Pisados pelo Pisa

Com um governo que foge às suas responsabilidades e para o qual a educação está longe de ser uma prioridade a tendência não será ascendente

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Desde 2000 que a OCDE organiza o PISA (Programa internacional de avaliação de estudantes) em que se avalia as capacidades de jovens de 15 anos em várias áreas de conhecimento, língua materna, matemática, ciência. O objetivo é avaliar políticas educativas, e em Portugal tem servido sobretudo como arma de arremesso de baixa política.

Os resultados deste ano mostraram aquilo que não(?) se esperava. Uma regressão nos resultados. O atual ministro, como sempre e como Pilatos, lavou daí as suas mãos. A culpa era dos anteriores (é um discurso que se esgota). O “anterior”, mais decentemente, assumiu parte da responsabilidade, embora não assumindo (como o atual governo gostaria) que as suas políticas estavam erradas.

A gritaria à volta dos resultados devia ter sido mais contida, afinal a queda foi comum em muitos países, o que faz pensar que não se trata tanto de políticas educativas e mais de traços gerais da evolução das sociedades.

Num pequeno texto que escrevi, um amigo chamou-me a atenção por não ter usado a forma passiva que era a correta para a situação. Tinha razão, o nosso vocabulário vai empobrecendo e isso nota-se nos tempos verbais. O futuro, as formas passivas quase desapareceram. O número de palavras em uso corrente também diminui à medida que surgem neologismos para dar um ar mais pomposo a palavras que já existiam. Resiliência, rececionar, vivenciar …

Também se tem vindo a instalar um clima de desconfiança em relação à ciência. Começou com as vacinas nos tempos da Covid, mas tem-se vindo a espalhar um pouco a todas as áreas. Os dados estatísticos são substituídos pelas “perceções”. Um dirigente de um pequeno partido de extrema-direita, vem proclamar nas redes sociais que o que se aprende na escola está errado. A desconfiança estende-as aos jornais e tem objetivos claros, criar um ambiente favorável a todas as notícias falsas, uma pós-realidade ou realidade alternativa.

Warhol, disse que toda a gente podia ser famosa durante 15 minutos, e anos mais tarde isso confirmava-se com os Big-Brothers desta vida, que continuaram com uma série de “famosos”, vá-se lá saber porquê, e chegam agora aos “influencers” da net. Pessoas que não sabem nada, mas cujas opiniões são altamente cotadas. Isto passa também pelas televisões com inúmeros comentadores especialistas em … sabe-se lá o quê.

Nas redes sociais assisti a episódios caricatos. Especialistas de determinados assuntos ,que davam o seu contributo a discussões sobre a área em que tinham décadas de estudo, e que algum génio omnisciente mandava estudar. A Net tornou-se na nova fonte enciclopédica de conhecimento, e nem falo da Wikipédia que é razoavelmente fiável, mas das milhentas pessoas que oferecem o seu conhecimento profundo sobre coisas de que nada sabem.

Vamos então às políticas educativas. Não considero o PISA inútil, mas vejo-o como sinal de políticas educativas em que tudo se mede e são importantes coisas como o número de palavras que se lê por minuto. É muito baseado num sistema capitalista (agora dir-se-ia neoliberal) de competição e de meritocracia. Em sistemas educativos muito diferentes é difícil encontrar indicadores comparáveis, mas, apesar de tudo, é um programa sério que tenta tomar isto tudo em conta.

Portugal, até meados da década anterior, registou melhorias, aproximou-se ou igualou a média da OCDE. Não é difícil compreendê-las. Um sistema educativo muito jovem foi ganhando experiência, os professores foram melhorando a sua formação e, no início deste século, o investimento em educação crescia. Estes últimos resultados chocaram, e em vez de melhorar, pioraram.

O atual ministério e a direita que o apoia, veio, imediatamente, desculpabilizar-se. Posso-lhes dar razão numa coisa, o sucesso educativo não se constrói em dois anos, porém, em desabono deles, o insucesso pode ser mais rápido. Se fosse ao contrário e os resultados melhorassem, lá tínhamos as fanfarras do “melhor ministro da educação”.

Lá veio a lenga-lenga do facilitismo, da falta que fazem os exames da 4ª classe e da exigência. A verdade é que os países de maior desempenho não se caracterizam por um sistema de reprovações, nem pela omnipresença de exames. Portugal é mesmo um dos países com maiores taxas de reprovação, que em alguns países nem existem. Não será por aqui que se encontra uma solução. A falta de professores que se tem vindo a notar nos últimos anos, será um fator mais plausível, mas não único.

Nas últimas notícias fala-se na existência crianças sem colocação na escola. A rede escolar não acompanha rigorosamente a demografia, e este problema surge todos os anos. Até ao ano passado, os casos que a escola não conseguia resolver acabavam por ser resolvidos pelas delegações regionais do ME (Ministério da Educação), às vezes com lágrimas, por não ser a escola pretendida. Parece que depois de uma reunião entre o ministro e os diretores encontraram a solução. Aumentar o número de alunos por turma, a verdadeira descoberta da pólvora. O ministro, tal como todos os outros que tiveram o mesmo problema diz que isso não prejudica a qualidade de ensino (e ouve-se uma gargalhada monumental). Este tipo de instabilidade, bem como a monumental bronca dos exames também tem custos, embora sejam difíceis de medir.

Não sou partidário nem das reprovações, nem dos exames, nem da conceção produtivista de uma escola que se mede em palavras por minuto. Vejo mesmo nesse tipo de educação, que alguns designam pela palavra da moda “neo-liberal”, um empobrecimento da própria escola. Á escola meritocrática, prefiro a escola de cooperação e solidariedade.

A ideia de uma escola adaptada ao mercado de trabalho também não me parece muito acertada. Tudo muda e o mercado de trabalho é das coisas que muda mais. De que serve hoje saber todas as estações de caminho de ferro, quando metade foi desativada? De que serve hoje saber usar logaritmos, com a omnipresença das máquinas de calcular? Quem tem a minha idade nunca aprendeu na escola a lidar com computadores e talvez nem nunca tenha ouvido a palavra. Como será o mercado de trabalho daqui a dez anos, ou a vinte? Coisas como curiosidade, capacidade de adaptação, integração em grupos não se medem, nem cabem muito na escola produtivista.

E as ciências não exatas, a cidadania? A capacidade de viver em sociedade e de tornar este mundo melhor? Não estamos só a formar técnicos ou engenheiros, mas sim pessoas, cidadãos. Queixamo-nos de uma sociedade cada vez mais egoísta, mas não a estamos a criar na escola? As médias do secundário determinam a entrada na universidade, alguns cursos, entre os quais medicina, obrigam a médias próximas do 20. Há que interrogue, espero que sem razão, que estes futuros médicos não tiveram a possibilidade de desenvolver as tão necessárias capacidades humanas.

O pior fica para o fim. Desigualdade social: não eram precisos os resultados do PISA para saber que, em Portugal, é determinante para o sucesso ou insucesso escolar. Como afeta os mais pobres ninguém se preocupa. Em Almada, a comunidade mais pobre tem uma escola que envergonharia um país do terceiro mundo, e devia envergonhar município e governo.

Há uns anos num dos agrupamentos de uma zona pobre do concelho, nos exames de 9º ano, houve apenas uma positiva a Matemática. Soaram campainhas de alarme? O Ministério da Educação mobilizou os seus técnicos? A autarquia atuou? Não, nada, é a normalidade. O sistema educativo não vai corrigir as desigualdades sociais, não acredito na conversa do elevador social, mas em Portugal é muito evidente que trabalha para as manter.

Acredito que vá mudar? Salvo raros momentos, como a “oferta” de material escolar para todos, o que se tem visto é piorar. Ter como grande medida educativa a proibição de telemóveis, e como declaração sobre a qualidade que o número de alunos não é importante, faz pensar o pior. Com um governo que foge às suas responsabilidades e para o qual a educação está longe de ser uma prioridade a tendência não será ascendente.

Nuno Pinheiro

Doutorado em História Moderna e Contemporânea, Investigador associado do CIES/ ISCTE, almadense

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