Costa da Caparica | As baleias da praia da Adiça
Praia caparicana dá nome a novas espécies de baleia, existente na costa portuguesa há 11 milhões de anos
Uma equipa científica europeia liderada pelo paleontólogo português Rui Castanhinha, descreve, num estudo publicado a 13 de Março, duas novas espécies e um novo género taxonómico de baleias que viviam na costa portuguesa há 11 milhões de anos, a partir de três crânios que vão estar expostos em Lisboa.
Estas baleias de barbas mais primitivas, dominaram os mares durante a maior parte do Miocénico, há cerca de 10 milhões de anos, dando origem aos rorquais modernos, onde se incluem a baleia azul, baleia jubarte, baleia comum, baleia anã, baleia-minke-antártica, baleia-de-bryde, baleia-de-Omura, baleia-boreal, entre outras.
Os crânios, descobertos no século XIX em sedimentos do Miocénico no âmbito de trabalhos numa mina de ouro activa, existente na altura na Arriba Fóssil da praia da Adiça, na Costa da Caparica, fazem parte do acervo do Museu Nacional de História Natural e da Ciência (MUHNAC), em Lisboa, onde podem ser vistos até meados de Abril, segundo indicou a instituição à Lusa.
No estudo, publicado na revista científica de acesso aberto Plos One, Rui Castanhinha e restante equipa, descrevem com base em nova informação obtida a partir de análises filogenéticas e metodologias computacionais avançadas, que os três crânios históricos de baleia pertencem ao novo género Adicetus, rebaptizando os espécimes como Adicetus latus e Adicetus vandelli, representando os mais recentes membros de uma família de baleias actualmente extinta chamada Cetotheriidae.
A designação Adicetus resulta da combinação dos termos Adiça, que remete para o nome do local onde os crânios foram encontrados e, Cetus, que significa baleia ou monstro marinho, em homenagem à praia naturista da Adiça.

Rui Castanhinha, investigador na área da biologia evolutiva no Centro de Estudos do Ambiente e do Mar da Universidade de Aveiro (CESAM) e paleontólogo do Museu da Lourinhã, justificou à Lusa a nomeação de um novo género para estas duas baleias fósseis com o facto de partilharem características “muito próximas” que as diferencia dos grupos designados em 1871 pelo biólogo belga Van Beneden (Metopocetus). Estes espécimes foram considerados como espécies padrão (holótipos) pelo naturalista americano Remington Kellogg em 1941 e nomeados como Metopocetus vandelli, Aulocetus latus e, Cephalotropis coronatus.
Os termos latus e vandelli foram mantidos pela equipa de Rui Castanhinha, com o último dos nomes a remeter para Alexandre António Vandelli, filho do naturalista Domingos Vandelli que recolheu os crânios. Estas análises, com recurso às mais recentes tecnologias, vêm resolver um enigma com quase dois séculos (o mais antigo na paleontologia de vertebrados portuguesa) relativo à sua afinidade evolutiva pois, muito embora estes fósseis tivessem sido várias vezes reportados por outros especialistas, a sua anatomia não tinha ainda sido descrita e comparada com o detalhe agora possível.
Os crânios foram referenciados pela primeira vez em 1831 pelo barão Wilhelm Ludwig von Eschwege, especialista alemão em prospecção mineira, que desempenhava o cargo de Intendente Geral das Minas e Metais de Portugal, sendo por isso os fósseis de vertebrados mais antigos descritos na literatura portuguesa, no caso nas “Memórias da Academia Real das Ciências de Lisboa”. São também os espécimes fósseis portugueses mais citados na literatura internacional
“Achão-se tambem espalhados na costa petrificados de vertebras de peixes, e nas areias da praia da lavra de oiro da Adiça se descobrio tambem huma cabeça grande petrificada, que parece ser de um cetáceo, que bem merecia ser examinada por hum Cuvier (…)” Esta referência do barão em 1831, complementada por Alexandre Vandelli, comprova que, no início do século XIX, os três crânios dos cetáceos foram recolhidos a sul do Tejo, nos arenitos da Arriba Fóssil da Costa da Caparica.
As três baleias da colecção de cetáceos do MUHNAC foram em tempos quatro. Um dos exemplares é referido num inventário de 1914, mas perdeu-se-lhe o rasto.
Segundo Rui Castanhinha, os crânios pertencem a espécimes de baleias que viviam na costa portuguesa há 11 milhões de anos, quando a arriba fóssil da praia da Adiça “estava no fundo do mar”. De primeiros fósseis de vertebrados alguma vez descritos em Portugal, tornam-se agora nas mais recentes novas espécies fósseis portuguesas.
“Eram baleias não muito grandes, com quatro a seis metros”, assinalou, acrescentando que o trabalho feito, que partiu da “necessidade de uma descrição detalhada” dos fósseis, demonstra que o estudo das colecções dos museus de história natural “não termina nunca”.
O trabalho foi conduzido pelos paleontólogos Rui Castanhinha e Rodrigo Figueiredo, do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (Universidade de Aveiro) e Museu da Lourinhã; Mark Bosselapers, do Royal Belgian Institute of Natural Sciences (Bélgica) e Royal Zeeland Scientific Society (Países Baixos) e; Liliana Póvoas do Museu Nacional de História Natural e da Ciência (Universidade de Lisboa).
Estas novas espécies encontram-se em exposição no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, em Lisboa e, podem ser visitados de Terça a Domingo entre as 10h às 17h.
Ciência, Costa da Caparica, Estudo, história, nova espécie, novo género, paleontologia, Praia da Adiça, Rui Castanhinha

