Depois das eleições, haverá futuro para a natureza em Almada?
As eleições autárquicas acontecem no próximo mês de outubro e podem trazer mudanças significativas ao cenário político do concelho, tal como aconteceu nas últimas eleições legislativas a nível nacional. Aproxima-se uma nova etapa que terá impacto direto em várias áreas incluindo a da conservação da natureza.
A pergunta que se coloca é: como vai ser tratada a natureza no novo ciclo político autárquico?
A verdade é que o ambiente em Almada continua a não estar no centro do debate, das decisões e das ações. Continuadamente trata-se, por aqui, a natureza como algo que é bom de ter (fica bem o termo sustentável em tudo) mas não é essencial. E isto acontece quando já todos sabemos que a nossa vida, a nossa saúde, a habitação, a alimentação, enfim, toda a nossa economia, e até a nossa identidade como concelho, dependem de uma natureza próspera.
Importa lembrar que Almada tem uma natureza única — uma linha costeira de praias de 12 kms, fauna marinha emblemática e vegetação mediterrânica — que está sob pressão. A destruição de habitats, a erosão costeira, o turismo de massas, o aumento do consumo de água, a expansão urbana e os projetos turísticos que destroem a natureza, continuam a ameaçar paisagens e espécies que devíamos restaurar, proteger e conservar e continuam a ser temas aos quais não se conseguiu dar resposta.
Por outro lado, Almada é a 6ª cidade mais populosa de Portugal e tem uma recolha de lixo altamente deficiente. O lixo acumula-se em todas as freguesias, causando problemas ambientais e de saúde pública, com ratazanas, pulgas e baratas a circular livremente um pouco por todo o lado; em alguns locais das freguesias do Laranjeiro e Trafaria (Cova do Vapor) o lixo amontoa-se há meses, imagens de terceiro mundo absolutamente incompreensíveis que deveriam envergonhar quem nos governa. Das nossas janelas e varandas vemos lixo acumulado, espalhado e sujidade nas ruas, num dos concelhos mais importantes da Grande Lisboa, que já foi orgulhoso da sua identidade humilde mas séria e responsável. E se não forem tomadas as decisões certas agora, podemos perder ainda mais do que torna este concelho especial.
Uma última nota negativa para o transito infernal (perguntem-nos a nós munícipes de Almada o que as obras do IC 20 vieram resolver?) que causa poluição atmosférica e sonora, para o número reduzido de espaços verdes, para não falar da recuperação da zona ribeirinha.
O lado positivo? O Parque da Paz, um dos maiores do país, um reduto de natureza e um refúgio para a biodiversidade e para as pessoas (mas que ultimamente também apresenta problemas de gestão do lixo); a situação geográfica que nos coloca como um importante ‘player’ relativamente ao estuário do Tejo (à proteção dos golfinhos do Tejo, por exemplo) e ao oceano Atlântico; e as pessoas de Almada, que querem ver a natureza restaurada.
Somos cada vez mais pessoas a defender e a trabalhar pela natureza. E são as nossas vozes que não podem ser ignoradas, independentemente da cor do novo executivo. O executivo que tomará posse depois das eleições de outubro deve escolher proteger a natureza e as pessoas de Almada, sem hesitações, recuperando ecossistemas e combatendo as alterações climáticas, investindo mais na recolha de lixo e na limpeza das ruas, restaurando e criando mais espaços verdes, trazendo mais e melhores transportes públicos e facilitando a mobilidade dos peões e ciclistas, sensibilizando mais os munícipes para esta necessidade urgente de protegermos a nossa natureza.
O futuro de Almada vai depender dos políticos, mas também da pressão que todos nós, enquanto munícipes, conseguirmos fazer, exigindo o que é nosso por direito – um ambiente saudável para viver e usufruir.
Mais do que promessas eleitorais, precisamos de ação efetiva, coragem e responsabilidade. Afinal, num concelho rico em paisagens e biodiversidade, procurado por tantos, cuidar da natureza não é um luxo — é uma necessidade, é um imperativo económico. E se houver vontade e visão, este novo ciclo político pode ser uma oportunidade para fazer mais, melhor e diferente. Ainda vamos a tempo de restaurar e proteger o que é nosso. E isso, por si só, já é uma boa razão para ter esperança.
Almada Online, ambiente, Ângela Morgado, Crónica, Opinião


