Primeiros Shapers portugueses e primeira fábrica de pranchas de surf em Portugal: a Lipsticks na Costa da Caparica
Foi o João Boavida quem me contou esta história. Disse-me que conheceu o Nuno Taveira na Costa em meados dos anos 70, num daqueles dias de glass cinzento, com ondas pequenas.
O Nuno apareceu com uma single fin azul-arroxeada, comprada a um bife qualquer, já cheia de dings e com um rocker no nose tão exagerado que parecia um sapato árabe. Meteram conversa, trocaram histórias e ficaram amigos.
Pouco tempo depois, o João foi a casa dele, em Lisboa, ver as pranchas que andava a fazer. Uma delas, amarela, estava quase oca – o papel de parede não resistiu à resina e a esferovite derreteu. A outra, esverdeada, era uma swallow tail com uma quilha quase ao centro. Sem internet e com revistas de surf a chegarem a conta-gotas, o Nuno improvisava como podia – um autodidata puro. Foi também o primeiro companheiro de surf do João e, juntos, passaram o inverno de 76 a surfar completamente sozinhos na Costa.
Mas o Nuno não era caso único. Por todo o lado, havia autodidatas a tentar fabricar pranchas. Na Linha, Pedro Martins de Lima (pai); no Norte, os irmãos Ribas; na Costa, os irmãos Bruno. E antes de todos, ainda nos anos 60, dois americanos no Estoril aventuraram-se a fazer longboards com corticite (!).
Foi também nessa época que Nuno Jonet – sobrinho do comandante Jonet, que já mencionei numa crónica anterior – conheceu Nick Uricchio. O americano estava alojado na pousada da juventude de Catalazete, a viver por cinco dólares ao dia, com tudo incluído (um sonho). Viera à Europa visitar a irmã, em Espanha, e decidiu dar um salto a Portugal. Olhou para o mar e perguntou onde podia comprar uma prancha. Responderam-lhe que… não podia. Então, foi a França buscar uma e voltou. Por cá ficou, até hoje.
Nos primeiros tempos, Nick foi viver com Jonet para o “palácio” na Mouraria – a casa de família do Nuno, onde ele se instalara depois de regressar de Angola. A praia de eleição era a Costa, claro, onde tinham outro amigo, António Pereira Caldas (APC).
A vida girava entre o surf e a necessidade de ganhar algum dinheiro: APC e Rusa faziam macramé, Jonet e a mulher, Lita, criavam bijuteria com missangas angolanas, e todos vendiam os seus trabalhos na Rua dos Pescadores. Eram exóticos, verdadeiros friques-hippies vegetarianos, algo bastante moderno para a época.
Entretanto, Nick e Nuno aventuraram-se numa oficina de skates, mas APC começou a interessar-se por outro mercado: a reparação de pranchas de windsurf, que na altura estava mais desenvolvido do que o surf. O seu tio Jorge facilitou-lhe o acesso a produtos químicos essenciais para a fabricação de pranchas, aproveitando as ligações familiares à indústria – a mãe e o tio eram donos da CISNE, Fábrica de Material Escolar e de Escritório, S.A. – o que lhe permitiu experimentar novas soluções.
Começou por fabricar velas para windsurf na garagem de casa, na Costa da Caparica, e só mais tarde passou para as pranchas, percebendo que era esse o verdadeiro caminho.


