“Eu não sei cantar”

Juntemos as nossas vozes a causas que valem a pena a nossa união. A nossa voz, por mais fraca ou baixa que seja, se a juntarmos em grupo, transforma-se numa massa vibrante e contínua.

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“Mas alguma coisa acontece
No quando agora em mim
Cantando eu mando a tristeza embora”1

Em 2025, integrei como aluna do nível I da turma de Almada do Curso de Canto e Adufe “eu não sei cantar” . O projecto-escola de Susana Mareco e Helena Reis nasceu como reacção sobre quem sabe cantar, mas “eu não sei”, e é também uma provocação e uma homenagem a todas as pessoas que se identificam com o não saber cantar. É dedicado, sobretudo, às mulheres, à sua origem e às suas estórias.

Este ano regressei às aulas do curso que decorrem num espaço no centro sul, em Almada. A característica da turma é ser constituída por mulheres de diferentes idades e profissões, que se desafiam a descobrir a sua voz e a conectar-se com os ritmos enraizados dentro de nós, provando que somos capazes. Um coro é um colectivo de vozes, que sendo distintas, procuram harmonizar-se a uma voz ou em grupos de vozes – altas, baixas, a primeira voz e a segunda voz, padrão ou voz bordão.

Aprendemos canções tradicionais portuguesas de várias regiões, do Algarve às Beiras, do Alentejo aos Açores, mas o mais importante é fazer parte de um projecto de vozes femininas distintas que juntas criam um som colectivo. Quando a vibração da nossa voz entra em contacto com a da nossa colega ao lado e, por aí em diante, cria-se um diapasão e um som que enche o ar e a sala. No final grava-se a canção que se foi ensaiando, e ouve-se com entusiasmo o poder colectivo das nossas vozes.

Nas aulas do curso pomos à prova alguma vulnerabilidade e as emoções que por vezes nos tolhem a voz, e percebemos que juntas fazemos melhor, ajudamo-nos, evoluímos e conhecemos o lugar da nossa voz. Algumas mulheres são mais tímidas do que outras e quase não ouvimos a sua voz quando falam, mas querem aprender a ouvir a sua voz.

Outras mulheres usam a voz ao longo do dia, seja como professoras ou educadoras de infância e, mesmo com a voz cansada, querem usá-la num modo diferente que o profissional. No final do curso, celebra-se este percurso com uma actuação na Voz do Operário, onde se reúnem actuações dos diferentes níveis de coros e de turmas de Lisboa.

Este ano desci a Avenida da Liberdade no tradicional desfile comemorativo do 25 de Abril, em Lisboa, inserida no “Primavera de Coros”, um movimento de Coros provenientes de todo o país, que une vozes na rua a cantar e resistir, e que foi integrado pela Comissão Promotora das Comemorações Populares do 25 de Abril. Partilhámos as letras das canções previamente escolhidas e cantámos a uma só voz num propósito comum.

Integrar um colectivo e uma causa tem uma força e impele-nos a sentirmo-nos mais válidos em comunidade.

Este domingo, juntei-me na canção “Nossa morada” ao movimento “Primavera de Coros”, que se integrou de forma pacífica, com cancões seleccionadas, às manifestações em Lisboa, Coimbra, Braga e Porto pelo direito à habitação.

Juntemos as nossas vozes a causas que valem a pena a nossa união. A nossa voz, por mais fraca ou baixa que seja, se a juntarmos em grupo, transforma-se numa massa vibrante e contínua.

Se temos um lugar de voz e de fala, isso foi uma conquista de muitos movimentos, e muitas mulheres estão ainda a descobrir a sua voz. Estes movimentos e projectos-escola juntam vozes de mulheres. E juntar a nossa voz à luta por causas como a do direito à habitação é um poder.

“Como não sabiam que era impossível…fizeram-no”

  1. Versos que fazem parte da canção “Desde Que o Samba É Samba”, Música Popular Brasileira (MPB), composta por Caetano Veloso ↩︎
Florbela Barão Silva

Fundadora da ViewPoint PR, mestre em Comunicação, e consultora de Relações Públicas. Almadense.

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