Sistema de abastecimento de água de Almada entra em ruptura crítica
Consumo recorde obriga SMAS a racionamento rotativo de emergência

O concelho de Almada entrou oficialmente em contagem decrescente para evitar o colapso total da sua rede de abastecimento hídrica. Uma combinação de temperaturas extremas com o pico de afluência turística na época balnear, levou o sistema público de distribuição de água a uma situação de ruptura crítica.
Perante um volume de consumo sem precedentes que superou a capacidade máxima de captação e armazenamento dos reservatórios, os Serviços Municipalizados de Água e Saneamento (SMAS) de Almada viram-se obrigados a avançar para um plano de contingência urgente: um modelo de racionamento rotativo e “gestão solidária” da rede, como explicam em comunicado. O objectivo é simples: “partilhar o recurso disponível para que nenhuma zona seja penalizada de forma isolada”.
A gravidade da situação reflecte-se de imediato no quotidiano de milhares de almadenses. Áreas populosas e centrais como a Costa da Caparica, Charneca da Caparica, Sobreda, Capuchos, Feijó e Laranjeiro são as zonas mais atingidas por esta medida extrema de emergência.
A pressão nas condutas caiu drasticamente e as interrupções temporárias de fornecimento sucedem-se. A maior contestação dos munícipes prende-se com o facto destes cortes estarem a acontecer, na maior parte das vezes, sem aviso prévio ou calendário público fixo, e em plena onda de calor, impedindo famílias e estabelecimentos comerciais de se prepararem para enfrentar as horas de torneiras secas. Num ano em que tanto choveu, o comunicado dos SMAS continua a ser encarado como uma desculpa para muitos cidadãos.
A indignação popular escalou à mesma velocidade que os termómetros. Uma petição pública organizada por moradores já ultrapassou as 2.000 assinaturas, exigindo o fim imediato das falhas sistemáticas e a assunção de responsabilidades políticas pela falta de planeamento.
Os peticionários exigem da Câmara Municipal de Almada e dos Serviços Municipalizados de Água e Saneamento de Almada, o apuramento e divulgação pública das causas das interrupções, a apresentação de um plano de acção concreto para resolver o problema de forma definitiva, comunicação prévia e eficaz sempre que ocorram interrupções programadas, e medidas urgentes para minimizar os impactos na população e nas actividades económicas afectadas.
O impacto também é forte no tecido económico local. Na restauração e hotelaria da Costa da Caparica, há empresários a relatar o encerramento forçado de restaurantes a meio do dia, devido à impossibilidade de assegurar as regras básicas de higiene e o funcionamento de equipamentos dependentes de pressão hídrica.
A autarquia almadense já pediu desculpa publicamente pelos graves transtornos causados, mas sublinha que a prioridade absoluta passa agora por garantir a estabilidade do fornecimento a infraestruturas críticas e de socorro, como o Hospital Garcia de Orta, corporações de bombeiros, centros de saúde e à reserva de combate aos incêndios. A resposta estrutural imediata do município foca-se na abertura de um novo furo de captação, com conclusão prevista até ao final de Julho, destinado a injectar mais caudal no sistema.
“Peço desculpa naturalmente, pelo inconveniente que isto tem, justamente numa altura de grande, grande calor”, disse Inês de Medeiros, presidente da Câmara Municipal de Almada (CMA), à TSF. “Estamos a tentar garantir que ninguém fica o dia todo sem água, como aconteceu o ano passado ou há uns anos, em que as pessoas ficaram vários dias seguidos sem água”.
Até ao novo furo estar operacional, Almada permanece sob um plano de racionamento forçado. As autoridades reiteram o apelo urgente a uma contenção máxima e ao fim de todos os consumos supérfluos — como a rega de jardins ou a lavagem de viaturas — sob pena da rede falhar por completo nas horas de maior calor.
Esta crise expõe, de forma inequívoca, a urgência de investimentos pesados na modernização de uma infraestrutura datada dos anos 70, que já não consegue acompanhar a forte expansão urbana e a pressão sazonal do concelho, apesar das múltiplas obras de requalificação que os SMAS têm feito ao longo do tempo.
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