A Ilha que sempre foi encruzilhada
Estou em Valeta, Malta. E é deste território situado no Mediterrâneo que vos escrevo.
Esta ilha é um arquivo histórico. Fenícios, gregos, romanos, árabes, normandos, aragoneses, franceses, britânicos, todos aqui passaram, todos deixaram marcas. E Portugal, embora mais distante, cruzou-se com esta ilha mais vezes do que a memória comum costuma admitir.
Durante as Cruzadas, muitos cavaleiros portugueses integraram expedições que atravessavam o Mediterrâneo rumo ao Levante. A Ordem dos Hospitalários, que mais tarde se tornaria a Ordem de Malta, manteve contactos frequentes com a coroa portuguesa. Não é por acaso que, séculos depois, D. João V enviaria generosos donativos à Ordem, e que vários nobres portugueses procurariam nela prestígio e carreira militar.
Nos anos trinta do século XVI, quando os Hospitalários se fixam definitivamente em Malta após perderem Rodes, o arquipélago torna-se peça estratégica contra o avanço otomano. Portugal, já potência marítima, acompanha de perto estes equilíbrios. Há registos de oficiais portugueses que serviram em campanhas conjuntas, e de trocas diplomáticas que revelam uma consciência clara, o Mediterrâneo influenciava o Atlântico, e vice-versa.
Observando o Grand Harbour (Grande Poto), percebe-se como esta ilha viveu sempre em estado de alerta, como Almada viveu durante séculos voltada para a defesa da barra do Tejo. Ambas são lugares que vigiam.
Valeta e Almada: duas políticas de margem
Comparar Valeta e Almada é comparar duas cidades que se pensam a partir da água, mas que evoluíram politicamente de formas distintas.
Valeta é uma Capital compacta, construída como fortaleza renascentista. É hoje o centro político de um país pequeno, altamente institucionalizado e com forte dependência da administração central. A política maltesa é marcada por bipolarização intensa, por partidos que funcionam quase como estruturas comunitárias, e por uma cultura de proximidade que, por vezes, roça o tribal. A cidade é palco de decisões nacionais, mas também de tensões entre modernização e preservação histórica.
Almada, por sua vez, é uma cidade que cresceu como extensão metropolitana, sempre em diálogo e, por vezes, em confronto com Lisboa. A política local é mais plural, mais marcada por movimentos cívicos, por tensões entre urbanismo, mobilidade e identidade territorial. Almada não é capital de nada, mas é centro de muita coisa, da margem sul, da ligação ao Tejo, da memória industrial, da pressão habitacional contemporânea.
Ambas vivem o dilema de quem está “em frente a algo maior”. Valeta diante do Mediterrâneo e da história militar. Almada diante de Lisboa e da história urbana. E ambas tentam afirmar autonomia sem perder a relação com o que as rodeia.
Pensar Almada a partir de Malta
Há algo curioso que só se percebe quando se escreve longe da Pátria. Almada tem uma energia marítima que vista de Malta, parece mais evidente. A Costa da Caparica, o Ginjal, a Cacilhas que renasce, o Monte de Caparica que contempla, a Charneca de Caparica que cresce, a Sobreda que se reinventa. Tudo isto forma uma espécie de arquipélago urbano, não muito diferente das pequenas comunidades maltesas que se encostam umas às outras, cada uma com o seu carácter.
E talvez seja essa a conclusão desta crónica: a Ilha de Malta e Almada são lugares de passagem que se tornaram lugares de permanência. Ambas guardam histórias de defesa, de fronteira, de mar. Ambas vivem entre o peso da memória e a urgência do futuro. E ambas, vistas de longe, revelam que a identidade não é apenas o que se é, é também o que se observa quando o olhar se desloca.
Almada Online, Crónica, Opinião, Pedro Dias Pereira, PS


