Abril ficou Maio

Escrevo agora para a crónica de Maio, dois em um, como sói dizer-se, pois que do Japão não tive como enviar oportunamente a minha crónica. 

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E se vos contar que numa manhã de domingo, quando já estava próxima a viagem ao Japão, de onde comecei por vos escrever, fomos ao Teatro Extremo ver a “Viagem ao Mundo em 80 Caixas” e no final desse espectáculo para crianças, com duas únicas palavras “Bratislava” e “Teresina”, pronunciadas pelos três intérpretes ao longo de cerca de 55 minutos, depois de tantas peripécias pelos muitos cantos do mundo, onde levavam ou de onde recebiam encomendas, fomos surpreendidos pela chegada ao Japão. Quer pela música quer pela gestualidade e figurino, logo adivinhámos onde já estávamos… Foi, aliás, o final de um espectáculo muito inteligente, que com agrado, pelo bom ritmo, seguimos do princípio ao fim, com palmas para o guião e encenação (Markeliñe), a alegria e o virtuosismo dos intérpretes (Bibi Gomes, Fernando Jorge Lopes e Victor Caetano).

ⒸMaría Emília Castanheira / Teatro Extremo no Teatro-Estúdio António Assunção

Chegaremos ainda a tempo de ver no Teatro Municipal Joaquim Benite a peça “Todos Pássaros”, de Wadji Mouawad, na tradução de João Paulo Esteves da Silva, com encenação de Álvaro Correia e um elenco formidável (desde Cucha Carvalheiro, Manuela Couto, Virgílio Castelo, a Laura Garnel, em estreia), que já não havia sido possível ver no Teatro São Luiz, quando estreou e fez carreira esgotada. 

Pensando à distância na proximidade do 25 de Abril – que os cravos vermelhos floresçam como aqui as cerejeiras! -, a sakura para os japoneses representa, como sabereis, a efemeridade da vida. Mas todos os anos por esta altura ela se renova! 

ⒸJosé Manuel Castanheira / Sakura

E como não acabar com um rosto e um nome: Helena Simões, que há dias tão inesperadamente nos deixou. Há menos de um ano ela foi distinguida no 42º Festival de Teatro de Almada com o Prémio de Jornalismo Carlos Porto. Recordemos as suas palavras no discurso que proferiu de agradecimento pelo prémio que lhe foi atribuído:

“Muito honrada por ter recebido o Prémio de Jornalismo Carlos Porto – imprensa especializada – no Festival Internacional de Teatro de Almada 2025. Agradeço à Câmara Municipal de Almada – Inês de Medeiros -, ao Festival de Almada – Rodrigo Francisco – e ao júri pela confiança e reconhecimento. Destaco igualmente o papel fundamental do Jornal de Letras e do seu diretor, José Carlos Vasconcelos, especialmente num momento tão difícil, em que a imprensa cultural enfrenta grandes desafios.

A crítica premiada foi sobre o espetáculo “Mãe Coragem”, de Bertolt Brecht, encenado por António Pires com o Teatro do Bairro, uma obra que nos lembra a persistência da guerra e a necessidade constante de olhar para a arte como um espaço de reflexão e invenção. Tal como Anna Fierling continua a puxar a sua carroça mesmo depois de perder tudo, também nós, espectadores, leitores e críticos, persistimos em interpelar o mundo.

Partilho este prémio com todos os que fazem o Teatro acontecer e com todos os que acreditam no poder transformador da Cultura.”

ⒸPedro Castanheira / Helena Simões no 42º Festival Internacional de Teatro de Almada

Mas Abril ficou Maio… 

Quero com isto dizer que escrevo agora para a crónica de Maio, dois em um, como sói dizer-se, pois que do Japão não tive como enviar oportunamente a minha crónica. 

E estou agora em tempo de ainda ver “Um Assobio no Escuro”, na Sala Experimental do TMJB, pela Companhia de Teatro de Almada, até 10 de Maio. É uma primeira obra de Tom Murphy, que aquando da sua morte (2018) foi por muitos considerado um dos maiores dramaturgos irlandeses. Escreveu-a aos 25 anos, baseada na experiência de filho de uma família numerosa, onde quase todos os irmãos tinham emigrado. E tal como continuo a ler na nota descritiva do espectáculo, estreado a 10 de Abril, o autor ao longo da sua carreira protestou contra o imperativo económico da emigração, contra a hipocrisia da Igreja Católica, a pobreza da liderança política, e as evidentes desigualdades do seu país. Uma escolha oportuna de Rodrigo Francisco, que a encenou. E que resultado brutal, posso agora revelar, com bravas interpretações, e o murro no estômago que levamos ao deixarmos a sala.

Assinale-se também no TMJB, em 2 e 3 de Maio, na categoria do Teatro para a Infância, por acolhimento do Teatro Mosca, a bela fábula “História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar”, de Luís Sepúlveda, o malogrado escritor chileno. M/6. Por acolhimento ainda no TMJB, a 16 e 17 de Maio, “Para Onde Vão?”, encenação, texto e dramaturgia de Micaela Soares, pelo Teatro de Marionetas do Porto. M/3.

Termino, afinal, como comecei: teatro para crianças, que os adultos, pais e avós, com prazer acompanham. 

E, celebrando Maio, uma “Ode” de William Wordsworth, que vos deixo:

“… Cantai, então, pássaros cantai uma alegre canção/

e que os cordeiros saltem ao som do tamborim./

Nós, em pensamento, vamos juntar-nos à nossa multidão,/

ó vos que cantais e brincais, 

que sentis hoje nos vossos corações 

a alegria de Maio.”

Continuemos…

Pela voz ímpar de José Afonso,

Maio Maduro Maio.

ⒸMaría Emília Castanheira / Clara Lança Castanheira

(Maria Emília Castanheira escreve de acordo com a antiga ortografia)

Maria Emilia Castanheira

Licenciada em Direito, ex-jurista, ESTC (ex Conservatório) e Actriz. Poesia, sempre!

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