A Festa na Cidade do Teatro
Não concebo o mês de Julho sem pensar na sigla preciosa FTA - Festival de Teatro de Almada.
A Festa do Festival é para muitos de nós tempo de prazer e celebração, quando os olhares se cruzam ano a ano pela primeira vez, numa prova de vida. Reencontros, alegrias, convívios e música na Esplanada — até a escrevo com maiúscula. Dias solares e festivos de partilhas renovadas, quantas noites prolongadas. Reservados os dias, as férias vão começar ou virão depois, para o pleno de todos os espectáculos.
Este ano conto 12 internacionais e 7 os portugueses. Mais os colóquios e as exposições, o Sentido dos Mestres para os interessados inscritos e a homenagem neste 43º Festival a Fernando Gomes – Actor, Encenador, Comunicador total. Tudo nele brota com a intuição de quem precisa permanentemente mostrar a face ridícula da humanidade. Tem febre de teatro todos os dias, manhã, tarde e noite, com a mesma disposição e energia do primeiro dia. Alguém a quem se aplica a expressão “animal de teatro”, de fazer um teatro para o grande público. Popular, no verdadeiro sentido da palavra.

Quanto aos espectáculos, foco-me desde já no périplo de Tchecov. Para muitos, o mais inesperado presente do Festival, que abre com Platonov, o texto da juventude do autor, vasto e incompleto, que indicia os temas, bem como as personagens, que encontramos nas suas peças. Encena-o Peter Stein, um dos “monstros sagrados” da cena internacional e mestre recorrente do Festival. Dirigiu, aliás, “o sentido dos mestres” no âmbito do 32º FTA. Quem mais recentemente não se lembra de “Crises de nervos, três actos únicos de Anton Tchecov”, no 41º Festival ? Um espectáculo extraordinário com a encenação das três icónicas peças de teatro em 1 acto de Tchecov, pela formidável companhia de teatro italiana Tieffe Teatro Milano, que trouxe muita gargalhada ao público, desde logo com “O Urso”, depois com “Os Malefícios do Tabaco”, por fim “O Pedido de Casamento”. E o título que as une, “Crisi di nervi, tre atti unici di Anton Čechov”, é exemplar do génio do encenador, pois que num jogo de marcações e ritmo à altura do brilho dos seus intérpretes fez irromper toda a comicidade e mordacidade que há no genial autor russo. Peter Stein traz-nos agora um Platonov de cinco horas – grande prova de amor ao Teatro do público de Almada.
Será depois “A Gaivota” que ao longo do Festival gravitará. “La Mouette”, com encenação de Christian Benedetti (Théatre- Studio/França) no último dia do Festival, “Ansioliticamente Falando”, no texto e encenação de Raquel Castro, com excertos de A gaivota, de Anton Tchecov, tal como no espectáculo da Formiga Atómica, com texto de Inês Barahona & Miguel Fragata, encenação deste, num título mais que oportuno “Só mais uma gaivota”.

Mas também o encenador suíço Milo Rau, de volta ao Festival, com “La Lettre”, em texto estreado o ano passado no Festival de Avignon, nos conta a historia de uma dupla obsessão “a do actor chamado Arne, que quer encenar A gaivota, de Tchecov, porque a sua avó, uma radialista flamenga famosa, era uma verdadeira fã dessa peça; e a de…”.
Outro destaque vai para “Le Sommet” (O cume), que também integrou o último Festival d’ Avignon, cujo encenador suíço de nomeada é Christoph Marthaler, recorrente em Almada, com uma nova obra que só posso imaginar disruptiva sobre a incomunicabilidade.
Assinale-se a vinda de outro espectáculo também apresentado no Festival de Avignon, “Brel”, e só este nome BREL justifica a grande expectativa das suas eternas canções coreografadas pela carismática Anne Teresa De Keersmaeker, com o jovem Solal Mariotte, vindo do breakdance.
E regozijo-me ainda com o regresso do coreógrafo Josef Nadj, que além de outros memoráveis espectáculos já trazidos, dirigiu ainda a formação O Sentido dos Mestres.
Na verdade, já me perco no fôlego, deixo os demais espectáculos para a vossa descoberta, cujo cerne é a desmontagem das estruturas do poder.
Há ainda o Espectáculo de Honra 2026, “Teatro Delusio”, pela sempre formidável companhia alemã Familie Flõz. No palco e nos bastidores dão-nos a ilusão de uma imensa galeria de personagens e são apenas três actores que aos nossos olhos se multiplicam. Desta vez não no Palco Grande da Escola D. António da Costa, mas na Sala Principal do TMJB.
Também as criações portuguesas são notáveis. Posso testemunhar duas.
“Happy Days”, de Samuel Beckett, trazida pelo Teatro Meridional ao Festival. Quanto gostarei de ver de novo, fixada na Winnie, a personagem vivida até às entranhas por Monica Garnel. Meio corpo soterrado, progressivamente enterrada, confronta a morte com a vida. E são música as suas palavras fragmentadas com os silêncios, só o rosto e o brilho dos seus olhos, sustendo cada minuto do seu dia, mais um dia, e da memória que prevalece. Ainda assim, sobrevivendo, não há dia que acabe que ela não diga o lindo dia que foi. A luz da cena é sublime, tem a assinatura de Miguel Seabra, tal como a encenação. Que privilégio neste Festival tê-lo a dirigir O Sentido dos Mestres!
E ainda poder prolongar o prazer com “Burn, Burn, Burn”, que vi na Culturgest. Logo, então, comecei por achar surpreendente a ideia de um clube de leitura, amantes de livros que se reúnem numa biblioteca pública para discutir Fahrenheit 451, de Rad Bradbury. A autoria é da dupla jovem Catarina Rôlo Salgueiro e Isabel Costa, que também encena, e ao seu lado na interpretação, entre outros, os nomes de Beatriz Brás, João Pedro Mamede e João Pedro Vaz. Lembrai-vos, certamente, dessa sociedade em que os livros são proibidos e, por isso queimados. Pois aqui a arma para contrariar essa ditadura está na memória: sabê-los de cor e assim poder passá-los ao Outro.
Noutro registo, diametralmente oposto, “Variedades (… como uma ópera bufa erótica e satírica)”, estreia a acontecer no próprio Teatro Variedades, e no seu centenário, com a assinatura de Fernando Heitor & Flávio Gil, e a música de João Paulo Soares.
“O beijo no asfalto”, que título mais pródigo de uma das peças do notável dramaturgo brasileiro (1912-1980), escrita no tempo em que o beijo era “proibido”, imagine-se, então, dado por homem a outro homem. Uma escolha do Teatro Nacional de São João, que, por sua vez, escolheu Tónan Quito para encenar, com intérpretes brasileiros residentes.
Por fim, a anfitriã Companhia de Teatro de Almada, estreia “Saudações”, a partir de três peças curtas de Ionesco, logo no segundo dia do Festival, com várias sessões ao longo deste. A encenação de Álvaro Correia será certamente um grande tratado de “nonsense”, honrando o Teatro do Absurdo do autor, cada vez mais conforme a este Mundo…

Todo o Festival de Teatro de Almada, enfim, um extraordinário acontecimento, a merecer as palavras do ex-empresário alemão Dieter Straub, que, por nele, casualmente, ter aportado numas férias, viria a fixar-se no Concelho, quando se reformou. Foram estas as suas palavras, há três anos, no 40º Festival: “Descobri a arte do teatro no Festival d’ Automne de Paris, em 1966. E, pelos vistos, quer-me parecer que vou acabar os meus dias, em beleza, noutro festival de teatro, que é o de Almada, da mesma qualidade ou até superior!”. Tinha 80 anos quando as escreveu.
Delas me lembrei, quando há poucos dias o vi remoçado na noite de 12 de Junho, sentado numa das primeiras filas no jardim do Museu da Cidade, durante a sessão de apresentação deste 43º Festival.
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