precisam de consultoria jurídica nem de mobiliário novo. Bastam-lhes calor, lixo, desleixo e uma Câmara que parece sempre surpreendida por o verão chegar no verão.
Termino com as baratas porque em Almada há hoje duas espécies particularmente resistentes – as baratas do calor e os orbitantes do aparelho político. A diferença é que as primeiras, pelo menos, só aparecem no verão.
O problema nem é existirem tachos, que sempre os houve. O problema é Almada estar a ser transformada num grande refeitório político onde a cidade paga e o aparelho come.

