As mulheres na arte em Almada
Quis aqui destacar o papel das mulheres de Almada no acto da criação e práctica artística, dando-lhes visibilidade, tentando ao mesmo tempo criar uma memória de género.
“No matter what you create, your perspective shapes how you create it.” – Marjane Satrapi
Evoco mulheres na arte para dar visibilidade, ou talvez, tirar do invisível, artistas que fazem arte em Almada e para este território. Mulheres que fazem parte da memória colectiva de uma identidade cultural, nas várias formas de arte como o teatro, a dança, a literatura, a música, as artes plásticas e a street art. Quis aqui destacar o papel das mulheres de Almada no acto da criação e práctica artística, dando-lhes visibilidade, tentando ao mesmo tempo criar uma memória de género.
Território
Almada, enquanto território, resulta de um caldo cultural formado por múltiplas identidades e movimentos migratórios internos e externos. É formada por uma paisagem urbana de cimento, parque e matas, banhada por praias e um rio, e foi outrora conhecida como a “outra banda” ou “a margem sul”. Para quem cá vive e procura cá viver, sente-se na margem certa ou simplesmente na margem, mas não à margem.
Foi durante décadas influenciada pela indústria naval do Arsenal do Alfeite e da Lisnave, marcada pelo operariado e comércio, sendo hoje composta maioritariamente por actividades ligadas aos serviços, ao comércio e às pequenas empresas, ou até mesmo à criação do próprio emprego, com algumas start-ups e incubadoras locais, que integram a rede nacional de start-ups, como o Inova Quality Hub, o Quarteirão das Artes, a Nova Almada Velha, e o Madan Parque.
“Almada Cidade do Teatro” é o título da obra coordenada por Sarah Adamopoulos, que escreveu textos dramatúrgicos para o projecto Actos Urbanos e para a Companhia de Teatro de Almada (CTA). Destacam-se na arte do teatro várias actrizes e encenadoras: Teresa Gafeira, na CTA e no Festival Internacional de Teatro de Almada; Ana Nave, actriz e encenadora d’O Grupo e do Arte33; assim como Ana Saltão na ArtePlusArs; Luzia Paramés nas Produções Acidentais ,com o projecto de teatro musical as Bambolinas; e a Bibi Gomes no Teatro Extremo.
Almada é palco de grupos de teatro independentes e projectos de criação teatral como o Ninho de Víboras, O Olho, Útero, Teatro de Areia, Embal’Arte, o Grupo de Iniciação Teatral da Trafaria (GITT), a Aletria com a sua primeira peça “A Metamorfose” em cena na última edição da Mostra de Teatro de Almada, entre outros. Organizada anualmente pelos grupos de teatro do concelho com o apoio da Câmara Municipal de Almada, a Mostra promove a produção teatral dos grupos de teatro amadores e profissionais.
Nos anos 80 surgiram inúmeras bandas de música de garagem, e Midus Guerreiro destacou-se na cena musical de Almada, como baixista e vocalista nos Roquivários. Tendo emigrado para Inglaterra nos anos 90, deixou a sua marca.
No virar do século houve um projecto de música folk urbana que se internacionalizou, os Oquestrada, com Marta Miranda como front woman (pardon my french). Esta iniciou o seu percurso artístico no teatro, passou pela banda, e tem hoje o seu projecto musical a solo. Na música de fusão electrónica e fado, descobri recentemente Bia Caboz.
O território almadense possui um vibrante panorama musical com mulheres que se destacam também como instrumentistas e compositoras: Marta Duarte, reconhecida como a primeira mulher em Portugal a tornar-se guitarrista profissional de jazz; Ângela Barradas professora e clarinetista na Academia de Música de Almada (AMA); Maria Fonseca, trompetista e participante num quinteto de jazz; e Joana Janeiro, co-fundadora do Conservatório de Artes Performativas de Almada (CAPA), escola de ensino artístico especializado na música e teatro, que integra a Orquestra d’Almada.
Foi com surpresa que constatei ao assistir ao Concerto para a Cidade realizado em Junho, a qualidade dos diferentes projectos e instituições do ensino artístico e musical do concelho que evidenciam o papel da música como ferramenta de educação, inclusão, desenvolvimento pessoal e artístico, e participação cultural. A Outra Banda, AMA, CAPA e a Orquestra Geração – Núcleo da Escola Miradouro de Alfazina, com a sua maestrina.
Na dança não poderia deixar de mencionar o trabalho e mérito ao longo de mais de três décadas da directora e professora da Companhia de Dança de Almada, actualmente conservatório, que criou a Quinzena de Dança de Almada, e teve como aluna a coreógrafa Cláudia Dias, entre muitas outras alunas brilhantes que ali descobriram que é possível a coexistência entre a dança clássica e a dança contemporânea.
Na literatura, Almada conta com escritoras de mão cheia da poesia à ficção. No entanto, houve muita invisibilidade nesta área artística há décadas e séculos atrás. Nomeei anteriormente a antiga jornalista e escritora Sarah Adamopoulos, que por cá viveu e escreveu, desde biografias a textos de dramaturgia para a CTA, para os Atos Urbanos e os livros “Agosto”, e o autobiográfico “Como os portugueses”. Luísa Costa Gomes é uma escritora também com uma estreita relação criativa com a dramaturgia e a arte do conto, para além da literatura de ficção e poesia. A paisagem de Almada reflectiu-se na sua obra literária com o livro “Da Costa”. A escritora Isabela Figueiredo, autora das obras “A Gorda” actualmente em cena, e de “Cadernos de Memória Colonial”. A inquietação move a escrita e Almada é uma cidade inquieta.
Nas artes visuais destaco Catarina Pé Curto do projeto Mundo do Espectáculo – Associação Cultural – ACOME, e na arte pública destaco as artistas de street art Joana Pitanga e Rosarlette Meirelles.
Inspirei-me para esta crónica numa conversa que conduzi recentemente no estúdio de criação ArtePlusArs, num encontro mensal que junta amigos e conhecidos para partilha de reflexões à volta de livros. Expus trajectórias de mulheres onde arte e vida se entrecruzam, evoquei vozes e vidas de artistas de diferentes gerações, moldadas pelo território localizado espacialmente no concelho de Almada, partindo do livro “Mulheres de Almada” de minha co-autoria.
De que forma o meio envolvente molda e conduz a criatividade? Como as actuais gerações vivem e revisitam o momento presente na sua arte? Existe identidade de género na arte? Foram estas algumas das interrogações que deram lugar à reflexão e à conversa, onde se juntou pensamentos.
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