A Primavera no teatro

Pelo menos, no calendário deste mês a Paz prevalece para os poetas, leitores de poesia e os fazedores de teatro, com o seu público.

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MARÇO lembra sempre a Primavera, mas nos primeiros dias, a 8, o Dia Internacional da Mulher. Acabo de ler que o aumento de homicídios é o mais alto em 3 anos, o crime mais reportado em Portugal, por aumento da violência doméstica, a maioria das vítimas são mulheres. 

Mais do que justificada a Convocatória da Amnistia Internacional “Junte-se a nós pelos direitos das mulheres em Portugal e no Mundo, 8 de Março/15h na Av. da Liberdade.

Depois, o Dia Mundial da Poesia – 21 de Março. Fixo-me, finalmente, na data de 27 de Março, Dia Mundial do Teatro. Na verdade, ARTE É PAZ, foi Jon Fosse, prémio Nobel da Literatura 2023, que assim concluiu na sua Mensagem do Dia Mundial do Teatro 2024. 

©Tom A. Kolstad / Jon Fosse

Pelo menos, no calendário deste mês a Paz prevalece para os poetas, leitores de poesia e os fazedores de teatro, com o seu público. Curiosamente, já em 1962, Jean Cocteau, encarregue da primeira Mensagem do Dia Mundial do Teatro se expressou assim: “Os povos, graças aos Dias Mundiais do Teatro, tomarão finalmente consciência das suas respectivas riquezas e trabalharão juntos num grandioso empreendimento de paz.”

E um dos pontos-chave da Mensagem de 2025, pelo encenador grego Theodoros Terzopoulos, é no sentido de o Teatro dever lançar luz sobre traumas sociais, fugindo à manipulação política/económica e à “ditadura multiforme” actual. Bem como a “Criação de novas narrativas para cultivar a memória e moldar uma nova responsabilidade política”. 

O dramaturgo espanhol Juan Mayorga, representado neste momento em Lisboa pelos Artistas Unidos com a peça “Os Jugoslavos” (boa notícia de que virá também a Almada, no TMJB), sintetiza:  O teatro é uma arte política pelo menos por três razões. 

Porque se faz em conjunto. Porque o seu empreendimento (assinatura) é colectivo. 

Porque é a arte da crítica e da utopia. Examina como vivemos e imagina outras formas de viver.  

É ele também que diz que o teatro é a arte da palavra pronunciada. Autor e actor têm, como o poeta, a missão de assaltar a palavra. De levá-la até ao limite. No palco a palavra só pode ser de combate. Aumentar a capacidade da percepção e sensibilidade do espectador. Mostrar-lhe que algo é distinto do que parece. Fazer-lhe ver os mecanismos e ficções do poder. (Juan Mayorga, Silêncio/Razón del Teatro, Ediciones Lá uÑa RoTa)

De facto, posso não apreciar, posso não me mover para vê-lo, mas nada contra o teatro de entretenimento, se ele não for de “adormecimento”, nos tempos que correm. Mas o melhor teatro é o que espero algo dele. Nesta não propensão para o entretenimento, volto a Mayorga quando lembra o machado de Kafka “Um livro havia de ser como um cutelo que rompesse o mar de gelo do nosso interior”. A maior ambição é que não se dirija à massa do público, mas individualmente desafie um e outro espectador. 

Ainda é cedo para se saber qual a personalidade internacionalmente escolhida para a Mensagem do Dia Mundial do Teatro deste ano, mas podemos imaginar que a mesma não deverá desligar-se dos tempos cada vez mais obscuros no Mundo e a fragilidade  do ser humano, que é, aliás, a matéria principal do teatro, sabemos. 

No dia 27 de Março, o público terá como habitualmente a entrada livre nos teatros. O Teatro Municipal Joaquim Benite, pelo processo habitual de distribuição dos bilhetes, recebe para o público de Almada a peça “John Gabriel Borkman”, a penúltima do notável dramaturgo norueguês Henrik Ibsen, escrita em 1896, aos sessenta e oito anos de idade. Espectáculo que vi, há um mês, no Teatro São Luiz. 

©Pedro Bruno Rodrigues / John Gabriel Borkman

O drama conta sobre a queda de um ex-banqueiro condenado por fraude, depois de sair da prisão. E a acção acontece ao longo de uma noite na mansão de Borkman, onde vive no andar de cima isolado, como se ainda na prisão, mas, na sua ambição desmedida, fixado na ideia de recuperar a glória na sociedade. 

O andar de baixo é o território das tensões familiares, duas mulheres irmãs que o amaram, casa com uma delas por ambição. É a que ali habita, visitada nessa noite pela outra. Mãe e tia de um jovem, num confronto de amor e poder sobre ele, e o desejo de fuga libertadora deste com a namorada. Território que o ex-banqueiro habita e adensa nessa noite. 

A encenação e o espaço cénico são de Joaquim Horta, que interpreta o protagonista. E a quem saúdo por trazer para a cena esta obra de Ibsen. Os intérpretes têm figurinos de José António Tenente. Ainda ecoa em mim a vibração de Rita Durão na personagem de Ella Rentheim e de como o seu figurino, textura e cor, foi fundamental na caracterização da personagem, bem como, por contraste o de Joana Bárcia, a irmã, Gunhild Borkman. Verdadeiro combate entre as duas. Tenho ainda bem presente a marcação de cena e a interpretação de Marco Paiva, na travessia da plateia. Mais nada quero dizer. Tendes o espectáculo para desfrutar no próximo dia 27 de Março. 

Vereis ecos da ambição, culpa e ruína moral nos nossos dias, e muito também o “não olhar os meios para atingir os fins”. Os ciclos, apesar dos séculos, não têm fim…

Na história de Portugal, impossível não lembrar casos recentes, de tão mediáticos, e no mundo, infelizmente, quantos líderes. 

Enfim, o teatro leva-nos ao confronto das grandezas e misérias da sociedade e a olhar com distanciamento para a vida. Em tempos tão duros, é certo que a magia da convenção teatral permite-nos por alguns instantes sonhar. Lembro um pensamento expresso por um cenógrafo: 

“Quando finalmente um pequeno projector se acende nós acreditamos e temos esperança de ver surgir a imagem que nos conforta o coração”, José Manuel Castanheira, in “Um Lugar Para Transformar o Tempo”, edição Companhia Teatro de Almada / Colecção. O Sentido dos Mestres. 

E falando de luz, chamo a atenção para a apreciada exposição de fotografia “Dicionário de Luz”, de Pedro Castanheira, patente na Galeria do TMJB, até esse promissor Dia Mundial do Teatro. 

Capa do livro “A cidade do teatro”, Ed. Câmara Municipal de Almada e Ninho de Víboras, 2016

Também o Teatro Extremo terá em cena até 29 de Março no Teatro-Estúdio António Assunção a peça, que estreia no dia 6, “Volta ao Mundo em 80 Caixas” em co-produção com a companhia premiada espanhola Markeliñe, uma viagem que se pressente pelo Mundo. 

Vou longa, mas não poderei esquecer a importância das colectividades no teatro. ALMADA é território importante do fervilhar do associativismo, da diversidade e pluralidade da actividade teatral. A importância do eco dessa efervescência no tecido teatral. 

Viva, pois, sempre o Teatro! E não apenas no seu Dia Mundial, mas é importante que o tenha!

(Maria Emília Castanheira escreve de acordo com a antiga ortografia)

Maria Emilia Castanheira

Licenciada em Direito, ex-jurista, ESTC (ex Conservatório) e Actriz. Poesia, sempre!

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