Os concelhos que dependem do oceano têm de saber cuidar dele
Almada gosta de se pensar a partir do mar. O seu postal de praia, sol e mar é amplamente divulgado e mediatizado e atrai milhares de visitantes todos os anos. A ligação existe: está na história, na identidade, na economia e na forma como o concelho se apresenta ao mundo.
O oceano é tantas vezes usado como imagem de marca, promessa de experiência única e elemento de diferenciação em relação aos demais destinos. Mas se o oceano está no centro da promoção turística de Almada, tem também de estar no centro das decisões políticas sobre o território.
Grande parte da atratividade turística deste concelho depende e assenta na saúde de ecossistemas costeiros e marinhos que continuam a ser tratados como abundantes e inesgotáveis, mas essa ideia deixou de corresponder à realidade.
A erosão costeira, a perda de biodiversidade, a degradação e destruição de habitats e os impactos das alterações climáticas afetam já este território e esta comunidade. Perante este cenário, a questão deixou de ser apenas reconhecer a dependência do turismo em relação ao oceano, mas perceber como este sector pode ajudar na proteção e restauro da natureza, já que, por aqui, o turismo depende da qualidade dos ecossistemas costeiros e marinhos para ser atrativo, seguro e resiliente.
Esta qualidade mede-se em praias protegidas por dunas, águas e areal com qualidade, margens não artificializadas, paisagens vivas e ecossistemas saudáveis. Se estes sistemas falham, falha também parte da promessa turística que o concelho oferece: segurança, beleza, autenticidade e contacto com a natureza.
É aqui que a ambição política tem de mudar. A pergunta já não é apenas como mediatizar destinos de praia e mar, mas como levar o tecido empresarial do concelho a investir na natureza, proteger e valorizar a base natural da qual depende.
Isto implica visão estratégica e decisões concretas: garantir que não há construções em habitats sensíveis, reduzir a pressão sobre dunas e falésias, integrar e investir em soluções baseadas na natureza, gerir melhor os recursos, orientar visitantes para turismo de natureza, e apoiar a economia local. Mais: nos locais onde os ecossistemas foram degradados, é preciso recuperar funções naturais, reforçar a resiliência costeira e devolver qualidade ecológica ao território.
Dito de forma clara: o executivo municipal deve exigir que parte da riqueza gerada pelo turismo contribua diretamente para financiar o restauro da natureza no concelho.
Nada disto é acessório ou dispensável. É gestão de risco, visão estratégica e competitividade. Sabemos que há capacidade de investir, sendo o turismo a atividade que mais contribui para o PIB nacional. Esse é o caminho a aprofundar.
Proteger o oceano e os ecossistemas marinhos é garantir que o turismo continua a existir com qualidade, legitimidade e futuro. A oportunidade está em passar da dependência à responsabilidade: reconhecer que o oceano sustenta o turismo e fazer do turismo uma força ativa na sua proteção e restauro.
E para isso temos que contar com um executivo que não receia dizer o que quer para o concelho e para os almadenses – uma natureza viva e próspera, um oceano saudável e quem deve pagar o quê.
Almada Online, ambiente, Ângela Morgado, Crónica, Opinião



