A calamidade nos Paços do Concelho
Para Inês de Medeiros, a palavra “calamidade” é extraordinariamente conveniente. Funciona como um elegante disfarce para anos de desinvestimento.
As últimas tempestades trouxeram a Almada mais do que vento e chuva. Trouxeram novamente ao de cima o conhecido talento dramático de Dona Inês de Medeiros. Enquanto o mar fustigava a Costa, a Baronesa de Almada vestia o seu melhor figurino de tragédia e subia ao palco mediático para exigir, com ar consternado, a declaração de “estado de calamidade”.
Mas, em Almada, a calamidade tornou-se um guião político. Para Inês de Medeiros, a palavra “calamidade” é extraordinariamente conveniente. Funciona como um elegante disfarce para anos de desinvestimento, sarjetas entupidas, planeamento inexistente e uma gestão municipal que vive permanentemente em modo de improviso.
O que a senhora presidente pretende não é tanto salvar Almada – é salvar a sua própria face. Porque a declaração de calamidade tem uma utilidade muito específica – permite pedir dinheiro e distribuir responsabilidades. Ou, dito de outra forma, pedir um cheque em branco que esconda a incúria acumulada.
É aqui que a ironia se torna particularmente evidente. Enquanto a Câmara se apresenta como abandonada e desesperada, o Governo faz aquilo que verdadeiramente interessa e coloca 111 milhões de euros na requalificação da nossa orla costeira – sem dramatizações, sem encenações, sem proclamações teatrais de calamidade. Enquanto uns fazem política de palco, outros fazem política de obra.
Mas talvez o episódio mais revelador desta gestão tenha ocorrido em pleno caos. Enquanto Proteção Civil e funcionários municipais deveriam estar concentrados em limpar ruas, remover destroços e apoiar famílias afetadas, surgem denúncias – gravíssimas – de que há meios da autarquia a serem utilizados para propaganda do Partido Socialista.
É difícil imaginar maior falta de noção. No meio de uma crise, a prioridade não parece ser o muro que caiu, a casa inundada ou o comerciante que perdeu tudo. A prioridade parece ser garantir que o cartaz partidário está bem visível e que o secretário-geral do PS aparece de uniforme da Proteção Civil nas televisões.
Há gestões autárquicas que se comportam como verdadeiras administrações públicas, mas esta comporta-se cada vez mais como uma espécie de quintal político – com ocasionais tiques de monarquia absoluta.
Felizmente, nem tudo em Almada se resume a encenações. Na Costa da Caparica, o contraste não podia ser mais evidente. Enquanto nos Paços do Concelho se ensaiavam comunicados de vitimização, Vanessa Krause e a equipa da Junta estavam no terreno, de galochas na lama, a resolver problemas que a Câmara ignora há anos. É ali que se percebe a diferença entre presença e propaganda, entre governar e representar, e entre trabalhar ou simplesmente aparecer nas redes sociais.
Inês de Medeiros pode continuar a pedir estados de calamidade ao céu. Mas a verdadeira calamidade de Almada não tem nome de tempestade nem vem do Atlântico. A verdadeira calamidade está instalada há anos nos Paços do Concelho e continuará lá enquanto o dinheiro dos contribuintes servir mais para propaganda política do que para prevenir os problemas que todos sabemos que voltam sempre com a próxima chuva.
Almada não precisa de mais uma temporada de ópera trágica – precisa, simplesmente, de gestão.
Almada Online, Crónica, David Cristóvão, Opinião, PSD

